Indústria brasileira ainda sofre com entraves estruturais e fiscais

Mesmo com iniciativas para alavancar a produtividade do segmento, a indústria brasileira ainda enfrenta gargalos antigos que comprometem sua competitividade no mercado internacional. Uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela que a complexidade do sistema tributário, o chamado “Custo Brasil” e a falta de mão de obra qualificada estão entre os principais entraves para o desempenho do setor no cenário global.

Segundo o levantamento, realizado com mil empresas industriais de todo o país, 45% dos empresários apontam a bitributação e a complexidade tributária como os maiores desafios, seguidos por 35% que citam o Custo Brasil, um conjunto de ineficiências estruturais, burocráticas e econômicas que consome cerca de R$ 1,7 trilhão por ano, o equivalente a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

“O Custo Brasil é esse conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que prejudica o ambiente de negócios do país, pois encarece os custos das empresas, atrapalha investimentos e compromete a competitividade”, pontua o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Além disso, 31% dos entrevistados destacam a falta de mão de obra qualificada, enquanto 25% citam a burocracia e o ambiente regulatório como obstáculos. A insegurança jurídica também aparece como fator relevante, mencionada por 22% dos empresários. Esses elementos reforçam a percepção de que o Brasil ainda apresenta um ambiente pouco favorável à produção industrial e à inovação.

Para o economista Wallace Marcelino Pereira, o desenvolvimento da indústria está diretamente ligado ao investimento em infraestrutura e à melhoria da educação. “O crescimento econômico sustentável passa obrigatoriamente por investimentos em infraestrutura, educação e ciência e tecnologia. No caso da educação, o ensino médio atrelado à formação técnica e a educação superior são primordiais. Escolas que possuem índices positivos na capacidade de formação dos alunos devem ser premiadas anualmente”.

Em 2023, foi aprovada a reforma tributária, que tem entre seus objetivos simplificar o sistema, eliminar a bitributação e reduzir a cumulatividade de impostos. Pereira, no entanto, pondera os efeitos esperados da medida. “Embora seja importante simplificar o sistema tributário, o efeito positivo será visto somente no médio e longo prazo. Sem resolver problemas de infraestrutura de transporte e educacional, os ganhos de competitividade serão muito pequenos”.

Na avaliação do economista, a expansão das relações comerciais com outros países pode ser uma oportunidade para reduzir o Custo Brasil. “Parcerias com a China, por exemplo, podem ajudar a viabilizar não somente a produção, mas também o investimento em transportes dos produtos brasileiros. Acordos comerciais atrelados a Parcerias Público-Privadas (PPPs) ou concessões voltadas para investimento em transportes como portos, ferrovias e transporte rodoviário, podem representar a maior oportunidade das próximas décadas para mitigar os problemas do Custo Brasil”.

Incentivo à inovação

A pesquisa da CNI também indica que 14% dos empresários veem inovação e tecnologia como entraves à competitividade. “Uma estrutura industrial robusta e competitiva depende de investimentos em inovação, especialmente desenvolvida dentro do país, para evitar a dependência de soluções externas. Acredito que existem dois obstáculos: a governança e o fator cultural. No que tange à governança, ainda falta uma instância nacional que centralize e organize ações integradas entre universidades e empresas. É preciso intensificar essa interação, para que as empresas conheçam com profundidade o que as universidades produzem e as universidades compreendam as demandas do setor privado”, afirma Pereira.

Ele complementa que nas universidades públicas existem centros de excelência em engenharia, biomedicina, química e física, por exemplo. “É uma fonte de conhecimento disponível para a indústria brasileira, mas é preciso que haja uma política pública mais clara de aproximação entre universidades e empresas, o que é positivo para ambos os lados”.

Pereira também destaca que o incentivo à industrialização é essencial para o crescimento sustentado do Brasil. “A indústria é o motor do crescimento econômico porque demanda mão de obra qualificada, é capaz de criar e disseminar inovações, bem como promove o aumento da produtividade geral da economia”, finaliza.

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