Entenda como funcionam os testes antidopagem

Materiais como a urina dos atletas são coletadas / Foto: Freepik.com

Às vésperas da partida entre Flamengo e Palmeiras, válida pelo Campeonato Brasileiro, agentes da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) visitaram os Centros de Treinamento das duas equipes para a realização de testes de controle antidopagem. O Flamengo manifestou desconforto com a ação. O caso gerou repercussão e levantou dúvidas sobre como esses procedimentos funcionam e quais são os direitos das partes envolvidas.

Para o ex-presidente do Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem (TJD-AD), João Antonio de Albuquerque e Souza, o controle antidopagem é indispensável para a credibilidade do esporte. “A Agência Mundial Antidopagem (WADA) possui um padrão internacional para testes e investigações que precisa ser rigorosamente cumprido. Trata-se de um protocolo que define desde como tratar as informações até a postura dos oficiais de controle de dopagem e das escoltas durante a realização dos testes”.

A coleta de amostras, seja em competições ou em treinos, segue diretrizes rígidas. Segundo o especialista, a realização de testes fora de competição é fundamental para evitar fraudes e manter a lisura dos resultados. “Se o atleta souber que só será testado durante as competições, ele pode criar esquemas de dopagem em períodos específicos sem ser descoberto. Por isso, esses testes precisam ser surpresa. Não faria sentido agendá-los com antecedência”, pontua.

Mesmo sendo desconfortável, Souza destaca que o procedimento é necessário. “O teste de urina, por exemplo, exige que o agente visualize a uretra e a urina saindo do corpo do atleta. É um processo constrangedor, mas faz parte de um controle sério e técnico. Sempre foi assim”.

Ele lembra também que o número de testes é limitado por questões orçamentárias, o que obriga a ABCD a definir prioridades com base em critérios técnicos. “Não é possível testar todos os atletas, modalidades e gêneros. Por isso, as missões de testagem precisam ser bem fundamentadas e planejadas”.

Direitos e deveres

Durante uma ação de controle, Souza explica que os atletas possuem direitos garantidos. “Eles podem ter uma testemunha de confiança acompanhando todo o processo, desde o questionário até a transferência da urina para os frascos A e B. Também podem registrar observações sobre a conduta dos oficiais e relatar qualquer irregularidade no formulário”.

“Mas há também deveres a cumprir. O atleta não pode se recusar a ser testado, sob pena de violar regras de recusa, evasão ou fraude. Já os clubes têm a obrigação de garantir o livre acesso dos agentes da ABCD às suas instalações. No caso de obstrução ou impedimento das equipes de coleta, tanto atletas quanto dirigentes e funcionários podem ser responsabilizados e até punidos disciplinarmente”, completa.

Casos anteriores

A nota divulgada pelo Flamengo não é um fato isolado. “Reclamações como essa já aconteceram em outras ocasiões. É natural que os clubes sintam que a rotina de treinos foi prejudicada, mas esse é o ônus do esporte de alto rendimento. Garantir a igualdade e a limpeza das competições é mais importante”, afirma Souza.

O trabalho de inteligência da ABCD realiza testes com base em denúncias e informações de bastidores, reforça o ex-presidente do TJD-AD. “Existe um serviço de inteligência que recebe denúncias, muitas vezes anônimas. Os testes são feitos a partir dessas informações. Não sei se foi o caso específico do Flamengo, mas isso acontece com frequência”.

Na avaliação de Souza, a melhor forma de evitar atritos é a capacitação dos clubes e seus funcionários. “Dirigentes, técnicos e seguranças precisam saber como lidar com a chegada das equipes de dopagem. O desconhecimento pode gerar conflitos desnecessários e até sanções. É fundamental que todos entendam o papel da fiscalização e colaborem com transparência”.

“Essas ações não devem ser vistas como perseguição, mas como garantia de um esporte limpo, igual e justo. Todos têm responsabilidade nesse processo”, conclui.

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