
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de jovens de 16 e 17 anos que fizeram o cadastro eleitoral e estão aptos a votar cresceu 78% em comparação com 2020. São 1.836.081 eleitores nessa faixa etária. O crescimento desse grupo superou o do eleitorado em geral, que subiu 5,4% de um pleito municipal a outro. Já nas eleições gerais de 2022, os adolescentes haviam comparecido em número ainda maior, com o alistamento de 2,1 milhões (51,13% acima de 2018). Para entender sobre o impacto desses índices nas eleições, o Edição do Brasil conversou com o cientista político e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Raul Magalhães.
O que explica o aumento recente no número de eleitores jovens no Brasil?
Em 2012, houve forte adesão de jovens menores de 18 anos. Esse engajamento, no entanto, caiu em 2016 e voltou a recuar em 2020, ano marcado por uma queda mais acentuada, influenciada pelo contexto da pandemia. A partir de 2024, observa- -se uma retomada, movimento que se repete em 2026. Isso indica um retorno à normalidade no engajamento político dessa faixa etária.
Por outro lado, o atual contexto político também exerce influência direta nesse crescimento. O elevado grau de polarização da sociedade brasileira, marcado por divisões ideológicas e debates morais intensos, tem contribuído para atrair mais jovens ao voto facultativo.
Como o ambiente digital e as redes sociais influenciam a decisão desse grupo de votar?
O ambiente digital e as redes sociais exercem forte influência sobre a decisão dos jovens de votar, assim como impactam diversos outros aspectos de suas vidas. Apesar de sugerir maior facilidade de acesso à informação, esse ambiente nem sempre cumpre esse papel de forma efetiva. Isso porque, é comum a vivência em “bolhas” de informação e convivência.
De alguma maneira, as mensagens são muito retroalimentadas dentro de um caldo de cultura específico, no caso dos jovens e das redes em geral, as informações são muito superficiais, com base em análises fracas. Assim, embora o meio digital tenha potencial para ampliar o acesso à informação, seu uso não necessariamente resulta em maior nível de conhecimento político.
Há diferenças relevantes entre o comportamento político dos jovens atuais e de gerações anteriores?
As diferenças entre a juventude atual e os das gerações anteriores ainda demandam análises mais aprofundadas, mas, entre os jovens inseridos em um ambiente marcado pela internet e pela formação de grupos, as chamadas “bolhas”, a influência tende a ser mais horizontal. Diferentemente de modelos mais tradicionais, nos quais os jovens tinham os adultos como referência, o cenário atual aponta para uma maior autonomia desses grupos, em que o comportamento dos próprios integrantes das “bolhas” orienta decisões e posicionamentos.
No entanto, esse é um processo ainda em curso, cujos desdobramentos futuros são incertos. Além disso, não é possível analisar a juventude apenas como uma faixa etária homogênea. Fatores como classe social, raça, religião e os espaços de convivência continuam exercendo influência significativa sobre o comportamento desse grupo.
Os partidos políticos estão preparados para dialogar com esse público?
Não, as legendas operam, atualmente, sob uma lógica fortemente orientada pelo financiamento público e pela gestão de recursos institucionais, o que garante aos parlamentares maior margem de manobra para buscar a reeleição. Nesse cenário, não há uma preocupação em estabelecer comunicação com os jovens, nem uma identificação desse grupo com os políticos profissionais.
O que precisa acontecer para que o jovem não apenas vote, mas participe mais ativamente da política?
Uma reformulação geral na democracia, e isso não se relaciona apenas aos jovens, mas aos eleitores em geral. A distância que o eleitorado tem da política é porque depois do voto, o sistema passa a operar com uma lógica própria, muitas vezes distante e pouco responsiva. Isso gera a sensação de que a participação individual tem pouco impacto real no funcionamento da política.