Livro Flores Astrais mistura gótico e realidade no interior de Minas Gerais

Livro é o primeiro romance do escritor Marcelo Nery / Foto: Divulgação

O escritor mineiro Marcelo Nery estreia na literatura com Flores Astrais, romance que mistura suspense, memória e crítica social ao transportar o gênero gótico para o interior de Minas Gerais. Publicado pela editora Mondru, o livro constrói uma saga familiar marcada por traumas, religiosidade e heranças históricas que atravessam gerações. A obra pode ser adquirida no site mondru.com/produto/flores-astrais.

A narrativa acompanha Tiago Amaral Grandi, um jornalista que retorna à fazenda da família após 20 anos, em 1980, e se vê diante de um passado que insiste em não desaparecer. Entre segredos, assombrações e conflitos familiares, o protagonista enfrenta estruturas de poder e preconceito que moldaram sua trajetória.

Ao propor uma “saga familiar gótica rural mineira”, Nery adapta elementos clássicos do gênero a uma realidade brasileira. “O gótico não é exclusividade da Europa, ele é uma atmosfera feita de tensão, silêncio e culpa. O que eu fiz foi manter essa estrutura e deslocar o cenário. O castelo vira um casarão de fazenda, a neblina vira a poeira vermelha da estrada, e a aristocracia europeia dá lugar a uma elite agrária construída sobre violência histórica”, explica.

A obra também é atravessada por experiências pessoais do autor. Criado entre a capital e o interior, ele incorpora vivências de uma infância marcada pela religiosidade e pelo conservadorismo. “É um livro que nasce desse lugar. Crescer gay no interior de Minas, em uma família tradicional e religiosa, traz uma camada de culpa e silêncio que dialoga muito com o gótico. São experiências individuais que refletem uma estrutura maior da sociedade”.

No centro da narrativa, Nery diz que a sexualidade do protagonista não é tratada como pauta isolada, mas como força que tensiona relações e expõe contradições. “Não é uma história sobre ser gay, mas sobre um homem que volta para um lugar onde ele não teve o direito de existir. Essa fricção movimenta a narrativa e revela dinâmicas de opressão que vão além do personagem”.

O sobrenatural, por sua vez, assume um papel estratégico. Mais do que elemento de gênero, funciona como ferramenta de leitura da realidade. “O fantástico não está ali para explicar, mas para revelar. Ele coloca uma lupa sobre aquilo que foi reprimido, amplia o absurdo e mostra que aquilo continua muito próximo da nossa realidade”, pontua o autor.

Com estrutura não linear, múltiplas linhas do tempo e cerca de duas décadas de acontecimentos entrelaçados, o livro foi desenvolvido ao longo de quase dois anos de pesquisa e escrita. Influenciado por autores como Agatha Christie e pela tradição oral mineira, Nery aposta em uma narrativa fragmentada. “Eu não quis dar respostas. O leitor vai montando esse quebra- -cabeça e, em muitos momentos, se reconhece nas contradições dos personagens”, finaliza.

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