
Apesar da Selic estacionada em 15% ao ano, a construção civil brasileira mostra resiliência e segue gerando empregos. Em maio deste ano, o setor ultrapassou a marca de 3 milhões de trabalhadores com carteira assinada, número que não era alcançado desde 2014. Só nos primeiros cinco meses de 2025, o saldo é de 159.440 mil novos postos formais, o que representa 14,2% de todas as vagas geradas no país no período, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
No entanto, a vitalidade do setor contrasta com uma grave retração no crédito à produção imobiliária, que caiu 62,9% em unidades e 54,1% em valores de janeiro a maio, segundo o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). A retração está ligada à fuga de recursos da caderneta de poupança, com captação líquida negativa de R$ 38,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025, comprometendo uma das principais fontes de financiamento da construção civil, tanto para a aquisição quanto para a produção de imóveis.
“Quando os juros estão elevados, os investidores migram para aplicações com maior rentabilidade e retiram recursos da poupança. Isso reduz drasticamente o volume disponível para financiar a produção imobiliária e obriga o construtor a buscar crédito mais caro no mercado, elevando o custo das obras”, explica Ieda Vasconcelos, economista-chefe da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Ainda assim, a CBIC manteve a projeção de crescimento em 2,3% para 2025, sustentada por empreendimentos lançados nos últimos dois anos, que ainda estão em fase de execução. Mas, Ieda alerta que o cenário inspira cautela. “Estamos vivendo os efeitos de investimentos passados. Se esse patamar elevado da Selic persistir, novos projetos tendem a ser adiados, o que pode comprometer o desempenho do setor a partir de 2026”.
“A palavra-chave para atravessar esse momento é planejamento. O setor cresceu mesmo em períodos difíceis por saber se organizar. É esse plano de longo prazo que garante a continuidade do ciclo de crescimento”, completa.
Estratégias contra o crédito caro
Empresas do setor têm buscado alternativas para manter o ritmo de vendas. Um dos fatores que tem ajudado é o fato de o programa “Minha Casa Minha Vida” operar com taxas pré-fixadas nas Faixas 1, 3 e 4, amenizando os impactos diretos da Selic para o consumidor final.
“O que mais tem afetado é o custo para viabilizar os empreendimentos. Com os recursos livres, as taxas chegam a 18% ao ano, o que exige projetos com maior valor agregado e um volume maior de vendas para equilibrar os custos. Por isso, é fundamental estruturar bem a contratação e ajustar o perfil dos produtos”, explica Anderson Lopes Morais, diretor comercial da BRZ Empreendimentos.
O segmento tem apostado na Faixa 4 do “Minha Casa Minha Vida”, voltada para famílias com renda entre R$ 8.600 e R$ 12 mil. Ainda que represente apenas 3,5% do déficit habitacional, esse público tem poder aquisitivo para adquirir imóveis com mais diferenciais como varanda, suíte e áreas de lazer completas. O que tem mantido esse nicho atrativo mesmo em tempos de crédito caro.
Morais explica que esses clientes buscam qualidade, localização e bons acabamentos. “Apesar de mais seletivo, é um público estratégico. Mas exige atenção na análise de crédito e no encaixe da renda com o valor do imóvel”.
Ele revela que houve mudanças no perfil do comprador. Há maior exigência de comprovação de renda por parte dos bancos, e o recurso à composição de renda tem crescido. “Cada vez mais vemos compradores unindo a renda com cônjuges, familiares ou parceiros para conseguir financiamento. Isso amplia o acesso ao crédito e viabiliza as compras com exigências mais rigorosas”.
Riscos
A CBIC aponta que a queda no crédito à produção e a instabilidade no cenário macroeconômico, com inflação fora da meta e incertezas fiscais e internacionais, geram preocupação para o médio prazo. “O ciclo da construção é longo. A obra que começa hoje será entregue daqui a dois ou três anos. Se os investimentos forem adiados agora, o setor poderá sofrer uma freada brusca no futuro”, destaca Ieda.
Cada R$ 1 milhão investido na construção gera 13 empregos diretos, indiretos e induzidos, além de movimentar mais de 90 segmentos produtivos. “Limitar o crescimento da construção é comprometer o desenvolvimento do país. Precisamos de previsibilidade, ambiente estável e crédito acessível para manter esse motor em funcionamento”, finaliza a economista.



