“Efeito preguiça” associado ao Bolsa Família é tema de estudo do Ipea

Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) questionou a ideia de que o Bolsa Família desestimula a busca por trabalho, uma hipótese popularmente conhecida como “efeito preguiça”. A pesquisa revelou que, mesmo com a ampliação expressiva do programa social entre 2019 e 2023, houve avanço nos indicadores de emprego com carteira assinada, especialmente entre os mais pobres.

A renda real do trabalho também apresentou um crescimento anual médio, entre os ocupados dos 20% mais pobres, de 9,5%, acumulando alta de 43,6%. A sondagem utilizou as informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Para debater o assunto, o Edição do Brasil conversou com o cientista social e professor do UniArnaldo Centro Universitário, Luciano Gomes dos Santos.

Por que essa ideia de que o programa desestimula o trabalho persiste no debate público?

É alimentada por preconceitos históricos e por uma visão moralizante da pobreza, muito presente no imaginário social brasileiro. Ainda existe a crença de que as pessoas em situação de vulnerabilidade precisam ser “incentivadas” a trabalhar, como se a pobreza fosse resultado de uma escolha individual e não de desigualdades estruturais. A ideia de que o Bolsa Família estimula a ociosidade não se sustenta diante das evidências empíricas, mas ela continua sendo repetida, principalmente em momentos de polarização política.

Em sua avaliação, o Bolsa Família realmente pode desincentivar a busca por emprego?

Não, o Bolsa Família é um programa de transferência de renda de valores modestos, que não substituem os ganhos de um emprego formal. Na verdade, o projeto oferece uma segurança mínima que pode, inclusive, permitir que o beneficiário busque trabalho com mais estabilidade. Estudos do Ipea, da Universidade de São Paulo (USP) e de organismos internacionais, como o Banco Mundial, mostram que beneficiários estão entre os que mais procuram emprego, exatamente porque desejam melhorar de vida.

Que outros mitos atrapalham a compreensão sobre programas de transferência de renda?

De que o programa gera dependência, pesquisas mostram que a maioria dos beneficiários permanece por períodos temporários e que há grande rotatividade nos cadastros; de que o projeto é “gasto” e não investimento, ele movimenta a economia local, principalmente no comércio de pequenas cidades; e por fim, que o programa é “clientelista”, quando na verdade ele tem critérios objetivos de acesso e é monitorado por órgãos de controle.

Em quais pontos o programa pode ajudar as pessoas em vulnerabilidade a se colocarem no mercado de trabalho?

Ele pode funcionar como uma base de proteção que permite que as pessoas se movam com mais autonomia em busca de qualificação e de oportunidades de trabalho. A segurança de uma renda mínima, ainda que modesta, pode significar a diferença entre aceitar ou não um trabalho temporário, um estágio, ou participar de um curso de capacitação. Além disso, o programa está articulado com políticas de saúde, educação e assistência social, o que amplia a capacidade de inclusão social.

O estigma do “efeito preguiça” pode atrapalhar o acesso a oportunidades por beneficiários?

Sim, a ideia de que beneficiários são “preguiçosos” ou “acomodados” pode dificultar sua inserção no mercado de trabalho, pois reforça preconceitos por parte de empregadores e até de instituições públicas. Além disso, esse estigma desvia o foco do verdadeiro problema, que é estrutural: a baixa oferta de empregos de qualidade e a falta de políticas públicas que apoiem a transição para o trabalho decente.

O Bolsa Família deveria estar atrelado a metas de inserção no mercado de trabalho?

A vinculação direta com metas de emprego pode ser injusta, pois ignora as realidades locais e as condições de vida das famílias. O ideal é que o programa esteja articulado a políticas públicas que promovam oportunidades de trabalho, mas sem condicionar o benefício ao cumprimento de metas rígidas que podem acabar penalizando os mais vulneráveis.

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