Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua mostram que embora o uso da internet esteja cada vez mais presente no dia a dia, ainda está ausente na rotina de 20,5 milhões de brasileiros, o equivalente a 10,9% da população com 10 anos ou mais em 2024. Entre esse grupo, cerca de 45,6% afirmam que a principal razão para não utilizarem a rede é a falta de conhecimento sobre como acessá-la, o que corresponde a cerca de 9,3 milhões de pessoas.
No caso dos idosos, 66,1% declararam não saber utilizar a internet como principal obstáculo. Ainda assim, os dados revelam uma tendência crescente de adesão à rede por parte dessa faixa etária. As razões de cunho econômico (como considerar o acesso ou os dispositivos muito caros) tornaram- -se menos frequentes. Em 2024, representaram 10,9%, contra 16,2% em 2022, ano em que esse dado começou a ser coletado.
A pesquisa também apontou que, entre os que nunca acessaram a internet, 73,4% tinham baixa escolaridade, com nenhum ou apenas o ensino fundamental. Além disso, um total de 52,1% pertenciam à faixa etária dos idosos.
“Existe uma certa exclusão estrutural. A falta de acesso à internet não é apenas uma questão de tecnologia, mas uma extensão das desigualdades que marcam o país em termos de renda, educação e infraestrutura. Não possuir conexão à web é praticamente viver à margem do mundo. Desde oportunidades de trabalho e estudo até o simples acesso à informação, tudo passa pelo digital”, diz a socióloga Andreia Lima.
A pandemia de COVID-19, entre 2020 e 2022, já havia escancarado essa fragilidade quando milhões de estudantes ficaram sem aulas por não conseguirem acompanhar o ensino remoto, lembra Andreia. “A internet deixou de ser uma ferramenta complementar para se tornar parte integrante do processo educacional. Sem acesso digital, os alunos não apenas perdem conteúdos, mas também ficam de fora das interações que moldam o aprendizado. É uma barreira invisível que gera atraso educacional e compromete o desenvolvimento de competências básicas”.
Os impactos se estendem ao mercado de trabalho. Em um cenário onde o número de vagas ofertadas e candidaturas acontece majoritariamente por meio de plataformas on-line, a falta de conexão representa estar ausente do mercado. “Profissões ligadas à economia digital, como marketing, TI, vendas digitais e prestação de serviços por aplicativos, tornam-se inacessíveis a quem sequer consegue abrir um navegador”, destaca o tecnólogo Felipe Magalhães.
Ele afirma ainda que a inclusão digital pode ser uma alavanca econômica. “Ela capacita o indivíduo, aproxima de oportunidades e fomenta a inovação local. Quando um número tão expressivo de brasileiros está desconectado, o país perde em produtividade, competitividade e diversidade econômica. Podemos estar desperdiçando um enorme potencial por falta de infraestrutura e políticas inclusivas”.
As empresas de telecomunicação alegam que os altos custos de operação em áreas de difícil acesso e a baixa rentabilidade desestimulam investimentos em regiões remotas. No entanto, esse modelo de negócio pode contribuir para manter a exclusão.
“Há uma lógica de mercado que ignora as populações mais vulneráveis. Por isso, são necessárias políticas públicas de incentivo, como subsídios, parcerias público-privadas e investimentos em infraestrutura de rede em comunidades isoladas”, pontua Andreia.
Além das questões econômicas e educacionais, a exclusão digital também compromete o pleno exercício da cidadania. “Com o avanço da digitalização de serviços públicos, como agendamentos médicos, acesso a benefícios sociais, declarações de imposto e emissão de documentos, estar off-line significa também ficar de fora dos direitos básicos”, destaca.
Na avaliação de Andreia, a superação da exclusão digital passa pela adoção de um novo paradigma: o da internet como direito fundamental. “O combate à exclusão digital é mais do que uma pauta tecnológica, é uma urgência social, econômica e democrática. Trazer os invisíveis para o centro da transformação digital é, antes de tudo, uma questão de justiça”.




