Livro “Pelo Olhar do Meu Pai” fala da influência paterna na identidade

Foto: Arquivo pessoal

No livro “Pelo Olhar do Meu Pai”, lançado esse ano, Eliene Lima apresenta uma narrativa autobiográfica que ultrapassa os limites de sua experiência pessoal, propondo ao leitor uma reflexão profunda sobre os laços familiares, o papel do pai e a maneira como essas relações contribuem para a formação da identidade. A autora revisita memórias que atravessam 50 anos de sua trajetória, da infância à maturidade, e mostra como a figura paterna, suas convicções e palavras influenciaram suas decisões e sua visão de mundo.

A obra tem como ponto inicial a atuação profissional da autora como psicóloga na Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). No entanto, conforme ela retoma suas vivências, o relato ganha dimensão mais ampla, incorporando sua própria trajetória pessoal e as raízes de sua conexão com o universo militar. Ao revisitar passagens da infância e juventude, a autora expõe como a figura do pai exerceu forte influência na construção de suas convicções, tanto em relação a si mesma quanto ao papel da mulher na sociedade e às possibilidades de futuro que vislumbrava.

“O autoconhecimento faz parte de minha vida desde muito cedo, às vezes orientado por profissionais de saúde mental, às vezes por meio de leituras, em um processo solitário de reflexões e questionamentos sobre meus comportamentos e minhas angústias. Ao descrever minha história, desde o início foi possível identificar que muito do que vivi faz parte da história de mulheres de minha geração e classe social, que enfrentaram os mesmos dilemas, anseios e expectativas. Assim, temas como amor, filhos, profissão, preconceito, escolhas, fazem sentido na minha história e na de tantas outras pessoas”, afirma Eliene.

Ela explica que o livro fala de sua história, narrando experiências e as influências que teve na construção do psiquismo e nas escolhas que fez ao longo de 5 décadas. “Ao publicar essas vivências e as elaborações que fiz sobre elas durante anos de psicoterapia, meu intuito era incentivar meus leitores a conhecerem um pouco mais sobre sua própria história e identificar os fatos e as pessoas que contribuíram para que se tornassem a pessoa que são hoje. Eu pretendia incentivar o autoconhecimento dos meus leitores”.

Relembrar experiências e traduzi-las em palavras significou para Eliene uma complementação do seu processo de autoconhecimento. “Foi como estar em sessão terapêutica a cada capítulo e a cada revisão do livro, de forma muito autêntica e emocionada. Escrever essa autobiografia foi como o fechamento de um ciclo para abertura para novos começos, arrematando elaborações que fiz sobre vivências e dores que são comuns a nós, seres humanos. E divulgá-las me exigiu muita coragem para expor minhas mazelas e para receber críticas e julgamentos”.

A autora fala do olhar do pai em um duplo sentido: tanto aquele olhar que vigia quanto aquele olhar que valida. “A influência do pai na formação psíquica da menina está diretamente ligada à identificação sexual, à sua validação como uma pessoa de valor, influenciando sua autoconfiança e autoestima. No meu livro uso os exemplos de minha própria relação com meu pai para mostrar o quanto as crenças preconceituosas dele e suas falas sobre o que é ser uma mulher e seu papel na sociedade, me incentivaram a canalizar minha energia muito mais para a realização profissional que para a vida afetiva”.

“Meu pai falava que as mulheres eram emocionalmente vulneráveis, tinham pouca capacidade de tomar decisões objetivas e se submetiam facilmente aos homens. Dizia que isso reduzia o seu valor perante a sociedade e limitava suas escolhas. Ouvir isso desde criança, e ver ao meu redor exemplos que confirmavam suas palavras, fez com que eu me esforçasse muito para ser vista de forma diferente pelo meu pai e alcançasse reconhecimento social, me tornando uma mulher com autonomia sobre seus atos e desejos”, destaca.

A obra se apresenta como uma conexão entre a experiência pessoal e a reflexão sobre a construção da identidade. Enquanto compartilha a trajetória de uma mulher comum, incluindo suas vivências na Polícia Militar, um ambiente majoritariamente masculino, a narrativa convida o leitor a olhar para a própria história, reconsiderar suas relações familiares e refletir sobre como esses laços contribuíram para moldar quem ele é hoje.

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