O drama do Brasil e do mundo pós-IA

O grande problema do Brasil são as narrativas. Enquanto tivermos um governo que assuma a nossa pobreza e tente transformar pobreza em prosperidade, vivenciamos um trabalho onde temos um país com um dos maiores partidos, o dos trabalhadores, incentivando as pessoas a não trabalhar. Então, como nós vamos reverter esta realidade e uma herança histórica de um cara chamado Getúlio Vargas, que acabou com o país no século passado e deixou um herdeiro, o atual presidente.

Os dois criaram uma cultura de que o Estado é o pai, é mãe, é tudo. Só que as pessoas não têm educação para entender que quem financia o Estado é quem trabalha e se você não trabalhar, quem vai pagar a máquina, uma máquina inoperante e corrupta.

Se não colocarmos nas cabeças das pessoas que o Produto Interno Bruto (PIB) é a soma de bens e serviços produzidos que, se não houver produção, não haverá riqueza, nós podemos fechar. O Brasil está fadado a ser um país pobre, miserável. Nós estamos empobrecendo a cada ano, exatamente pela cultura de um Estado, que é sustentado cada vez mais por uma classe trabalhadora menor. Como vamos discutir 6 por 1 em um país pobre. Se formos para um país rico, desenvolvido, aí sim. Mas aqui temos que trabalhar e muito para revertermos o quadro que estamos e chegamos a esta situação, pelos governos populistas que prevaleceram até aqui.

Durante os sucessivos ciclos da revolução industrial, a promessa do avanço tecnológico sempre veio acompanhado de uma premissa: as máquinas assumiriam o peso do trabalho braçal e repetitivo, liberando a humanidade para o exercício de suas capacidades mais nobres, o pensamento, a filosofia, a arte e a inovação.

O drama do mundo pós-IA não reside, porém, apenas na perda imediata de postos de trabalho, mas na impossibilidade matemática de realocação dessa mão de obra. Nas revoluções anteriores, o trabalhador que perdia o emprego no campo migrava para a fábrica e o operário substituído pelo robô encontrava abrigo no setor de serviços, que por sinal é o que mais cresce. Mas agora, a engrenagem é diferente. Pela primeira vez na história moderna, a inovação tecnológica corre o risco de destruir muito mais empregos do que é capaz de criar. Para onde migrarão os milhões de profissionais que serão substituídos pela IA se a própria demanda por trabalho está encolhendo? A dura matemática do mundo pós-IA indica que não haverá transição de carreiras simplesmente porque existirão, em termos absolutos, muito menos empregos disponíveis.

O que se projeta no horizonte de curto prazo é a concretização do cenário alertado pelo historiador Yuval Harari, autor do livro “Sapiens: o surgimento de uma imensa classe inútil”, um enorme contingente de pessoas que, diferentemente do proletariado explorado do século 19, sequer será necessário para girar a roda da economia. Na definição de Harari, são pessoas que não serão apenas desempregadas, mas não serão empregáveis. Trata-se de uma massa de cidadãos que, a despeito de sua formação acadêmica ou experiências, não conseguirá se realocar no mercado tradicional.

É imperativo, que os formuladores de políticas públicas, o empresariado e sociedade civil abandonem o estado de deslumbramento tecnológico e encarem a gestão dessa crise com a gravidade que ela exige. Os debates sobre taxação de algoritmos, redução drásticas de jornadas (para distribuir melhor o trabalho restante) e a implementação de uma renda básica universal precisam sair dos simpósios acadêmicos e entrar, para ontem e à sério, nas pautas legislativas.

O mundo pós-IA não é uma ficção especulativa. É a realidade batendo à porta de todos. Priorizar a construção de uma rede de proteção social para os que serão inevitavelmente deixados para trás por essa revolução não é apenas uma questão de empatia ou justiça social: é o único caminho para evitar que o maior feito tecnológico da humanidade se transforme em seu maior desastre humanitário.

Uma sociedade estruturada em torno de uma maioria ociosa por falta de oportunidades é o terreno fértil para a desestabilização democrática e para a ruptura institucional.

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