Uma das doenças cardiovasculares que mais cresce no Brasil, a insuficiência cardíaca, já atinge entre 3 a 5% da população, segundo estimativas de especialistas, e responde por milhares de internações hospitalares todos os anos. Mesmo assim, continua sendo subdiagnosticada e pouco debatida.
Caracterizada pela incapacidade do coração de bombear o sangue de forma eficiente, a insuficiência cardíaca é a via final comum de uma série de doenças, como hipertensão, diabetes, infartos e enfermidades das válvulas cardíacas. Seus sintomas, como falta de ar, fadiga e inchaço nas pernas, são frequentemente confundidos com sinais de envelhecimento ou estresse cotidiano, o que atrasa o diagnóstico.
“O grande problema hoje é o diagnóstico precoce e adequado da doença. Muitas vezes, o paciente hipertenso nem sabe que tem pressão alta, ou não trata de forma correta. Isso cria um enorme contingente de pessoas que evoluem para insuficiência cardíaca sem saber”, afirma o cardiologista Marcelo Montera.
“O cenário é grave e estamos diante de uma população que está adoecendo em ritmo acelerado. O envelhecimento, aliado à epidemia de obesidade e ao aumento de doenças como hipertensão, diabetes e colesterol alto, tem alimentado silenciosamente uma crise de insuficiência cardíaca no país”, alerta.
Para Mucio Tavares, também cardiologista, a doença permanece pouco conhecida porque seus sintomas são inespecíficos e, muitas vezes, nem são discutidos com o paciente no momento da consulta. “Mesmo quando os sinais estão presentes, podem ser confundidos com outras condições. Além disso, a maioria dos casos evolui lentamente, ao longo de anos, o que dificulta ainda mais a detecção precoce”, explica.
Dados do Ministério da Saúde revelam que as doenças do coração foram a principal causa de morte no país, em 2024, superando o câncer. Em 2025, segundo dados do DataSUS, entre janeiro e abril, o Brasil registrou 65.533 internações por insuficiência cardíaca, um aumento de 2,43% em relação ao mesmo período de 2024. As regiões Norte (+5,16%), Sudeste (+3,56%) e Nordeste (+2,81%) puxaram o crescimento.
Apesar dessas estatísticas, Montera lembra que a insuficiência cardíaca ainda não recebe a mesma atenção pública. “Hoje, a doença mata muito mais que o câncer de próstata e, mesmo assim, não temos campanhas de prevenção na mídia. É uma questão de saúde pública que precisa ser enfrentada com seriedade e políticas consistentes”.
Para detectar a enfermidade precocemente, Tavares explica que exames como ecocardiograma e dosagens hormonais de BNP e NT-proBNP são essenciais. “Esses marcadores têm alta curácia e ajudam a identificar tanto a presença quanto o risco de insuficiência cardíaca antes mesmo dos sintomas aparecerem. Mas é preciso que o médico, principalmente o da atenção primária, esteja atento aos sinais e peça esses exames quando necessário”.
Casos em jovens preocupa
Outro fator preocupante é o crescimento da doença entre jovens adultos, devido ao sedentarismo, má alimentação e excesso de estresse. “Hoje vemos cada vez mais pacientes jovens com insuficiência cardíaca. Pacientes que sobrevivem a infartos, por exemplo, frequentemente ficam com o coração enfraquecido. E isso tem contribuído para o aumento das estatísticas”, observa o cardiologista Dr. Gustavo Duque.
A projeção é alarmante para os próximos anos. “Com melhores condições de saúde e tratamento, a população tem envelhecido, mas também adoecido. Estima-se um aumento de cerca de 25% nos casos de insuficiência cardíaca até 2030”, reforça.
Tavares diz que houve avanços significativos no tratamento. “Hoje, a insuficiência cardíaca é uma das áreas da cardiologia com mais evolução. Temos medicamentos modernos que reduzem hospitalizações e prolongam a sobrevida. Usando as quatro classes de drogas indicadas, conseguimos aumentar a expectativa de vida em até sete anos nos casos mais sintomáticos”.
Além dos remédios, existem dispositivos implantáveis, como ressincronizadores, desfibriladores e assistentes ventriculares, que melhoram a função do coração e reduzem o risco de morte súbita. Segundo Tavares, o grande desafio continua sendo o acesso. “O Brasil não tem estrutura suficiente para tratar todos os pacientes. A atenção primária precisa estar mais capacitada e equipada para o diagnóstico precoce e para o encaminhamento aos centros especializados”, conclui.




