Livro “A Dança da Serpente” revisita repressões históricas do Brasil

Foto: Divulgação

O jornalista e psicanalista Paulo Stucchi lança em março o romance histórico “A Dança da Serpente”, pela Editora Jangada. Ambientado em Sabará, o livro cruza duas épocas marcadas por repressão. O Brasil colonial do século 18 e a Ditadura Militar em 1977, para discutir intolerância, espiritualidade e perseguição a mulheres.

A obra recupera a trajetória real de Luzia Pinta, mulher escravizada trazida de Angola, ligada aos rituais de calundu e condenada pela Inquisição Portuguesa. Em paralelo, apresenta as gêmeas Cléo e Clarice, que enfrentam, em plena década de 1970, os conflitos de uma herança espiritual que desafia normas sociais e políticas.

Ao explicar a estrutura narrativa, Stucchi destaca o paralelo histórico. “Acredito que sejam dois momentos de forte repressão, em épocas diferentes e por contextos distintos: um, de viés político, no Regime Militar brasileiro, e outro de viés religioso, no século 18, quando a Inquisição ainda agia com força. Em comum, está a intolerância e o medo diante do desconhecido”.

Para Stucchi, a padronização do pensamento é sustentada por mecanismos de intimidação. “Quando se tem planificação de ideias, uma certa padronização por meio do medo – da tortura ou de um Deus punitivo – parece que nos sentimos mais seguros”.

Sobre Luzia Pinta, o autor reconhece os limites documentais e o papel da ficção. “Existem poucos documentos sobre a Luzia Pinta real. A personagem histórica, na medida do possível, foi retratada com verossimilhança dentro do contexto de um romance histórico, não de uma biografia. São nas lacunas de sua vida que a ficção entra, para criar ligações para essa personagem simbólica da liberdade, do sincretismo religioso, da intolerância, do feminismo e das origens negras de nossa cultura”.

No núcleo ambientado em 1977, as irmãs representam respostas distintas à ancestralidade feminina. “Talvez elas sejam dois lados de um mesmo contexto histórico e ancestralidade. Cléo encarna os medos e as consequências daqueles que tentam ir contra a maré; já Clarice assume a liberdade de seguir seu destino, apesar das consequências”, afirma Stucchi.

Segundo o jornalista, a dualidade reflete conflitos ainda presentes. “Se pensarmos no ‘eu feminino’, ainda temos essa ambivalência entre as mulheres que se enquadram no que a sociedade espera e aquelas que rompem essa bolha e assumem os rótulos”.

O romance também dialoga com a misoginia e o feminicídio contemporâneos. “O medo é fundamental para qualquer mecanismo de controle. Temos sistemas de controle na política, nos dogmas religiosos, na família e na escola. No caso do ‘feminino livre’, é inegável que, dentro de uma educação machista, isso assusta. Assusta os homens, que não sabem lidar com a nova mulher, e assusta as próprias mulheres, que ainda estão aprendendo a encontrar um meio termo”, analisa o autor.

A simbologia da serpente, presente em uma das cenas centrais do livro, reforça essa leitura. “Ela simboliza o medo do místico e do feminino. A serpente é enigmática e sensual, atributos associados às ‘bruxas’. Pela moral judaico-cristã, aprendemos a vê-la como algo negativo, mas ela também está ligada ao conhecimento – e conhecimento liberta”, finaliza.

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