
Ojornalista, escritor e acadêmico J. D. Vital lançou, no dia 25 de novembro, o seu mais novo livro, “Morte em Cocais”, com um enredo que entrelaça religião, poder e os silêncios da história. Com a obra, o autor amplia seu olhar sobre a história religiosa e social de Minas.
Em “Morte em Cocais”, Vital resgata uma parte pouco conhecida da história da Igreja Católica em Minas Gerais, ao narrar a trajetória de três figuras de origem humilde e negra que alcançaram, contra todas as expectativas, posições de destaque no clero. Entre elas, o Padre Heitor de Assis, personagem central da obra, nomeado pelo presidente Getúlio Vargas como o primeiro capelão do Exército brasileiro, após a proclamação da República.
A narrativa se entrelaça às histórias de Padre Victor, beatificado pelo Papa Francisco, e de Dom Silvério Gomes Pimenta, primeiro arcebispo de Mariana e membro da Academia Brasileira de Letras, revelando como fé e resistência se encontraram nas trajetórias desses homens negros em tempos de escravidão, abolição e modernização do Brasil.
O autor J. D. Vital explica que a motivação para escrever “Morte em Cocais” vem da memória coletiva da cidade onde nasceu, Barão de Cocais, na Região Central do Estado. “Desde pequeno ouço falar em Padre Heitor. Eu ouvia dizer que o padre era negro e que ele se identificava com a maioria da população de Barão de Cocais, que era sobretudo, na época, uma cidade predominantemente constituída por pessoas negras, porque é uma região de mineração, com forte influência da escravidão”.
“Padre Heitor de Assis foi o primeiro capelão do Exército brasileiro, em 1942 foi sondado pelo Padre Pedro Maciel Vidigal para ir com ele para o Exército, como primeiros capelães. O Padre Maciel Vidigal acabou não indo por problemas com o bispo, e no seu lugar foi o Cônego Marcial Muzi. Padre Heitor na patente de capitão e o Cônego Marcial Muzi no posto de Major. Eles foram enviados para a ilha de Fernando de Noronha, onde os nossos capelães militares mineiros da arquidiocese de Mariana estavam acompanhando espiritualmente e dando força aos soldados brasileiros aquartelados”, conta.
Ele afirma que a relação entre raça, religião e poder no Brasil na época parecia que era mais liberal do que aparentemente veio a se tornar depois. “Pelo que eu pude constatar, pelas entrevistas e pesquisas, não houve nenhuma objeção da indicação de um padre negro para ser capelão do Exército. Pelo contrário, o Padre Heitor chegou a ser até nomeado para um cargo importante, um cargo político na ilha de Fernando de Noronha, ele foi secretário de governo, uma espécie de vice-governador da ilha que era comandada por um general”.
Vital ressalta ainda que a pesquisa para o livro foi demorada. “Porque ninguém tinha notícia, uma informação concreta sobre o Padre Heitor. Consegui alguma coisa sobre o currículo dele, a vida escolar, seminarística, e sacerdotal, no museu da arquidiocese de Mariana. Através de leituras, pesquisas e conversas que fui levantando o perfil dele, e isso durou três anos”.
Para o autor, resgatar a memória do padre Heitor é importante para o conhecimento da história. “Ninguém sabe coisas sobre pessoas negras no Brasil, personagens da raça negra que tiveram grande atuação na resistência à escravidão e no desenvolvimento da cidadania e da cultura brasileira. O conhecimento desse personagem, do padre Heitor de Assis, contribui dentro desse esforço geral de reabilitação de personalidades negras, de maioria desconhecida”.
O autor
J. D. Vital é jornalista, escritor e membro da Academia Marianense de Letras, da Academia Mineira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG). É autor de “Como se faz um bispo, segundo o alto e o baixo clero”, o livro investiga o mistério que envolve o processo de escolha dos candidatos à mitra episcopal.
Escreveu também “A revoada dos anjos de Minas” sobre o fechamento do Seminário Maior de Mariana, nos tempos conturbados vividos pela Igreja Católica após o Concílio Vaticano II. É presidente emérito da Banda de Música Santa Cecília de Barão de Cocais, uma corporação musical centenária e desde sua fundação é composta por operários metalúrgicos e trabalhadores da mineração.



