Mpox: nova variante desperta preocupação entre especialistas

Manchas e vesículas são sintomas mais frequentes – Foto: Freepik.com

Mais de 80 casos de mpox já foram confirmados no Brasil em 2026, segundo dados do Ministério da Saúde. A doença, causada pelo vírus monkeypox, voltou a preocupar após o aumento das notificações e a maior circulação de pessoas no período pós-Carnaval. O cenário ganha um novo componente com a confirmação, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de uma variante do vírus, formada pela combinação genética dos clados Ib e IIb.

O infectologista Klinger Faíco explica que a recombinação é um fenômeno conhecido na virologia, mas que ainda precisa ser observado de perto no contexto da mpox.

“Quando falamos de recombinação, estamos nos referindo à mistura do material genético de dois vírus que infectaram a mesma pessoa. Isso pode gerar um novo vírus com características diferentes. Ele pode ter transmissão mais fácil, mais rápida, ou até conseguir driblar o sistema imune. Pessoas que já haviam desenvolvido alguma imunidade podem não estar totalmente protegidas. É algo que ainda não tinha ocorrido na mpox, o que nos preocupa neste momento”.

Segundo o especialista, o monitoramento agora deve se concentrar não apenas na quantidade de registros, mas também na evolução clínica dos pacientes. “Precisamos acompanhar se há aumento da gravidade, se mais pessoas estão sendo hospitalizadas, se evoluem para UTI ou apresentam complicações raras, como pneumonia ou encefalite. Tudo isso deve ser analisado para entender se essa nova variante altera o comportamento da enfermidade”.

Transmissão

A mpox é transmitida principalmente pelo contato direto com lesões cutâneas, secreções, gotículas respiratórias em proximidade prolongada e por objetos contaminados, como roupas e toalhas. A infectologista Flavia Porto ressalta que a disseminação pode ocorrer antes mesmo do surgimento evidente das lesões. “A pessoa começa a transmitir alguns dias antes de apresentar os sintomas. Não existem formas totalmente assintomáticas, como vimos na COVID-19, mas pode haver quadros leves, com poucos sinais, e o diagnóstico passar despercebido. Nesse intervalo, ela já consegue transmitir o vírus até a resolução completa do quadro”.

De acordo com Flavia, a manifestação clínica é marcada principalmente por lesões de pele que evoluem de maneira semelhante entre si. “São vesículas, pequenas bolhas agrupadas, que passam por um ciclo: começam como lesão avermelhada, tornam-se bolhas, depois formam crostas e cicatrizam. Diferentemente da catapora, em que as lesões aparecem em estágios distintos, na mpox elas costumam estar na mesma fase. Muitas vezes surgem na região genital ou em mucosas, o que pode confundir com herpes ou outras infecções sexualmente transmissíveis”.

Na avaliação da infectologista, qualquer alteração deve ser examinada. “Como se trata de uma doença de notificação compulsória e que não circula amplamente, a orientação é buscar atendimento médico diante de suspeita. O profissional vai avaliar, notificar em até 24 horas e orientar o isolamento. Essa é a lógica para conter a propagação”.

Ela reforça que o isolamento deve ser mantido até a cicatrização completa das lesões. “Mesmo que a pessoa esteja se sentindo bem, não pode interromper o isolamento por conta própria. As lesões precisam cicatrizar totalmente antes da liberação médica”.

Os especialistas também enfatizam que a mpox não está restrita a um grupo específico, embora determinados perfis tenham concentrado mais ocorrências desde 2022. “Existe muito preconceito quando se associa a doença a um grupo. Todas as pessoas são suscetíveis. A transmissão está ligada à exposição e ao contato, não à identidade de gênero ou à orientação sexual”, afirma Flavia.

Klinger Faíco acrescenta que estratégias como prevenção combinada e educação em saúde são essenciais. “Precisamos falar de saúde sexual, testagem, formas de prevenção e acesso à informação de qualidade. A desinformação dificulta o controle da doença e pode afastar as pessoas dos serviços de saúde”.

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