Mudança na diretriz reforça prevenção contra a hipertensão

Medição correta da pressão é essencial / Foto: Marcelo Camargo-Agência Brasil

O tradicional “12 por 8” (120/80 mmHg), antes considerado normal, passou a ser classificado como pré-hipertensão, servindo como alerta precoce para cuidados de saúde. A mudança foi apresentada na nova Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, divulgada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) e Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH), que altera a forma como a pressão arterial deve ser interpretada e acompanhada no país.

O cardiologista Juan Ferreira explica que a mudança não significa que todos serão rotulados como doentes. “A mudança amplia a faixa de atenção para detectarmos mais cedo quem tende a subir a pressão nos próximos anos. O termo pré-hipertensão não é sinônimo de hipertensão; é um sinal para agir antes, com o objetivo de não atingirmos o corte de 140/90 mmHg. A finalidade é prevenção e personalização do cuidado, não medicalizar todo mundo”.

Com a nova diretriz, pacientes na faixa de pré-hipertensão devem priorizar hábitos saudáveis para evitar a progressão do quadro. Mas nem sempre é fácil, segundo Ferreira. “As principais barreiras são a rotina exaustiva, custo e acesso restrito a alimentos in natura, falta de locais seguros para praticar atividade física, baixa informação em saúde e comorbidades, como ansiedade e obesidade. Estratégias simples funcionam: metas semanais pequenas, informações claras e acompanhamento por equipe multiprofissional”.

Outro ponto que recebeu destaque na nova diretriz foi a aferição da pressão arterial em casa. Segundo o cardiologista, alguns erros são comuns ao fazer o procedimento por conta própria. “Manguito inadequado para o braço, braço sem apoio na altura do coração, falar ou se mexer durante a medida, medir logo após café ou exercício, bexiga cheia e fazer só uma leitura isolada. Esses erros podem criar a falsa ideia de hipertensão do avental branco ou mascarada, levando a diagnósticos equivocados”, alerta o cardiologista.

Também mudou o início antecipado da medicação para pacientes de hipertensão estágio 1 e baixo risco. De acordo com Ferreira, essa alteração deve trazer alguns benefícios, como a queda adicional da pressão e a prevenção de eventos a longo prazo. “Muitos pacientes resistem às mudanças no estilo de vida e acabam ficando anos sem tratamento adequado. A nova diretriz busca corrigir essa leniência”.

“A meta agora é manter a pressão abaixo de 130/80 mmHg para todos os hipertensos. Na prática, vamos intensificar o tratamento com alvo único e claro, usar mais combinações em dose fixa para facilitar a adesão e checar a tolerância, principalmente em idosos frágeis”, acrescenta.

Impactos no Brasil

O país tem cerca de 28% de adultos hipertensos, e apenas um terço mantém a pressão controlada. Na avaliação de Ferreira, a nova diretriz pode ajudar a reduzir complicações cardiovasculares graves. “As mudanças trazem três alavancas: diagnóstico mais cedo, alvos claros e estratificação de risco com terapias simplificadas. Isso melhora a adesão, reduz o subtratamento e aumenta a chance de desfechos melhores”.

Mitos e verdades

A cardiologista Fernanda Weiler esclarece equívocos comuns em relação à pressão arterial.

Mito: 12 por 8 significa tranquilidade total. “Esse valor já indica maior risco do que números abaixo de 120/80 mmHg. É um sinal de alerta, não de normalidade”.

Mito: pré-hipertensão leva automaticamente ao uso de remédios. “Em geral, o primeiro passo é mudar o estilo de vida. Medicamentos só são considerados em casos de alto risco cardiovascular ou se após meses de ajustes, os valores seguirem elevados”.

Mito: só pessoas mais velhas precisam se preocupar. “A hipertensão pode aparecer em adultos jovens. Prevenir cedo reduz complicações como infarto e acidente vascular cerebral (AVC)”.

Verdade: prevenir cedo traz benefícios duradouros. “A atualização nos dá uma janela de ação importante: intervir quando o quadro ainda é reversível pode salvar vidas”.

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