Museu do Norte de Minas recebe mostra “Sentinelas: Carrancas Pinceladas”

As obras são divididas entre pinturas, esculturas e fotografias / Foto: WS Saint

Simbolizando força, identidade cultural ribeirinha e fé, as carrancas são consideradas obras de arte popular e símbolo da cultura e do folclore brasileiro. Desde o início de dezembro, o Museu Regional do Norte de Minas, em Montes Claros, recebe a mostra “Sentinelas: Carrancas Pinceladas”, do artista, arquiteto e fundador do Centro Cultural Lá da Favelinha, Kdu dos Anjos.

Com raízes fincadas no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, e memórias que atravessam o Vale do São Francisco, Kdu revisita as carrancas, figuras míticas que, há séculos, protegem embarcações e caminhos, para recriá-las em tinta, textura e gesto contemporâneo. Sua produção emerge como uma ponte espiritual entre o Serrão e o Velho Chico, entre a vida urbana e as águas que moldaram o imaginário ribeirinho do Norte de Minas, onde seu pai, natural da cidade de Manga, nasceu às margens do rio.

O artista revela como surgiu a ideia para criar a exposição. “Sempre senti que as carrancas carregam uma força ancestral que conversa diretamente com a favela, com minha história e com o jeito que vejo o mundo. Cresci entendendo a proteção não como algo distante, mas como gesto cotidiano de sobrevivência. A mostra nasceu dessa vontade de aproximar esses universos: a potência do rio e da quebrada, duas margens que me atravessam e me formam”.

“Meu pai cresceu às margens do São Francisco e me carregou junto nesse imaginário. Sempre ouvi as histórias dele, do rio, de barco, de bicho, e da correria para sobreviver. As carrancas entram como essa ponte afetiva: são memórias dele comigo, são símbolo de proteção e um jeito de manter viva a força do lugar de onde ele veio”, acrescenta.

A mostra reúne 50 obras, divididas entre pinturas, esculturas e fotografias. Minhas carrancas não ficam presas no folclore ou no museu, afirma Kdu. “Elas ganham textura de tijolo, gesto de favela, cor de periferia. É uma tradição reinventada, as carrancas do rio viram sentinelas do morro. Misturo o espírito do São Francisco com a estética urbana, como quem entende que proteção também é território, comunidade, vizinhança que se olha e se guarda”.

Ele descreve que proteção é movimento, é fé, é força que não precisa ser perfeita. “As pinceladas tortas, a textura de muro, o gesto bruto, tudo isso materializa a ideia de que proteger é resistir. Minhas carrancas são amuletos periféricos: espantam o mau, guardam caminhos e lembram que a beleza também pode ser talhada na luta”.

Sentimentos e reflexões

Kdu espera que o público se veja, se reconheça e se questione. “Que sinta a vibração do Norte de Minas, a energia da favela e o abraço espiritual da ancestralidade. Quero provocar orgulho, memória e principalmente pertencimento. A importância de ocupar um espaço como o Museu Regional do Norte de Minas é devolver para o território uma história que nasceu nele. É afirmar que a região também produz vanguarda estética, sensibilidade e potência. É ocupar um museu com narrativas que muitas vezes ficam do lado de fora, como: a favela, o rio, a periferia, o filho de Manga que volta como artista”.

“O Norte de Minas é um celeiro cultural, espiritual e simbólico gigantesco, mas por muito tempo ficou à margem. Falta olhar com mais cuidado, mais investimento e mais orgulho. O que faço aqui é também um gesto de valorização”, acrescenta.

A arte dá continuidade ao que poderia virar só memória, destaca Kdu. “Quando você traz a tradição para o presente, ela respira de novo. Pintar carrancas na favela, nos tijolos, nas telas, é mostrar que a cultura não é estática: ela se move, evolui, incorpora novos mundos e segue protegendo”, finaliza.

Serviço:

Exposição “Sentinelas: Carrancas Pinceladas”

Visitação: até 31 de janeiro de 2026
Horário: terça a sexta, das 9h às 17h; sábados e feriados, das 9h às 13h
Local: Museu Regional do Norte de Minas – Praça Dr. Chaves, 32 – Montes Claros

Entrada gratuita

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