
A desigualdade social, o preconceito racial e a exploração do trabalho são temas centrais de “O Homem-Máquina de Taruã”, romance do escritor mineiro Eliander A. Costa. Por meio de uma narrativa de ficção científica direcionada ao público jovem, o autor constrói uma história que combina aventura, tecnologia e reflexão sobre problemas ainda presentes na sociedade brasileira.
A trama se passa em um condomínio dividido em duas realidades opostas. No chamado “Lado de Lá” vivem os ricos e poderosos. Já o “Lado de Cá” abriga trabalhadores submetidos a condições degradantes e a um sistema marcado pela desigualdade. Quem desafia as regras impostas pelas elites enfrenta punições severas, em uma estrutura social que se perpetua ao longo das gerações.
Segundo Costa, o cenário fictício dialoga diretamente com situações observadas no cotidiano. “Em várias circunstâncias, vejo os privilegiados se sobrepondo aos explorados. Ainda temos crianças que trabalham exaustivamente, quando o lugar delas deveria ser na escola. Temos adultos que dedicam a maior parte do tempo de suas vidas em fazendas ou em campos de larga produção agrícola, em troca de míseros salários”.
A mudança começa quando surge Taruã, um jovem morador do “Lado de Cá” que se destaca por sua inteligência e criatividade. Inconformado com a realidade que condena sua mãe e seus vizinhos a uma vida de privações, decide criar uma invenção capaz de desafiar o sistema vigente. Ao longo da jornada, o protagonista enfrenta obstáculos, descobre alianças e fortalece sua busca por justiça.
Para o autor, a principal mensagem da obra está relacionada ao poder transformador da educação. “Jamais podemos deixar os nossos objetivos de lado. Concomitante às nossas lutas, precisamos continuar buscando conhecimento por meio da educação. Isso porque a educação transforma e nos dá armas cognitivas para mudarmos a realidade a qual nos encontramos”.
Embora trate de temas complexos, como racismo, concentração de poder e exploração do trabalho, Costa afirma que buscou construir uma narrativa acessível aos jovens leitores. “A obra trata desses assuntos com leveza. Busco construir uma narrativa romântica, muitas vezes com uma veia poética, em paralelo aos mistérios que instigam a curiosidade e que só são revelados ao final do livro”.
Além dos elementos tecnológicos característicos do gênero ficção científica, a obra também valoriza a sensibilidade humana. O autor procurou unir poesia e tecnologia para estimular reflexões sobre empatia e dignidade. “Ao longo da narrativa, busquei casar ainda diversos elementos da poesia com a ficção científica. A poesia vai de encontro com os nossos sentimentos mais profundos e nos leva a exercitar a humanidade que existe dentro de cada um de nós”.
Na avaliação de Costa, a literatura pode contribuir para a formação de leitores mais críticos e conscientes. “A boa leitura busca exercitar a nossa humanidade. A prosa poética, a poesia e os romances não vêm do nada. Eles buscam denunciar e provocar, convidando à mudança”, finaliza.