
Minas Gerais registrou a menor taxa de analfabetismo na série histórica, 3,8%. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua – Educação 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, na prática, são aproximadamente 652 mil mineiros com 15 anos ou mais de idade que não sabem ler e escrever. Atualmente, o estado figura em 10º lugar no ranking das Unidades da Federação com as menores taxas de analfabetismo. Em todo o país, 8,4 milhões de cidadãos com 15 anos ou mais não sabem ler e escrever. Para entender o que esse resultado representa para a educação, o Edição do Brasil conversou com a advogada, professora e presidente da Comissão de Educação e Direito Digital da OAB/MG, Daniella Avelar.
Quais fatores ajudam a explicar a redução do analfabetismo no Estado?
A redução é resultado de um conjunto de fatores. Houve maior acesso à educação básica nas últimas décadas, aumento da permanência das crianças na escola, expansão das políticas de alfabetização e melhora dos indicadores de escolarização das novas gerações. Além disso, Minas Gerais tem investido em programas de alfabetização na idade certa e na aprendizagem nos anos iniciais, o que contribui para que menos crianças cheguem à adolescência sem serem alfabetizadas.
Essa queda na taxa significa que os desafios da alfabetização foram superados?
Não. O dado merece ser comemorado, mas não pode gerar uma falsa sensação de missão cumprida. A redução do analfabetismo absoluto representa um avanço importante, porém, ainda existem milhares de mineiros que não sabem ler e escrever.
De acordo com o levantamento, o analfabetismo está diretamente associado à idade. Quais são os maiores desafios para alfabetizar adultos e idosos?
Políticas como a Educação de Jovens e Adultos (EJA) precisam oferecer horários flexíveis, metodologias adequadas à realidade desses estudantes e acolhimento. O próprio IBGE demonstra que o analfabetismo permanece significativamente mais elevado entre os idosos, indicando que esse público deve ser prioridade nas políticas educacionais.
O analfabetismo funcional ainda representa um dos principais problemas da educação brasileira?
Sem dúvida. Hoje, o Brasil enfrenta um cenário em que muitas pessoas frequentaram a escola, mas não desenvolveram plenamente as competências de leitura, interpretação e raciocínio matemático. Isso significa que conseguem ler um texto, mas têm dificuldade para compreender uma notícia, interpretar um contrato, preencher um formulário ou identificar uma informação falsa. Na prática, isso afeta o acesso ao mercado de trabalho, o exercício dos direitos, a participação democrática e até a segurança digital. Para além do analfabetismo funcional, hoje também é discutido o índice de analfabetismo digital, que são aquelas pessoas que não sabem utilizar aplicativos ou plataformas virtuais. Elas não possuem senso crítico das informações que estão acessando e acabam se tornando vítimas de golpes virtuais.
Na sua avaliação, quais políticas públicas são prioritárias para consolidar a redução do analfabetismo e melhorar a qualidade da aprendizagem?
As prioridades passam por três grandes eixos. O primeiro é fortalecer a alfabetização na primeira infância e garantir que todas as crianças sejam alfabetizadas na idade adequada. O segundo é investir na valorização e formação dos professores, pois eles são protagonistas desse processo. E o terceiro é ampliar programas de recuperação da aprendizagem, fortalecer a EJA e reduzir as desigualdades regionais.
O que Minas Gerais pode fazer para transformar a redução do analfabetismo em uma melhora efetiva na qualidade da educação?
Não basta que o aluno esteja matriculado, é preciso garantir que ele aprenda. Isso envolve avaliações contínuas, fortalecimento da leitura, escrita, matemática e pensamento crítico, além da redução das desigualdades entre escolas e municípios. Também considero essencial investir em bibliotecas, formação docente, inclusão digital e no uso pedagógico das tecnologias, preparando os estudantes para os desafios do século 21.