
Em um mundo marcado por crises ambientais, conflitos e transformações sociais aceleradas, quais caminhos a humanidade está escolhendo para o futuro? Essa é a reflexão proposta por “Encruzilhada”, novo espetáculo do Grupo Trama de Teatro. A montagem utiliza uma linguagem simbólica e surrealista para abordar temas como consumismo, degradação ambiental e relações humanas.
Com texto e direção de Carlos Henrique, Shirley Rodriguez e Marco Túlio Zerlotini, a peça parte da imagem de uma encruzilhada onde personagens transformados pelo tempo aguardam que algo aconteça. A partir desse cenário, o público é levado a refletir sobre as consequências das escolhas individuais e coletivas para as próximas gerações.
“Quando a gente coloca essa encruzilhada, traz essa discussão sobre como está o destino da humanidade. Esses destinos estão nas mãos dos seres humanos. A peça fala desse lugar em que homens e mulheres são os próprios responsáveis pela degradação humana e da natureza”, afirma Carlos Henrique.
A dramaturgia foi construída ao longo de dez meses de pesquisa e ensaios. Entre as inspirações estão filmes pós-apocalípticos e debates sobre a exploração desenfreada dos recursos naturais, guerras, poluição, desmatamento e desigualdades sociais. Apesar do cenário distópico, Carlos Henrique explica que a obra evita discursos moralizantes. “As respostas talvez estejam dentro da cabeça do próprio espectador. É uma reflexão interna que a gente provoca para que as pessoas saiam do espetáculo perguntando o que podem fazer para melhorar a situação ambiental e o lugar onde vivem”.
Segundo Carlos Henrique, o espetáculo parte da ideia de um planeta devastado pela ação humana, mas sem abrir mão da esperança. “Nada ainda está perdido. Há tempo de nos recuperarmos enquanto seres humanos e isso faz com que a gente recupere o planeta também. Os personagens ainda trazem alguma esperança, alguma forma de recuperar o que foi perdido”.
A cenografia minimalista reforça a proposta simbólica da montagem. Em cena, uma placa indicando direções e um caminhão que atravessa constantemente a encruzilhada ajudam a construir a narrativa. O diretor aponta que o veículo assume papel central ao representar a retirada contínua das riquezas naturais. “Ele leva embora a nossa água, o minério e a madeira, simbolizando quem transporta as riquezas e deixa para trás a devastação, a falta d’água e a destruição ambiental”.
Os figurinos também dialogam com esse universo. Produzidos a partir da sobreposição de peças reutilizadas, representam um mundo em que a escassez já faz parte do cotidiano. “Não existe mais roupa para escolher. Você veste o que encontra. Queríamos causar um certo incômodo visual e reforçar essa sensação de sobrevivência”, explica Carlos Henrique.
Celebração
Além da estreia de um novo espetáculo, “Encruzilhada” marca um momento especial para o Grupo Trama. Fundada em Belo Horizonte em 1998, a companhia celebra 28 anos de trajetória. “Estamos prestes a completar 30 anos de existência e, principalmente, de resistência. O Trama sempre procurou produzir espetáculos que tiram o público do lugar comum e provocam reflexões sobre como cada pessoa se posiciona dentro da sociedade”, afirma Carlos Henrique.
As apresentações em Contagem acontecem nos dias 18, 19, 25 e 26 de setembro, às 20h, no Espaço Trama de Teatro, na Avenida Carmelita Drumond Diniz, 527 – Parque Maracanã. Depois, o espetáculo segue para Belo Horizonte, com sessões nos dias 2 e 3 de outubro, no ZAP 18, e em 16 de outubro, no Galpão Cine Horto, celebrando os 28 anos do grupo. Os ingressos custam entre R$ 20 e R$ 60, dependendo da sessão, e podem ser adquiridos pelo endereço linktr.ee/grupotrama.
Para o diretor, a longevidade da companhia também representa um incentivo para novas gerações de artistas. “O Trama é um exemplo de que é possível viver e fazer teatro em um país que ainda dá pouca importância para a arte. Resistir por tanto tempo já é uma forma de mostrar que esse caminho continua possível”, conclui.