Inteligência artificial transforma a economia criativa

Foto: Freepik.com

Um levantamento realizado pela Deck revela que 93,5% dos trabalhadores da área cultural e da economia criativa acreditam ser provável que a Inteligência Artificial (IA) transforme a maneira como suas atividades profissionais serão executadas nos próximos cinco anos. A pesquisa ouviu 1.555 profissionais, atuantes em 16 segmentos do setor, entre junho e setembro de 2025.

O estudo também indica que 35,5% dos participantes consideram plausível que seus postos de trabalho venham a ser substituídos por soluções baseadas em IA nesse intervalo. O temor é mais acentuado entre profissionais de cinema, rádio e televisão, onde o índice chega a 44,9%, e no setor musical, com 44,3%.

Mesmo com a expansão das ferramentas, a sondagem aponta uma diferença significativa entre a utilização da IA e o entendimento sobre ela: 62% dos entrevistados dizem não conseguir reconhecer quais produtos ou serviços fazem uso de inteligência artificial. Essa dificuldade é ainda maior entre profissionais com mais de 45 anos.

Para o consultor em inovação criativa Eduardo Salgado, esse descompasso revela um problema central. “A IA já está embutida em softwares de edição, plataformas de streaming, ferramentas de design, recomendação de conteúdo e análise de audiência. Muitos profissionais usam essas soluções diariamente sem perceber que estão lidando com inteligência artificial. Isso limita o potencial de uso estratégico da tecnologia”.

Ele pondera que o risco não está na tecnologia em si, mas na forma como a ferramenta é incorporada. “Ela tende a substituir tarefas repetitivas e operacionais, não a criatividade humana em sua essência. O perigo real é o profissional que ignora essas ferramentas e perde competitividade. Quem aprende a usá-las como apoio, e não como ameaça, amplia seu repertório e seu valor no mercado”.

Ainda assim, prevalece uma visão positiva. Para 66,2% dos participantes, a inteligência artificial pode contribuir para o aprimoramento do mercado de trabalho criativo no médio prazo, índice semelhante ao observado em pesquisas realizadas com a população em geral. Esse dado sugere que, mesmo diante das incertezas, há uma percepção clara de que a tecnologia pode gerar novas oportunidades, ampliar a produtividade e abrir caminhos para modelos de negócio inovadores.

Entre os benefícios apontados estão a otimização do tempo, a ampliação do acesso a ferramentas antes restritas a grandes estruturas e a possibilidade de experimentação criativa. “Um designer independente, por exemplo, consegue hoje testar conceitos visuais, variações de layout e paletas de cores em minutos, algo que antes demandava horas. Isso não elimina o olhar humano, mas libera tempo para decisões mais estratégicas”, destaca o especialista em tecnologia Lucas Mendonça.

Para que esses ganhos se concretizem, o conhecimento sobre IA se torna um ativo fundamental. Segundo Mendonça, compreender como os algoritmos funcionam, quais são seus limites e como direcionar seu uso é uma habilidade cada vez mais valorizada. “Não é necessário que todo profissional se torne programador, mas é essencial saber dialogar com a tecnologia, fazer boas perguntas, interpretar resultados e manter senso crítico”.

“As empresas precisam abandonar a lógica de substituir pessoas por sistemas e adotar uma visão de complementaridade. A IA pode assumir etapas operacionais, como análise de dados, organização de acervos e automação de fluxos, enquanto os profissionais ficam responsáveis por curadoria, criação conceitual e tomada de decisões. Quando essa divisão é bem estruturada, o ganho é coletivo, tanto em produtividade quanto em qualidade criativa”, destaca.

A pesquisa evidencia também uma busca cada vez maior por qualificação, especialmente em cursos voltados para automação de processos, gestão de projetos culturais apoiados por inteligência artificial e utilização prática da tecnologia em diferentes segmentos da economia criativa.

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