Índice de vacinação infantil no país enfrenta crise prolongada

Foto: Divulgação

O Anuário VacinaBR 2025, elaborado pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) com parceria do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), revela uma queda contínua e generalizada nas coberturas vacinais infantis a partir de 2015, intensificada em alguns casos após 2020. Apesar da recuperação iniciada em 2022 e acelerada em 2023, o relatório mostra que nenhuma das vacinas infantis do calendário nacional atingiu as metas de cobertura estabelecidas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) em todos os estados em 2023.

A pesquisa destaca o abandono vacinal como um problema crônico: vacinas que exigem múltiplas doses, como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), apresentam altas taxas de evasão entre a primeira e a segunda dose. Em alguns estados, esse indicador ultrapassa os 50%, comprometendo a efetividade da imunização e aumentando o risco de reintrodução de doenças controladas.

Em termos populacionais, o relatório aponta que, apesar da recuperação observada, em 2023, 80% ou mais da população brasileira ainda vivia em municípios que não atingiram as metas de cobertura vacinal estabelecidas pelo PNI para a maioria das vacinas analisadas individualmente.

Na avaliação da presidente do IQC, Natália Pasternak, esse cenário evidencia a importância da transparência e da sistematização do acompanhamento dos indicadores relativos à vacinação. “Precisamos de dados, estratégia e compromisso institucional com a ciência e a prevenção”.

Para o infectologista da Unimed-BH, Adelino de Melo Freire Júnior, a queda se dá por uma série de fatores. “Sendo os principais a desinformação sobre vacinas e a hesitação dos pais, que se acentuaram após a pandemia de COVID-19. Tivemos também problemas em relação às políticas públicas e com a cadeia de distribuição de vacinas nesses últimos anos. Apesar dos avanços, muitas regiões ainda não atingiram as metas de cobertura. Isso mostra que o impacto desses fatores leva bastante tempo para ser revertido, sobretudo quando falamos de credibilidade quanto à segurança e eficácia dos imunizantes”.

“Há risco concreto de retorno de doenças como sarampo e poliomielite, especialmente em áreas com baixa cobertura vacinal, o que pode gerar surtos graves. A vacinação infantil é essencial do ponto de vista individual e coletivo. Individualmente, as vacinas protegem contra enfermidades graves, evitam sequelas e mortes, além de reduzir consultas e internações. Do ponto de vista coletivo, restringe a circulação de doenças mais comuns, assim como contribui para a imunidade coletiva, beneficiando toda a população”, ressalta.

Metas não atingidas

Segundo o Anuário, nenhuma vacina infantil do calendário nacional atingiu a meta de cobertura em todos os estados, com destaque negativo para poliomielite, meningococo C, Hib e varicela, para as quais nenhum estado alcançou a meta naquele ano. A situação da vacina meningocócica C é considerada crítica, pois nenhum estado cumpriu a meta entre 2021 e 2023.

O pediatra da Unimed-BH, Bruno Morais Damião, esclarece que só a educação contínua e bem fundamentada é que pode reverter essa confiança que foi abalada a respeito das vacinas. “Temos que ter uma política de saúde pública que garanta o acesso às vacinas, porque não adianta a gente insistir com os pais para vacinar os bebês se as vacinas não estiverem disponíveis”.

“E tem que haver uma política global da sociedade a respeito de que a vacina confere a proteção individual, mas também tem um papel social, já que a imunização de uma pessoa leva a proteção das outras ao seu redor. E se todos ao seu redor estiverem imunizados, a chance da entrada de alguma doença infecciosa do exterior se propagar dentro do Brasil diminui. Só a educação e o convencimento podem gerar um índice maior de vacinação”, acrescenta.

Freire destaca que é essencial investir em campanhas educativas, combater fake news, envolver líderes comunitários e influenciadores digitais que se comuniquem bem com os pais. “Além de garantir transparência nas informações sobre vacinação na rede pública e privada. Há sinais positivos que os índices vão se manter em ascensão. Mas, o crescimento depende da continuidade das políticas públicas, do combate à desinformação e do engajamento da sociedade”, finaliza.

Compartilhe

Em destaque