Inadimplência: um problema além do bolso

Mais de 71 milhões de brasileiros estão inadimplentes. É um número que, por si só, deveria acender todos os sinais de alerta. Mas qual nossa atitude perante ele? Geralmente, olhamos para a inadimplência como um problema financeiro e econômico. Sempre falamos sobre juros, renegociações e parcelamentos. Contudo, raramente nos perguntamos: o que está acontecendo com as pessoas por trás desses números?

Pesquisas da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostram que as causas vão muito além dos gastos acima do que se ganha ou de um cenário macroeconômico desafiador. O descontrole das finanças pessoais e a ausência de educação financeira são protagonistas quase imperceptíveis dessa história. Eis a questão que prejudica as contas do brasileiro: não se trata apenas de quanto dinheiro entra no bolso, mas de como ele é administrado – algo que, no Brasil, quase nunca somos ensinados.

A dívida não pesa apenas no bolso. Outro estudo da CNDL, realizado com consumidores com contas em atraso há mais de 3 meses, de todas as capitais brasileiras e de todas as classes econômicas, mostra que ela rouba o sono, altera o apetite, aumenta a ansiedade e, em muitos casos, empurra as pessoas para comportamentos prejudiciais como o consumo excessivo de álcool, cigarro, comida – ou até para o gasto impulsivo como forma de alívio momentâneo. Cria-se um ciclo cruel: a dívida gera ansiedade, que leva a gastos impensados, que aumentam a dívida.

Se uma epidemia silenciosa estivesse causando esse nível de impacto na saúde física e mental, já estaríamos falando em plano nacional de combate. Então, por que, quando o “vírus” é financeiro, aceitamos tratar apenas os sintomas e não a causa?

A ausência de educação financeira estruturada na grade escolar é uma das raízes do problema. A Base Nacional Comum Curricular já prevê o tema, mas a aplicação é tímida, irregular e, infelizmente, sem apoio pedagógico consistente. O resultado? Chegamos à vida adulta sem saber planejar nossos gastos, calcular juros, diferenciar dívida boa, dívida ruim ou entender que o cartão de crédito não é extensão de salário.

Com milhões de consumidores fora do mercado de crédito, o varejo sente o impacto, as empresas diminuem investimentos e a economia desacelera. O nome sujo de um consumidor impacta, em cascata, toda a cadeia produtiva.

Entendo que se quisermos encarar a inadimplência, precisamos de uma mudança de padrão. É imprescindível tratar o tema como questão de saúde pública, com programas de apoio psicológico e prevenção ao endividamento.

Em minha percepção, moldada a partir da atuação como administrador, contador e experiência no varejo e no empreendedorismo, entendo que alguns passos fundamentais para atacar este problema são: investimentos em educação financeira prática e contínua desde o ensino básico; incentivar empresas a oferecer programas de orientação financeira a clientes e colaboradores; fomentar políticas públicas que conciliam renegociação de dívidas com reeducação financeira, para evitar recaídas.

Enquanto o Brasil continuar tratando a inadimplência apenas como uma estatística econômica, estaremos condenados a ver esse número crescer. Mais do que limpar o nome das pessoas, precisamos ajudá-las a recuperar a tranquilidade, o sono, a saúde e, principalmente, a autonomia sobre a própria vida financeira.

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