Mesmo em 2025, mais de 33 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à água tratada, e cerca de 90 milhões não têm coleta de esgoto adequada, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Segundo dados do Instituto Trata Brasil, o país registrou mais de 344 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado em 2024.
O médico de Família e Comunidade da Unimed-BH, Artur Oliveira Mendes, ressalta que a falta de saneamento básico favorece a contaminação da população e da natureza com substâncias nocivas e agentes patogênicos de diversos tipos. “As inúmeras parasitoses intestinais, hepatite A e cólera, estão entre as doenças mais comuns, que se espalham facilmente com a falta de saneamento. Crianças e idosos são os grupos mais frágeis, porém, estas enfermidades impactam igualmente toda a população”.
Mendes afirma que o saneamento básico está relacionado a uma expressiva redução da mortalidade infantil, além da diminuição das internações por doenças diarreicas e infecciosas. “Já vi comunidades de todos os tipos e naquelas mais desfavorecidas economicamente, sem acesso a saneamento, é flagrante o quanto as doenças são mais prevalentes e o impacto negativo deste processo em todo o grupo”.
Da lama à dignidade
A líder comunitária e integrante da Associação de Moradores do Verde Vale (AMOVV) de Sete Lagoas, Maria Uises Rosa, lembra bem do cenário anterior às obras. “Cada casa jogava seu esgoto na rua e tinha muito mal cheiro, insetos e doenças. Formavam poças e lama na via, pois não havia asfalto”.
Ela lutou por mais de 15 anos por mudanças. “Antes das obras de saneamento, a população enfrentava surtos de arboviroses e desconfortos intestinais por causa da contaminação da água. E os mais atingidos eram as crianças e idosos com a imunidade baixa, devido à exposição ao esgoto a céu aberto”, conta.
A solução começou com pressão popular. “Fizemos abaixo- -assinados, chamamos a imprensa, mobilizamos as famílias e fomos atrás do poder público. A associação liderou essa luta por direitos com reuniões e visitas dos políticos para ver a situação de perto”.
“Hoje, o cenário é outro. As questões de saúde da comunidade melhoraram, com mais dignidade e qualidade de vida. Houve também uma melhora significativa na saúde das crianças. Antes eram comuns casos de verminoses, por exemplo, agora não há tantas queixas”, acrescenta. No entanto, Maria destaca que o desafio ainda não acabou. “O esgoto ainda corre a céu aberto no fim do bairro, formando um córrego com mau cheiro e poluição até chegar à estação. Isso precisa mudar”.
Mais de 98% de cobertura
A cidade de Sete Lagoas, na região Central do Estado, atualmente, possui 98,87% de cobertura de saneamento básico. A região rural do município ainda não é atendida com acesso completo de coleta de esgoto, sendo aproximadamente 18 bairros, segundo informações do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE).
A Gerente de Esgoto do SAAE de Sete Lagoas, Gabriela Moura dos Santos, explica que o maior desafio para alcançar a universalização do saneamento é a falta de recursos financeiros. “Temos várias obras em andamento e estamos buscando recursos para ampliar ainda mais a cobertura”.
Sete Lagoas prevê um tratamento de 100% de todo o esgoto captado na cidade. Assim, o município vai parar de poluir o Rio das Velhas. Gabriela complementa dizendo que a obra da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) foi concluída. “No momento, estamos finalizando os ajustes relacionados à automação do sistema, etapa essencial para o pleno funcionamento da unidade. A previsão é que a estação entre em operação no mês de agosto”.
Até 2030, de acordo com a gerente, a autarquia tem como objetivo alcançar avanços significativos na área de saneamento. “Com foco na expansão dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, redução das perdas na distribuição de água tratada, melhoria contínua na qualidade da prestação dos serviços, e aumento da eficiência operacional e promoção do uso racional da água”.
Apesar dos avanços, a falta de saneamento básico ainda é um desafio para muitas cidades brasileiras. Investimentos e mobilização social continuam sendo essenciais para garantir saúde e dignidade a todos.




