O relógio ia despertar às 5h, mas eu acordei sozinho, às 4h30, e comecei o alongamento ali mesmo, na cama, para a prova daquela manhã de sol, na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Um lanche rápido forrou o estômago para enfrentar duas horas e meia do Rio Triathlon, no domingo, 22 de março. Com tempo firme fica tudo mais “tranquilo”, mas não foi bem assim. Do hotel onde eu estava até a área de transição, era pouco mais de dois quilômetros. Subi na bike e fui pedalando. Verificações feitas pelo staff da competição, visto a roupa de borracha e caminho até a areia para a largada da natação. Todos no mar! Aí é concentração, foco e força.
Uma correnteza forte, no sentido contrário da boia, que nunca chegava, pegou todo mundo de surpresa. Depois de um esforço considerável, as coisas melhoraram no retorno, com a corrente a favor. Foi só deslizar e fechar os 750 metros previstos, que viraram 1.100 metros. Fora d’água, tira a roupa de borracha, coloca o tênis, short, óculos e capacete.
Bora para o pedal. Um túnel extenso à frente joga minha bike a 40 km/h. O quê? Mãos firmes no guidão e curtição daquele som do pneu em atrito com o asfalto. Tá achando muito? Eu era um dos mais lentos.
Bicicletas mais leves, com atletas preparados, passavam por mim a mais de 50 km/h. Atrás de mim, alguém grita: “Acidente no túnel!”, logo depois vejo uma ambulância. Mais à frente, a polícia de trânsito sinaliza para que fiquemos na faixa da esquerda. No chão, um atleta de roupa preta está esticado e sendo colocado na maca.
Tenso. Terceira etapa, corrida. 5 km para fechar a prova. Gel na boca, glicose recuperada, e passadas cadenciadas no Aterro do Flamengo, um ponto do Rio muito agradável, que poucos conhecem ou valorizam. Para essa prova foram quatro meses treinando, inclusive no Natal e no Réveillon. Medalha no peito, retorno para o hotel. Hora de desmontar a bicicleta e colocá- -la na mala. Esse sim é um “trampo” grande (risos). Quando você ver alguém carregando uma dessa, pode pensar que aquela pessoa fez um grande esforço para chegar até ali.
Clássico com taekwondo
Dia de clássico já começa agitado. O torcedor acorda e a primeira coisa que vem à cabeça é a hora do jogo. Ele já levanta correndo para adiantar o que pode e ir mais cedo para o estádio. Depois do café matinal, ele dá um pulo no supermercado para salvar a carne do almoço. Os ponteiros do relógio não param… Como seria fantástico se ele pudesse parar o tempo. Impossível.
“Vou almoçar mais cedo, mesmo sem fome”, pensa ele. No armário: “Que roupa eu vou? Ah, qualquer uma…” Veste a camisa do time e “vambora”. Sem planejar muito ele olha a previsão do tempo e arrisca: “Vou de motoca”. Se chover, espera, ou toma uma chuvinha para se despedir do verão.
No caminho, trombou com uma multidão: a torcida da Máfia Azul. Milhares de torcedores fecharam a pista e subiram com sinalizadores, foguetes e muitas bombas… bummmm, bummmm… Um dos torcedores disse: “Vai pelo passeio”. Ele foi. Como o mineiro é educado e gentil, na maioria das vezes, foi-se abrindo um caminho estreito até que ele conseguiu furar o bloqueio. Ufa! Entrar no estádio foi fácil. Mesmo com a internet lenta, a biometria facial liberou o acesso. Depois de quatro anos, as duas torcidas voltaram ao Mineirão, com suas bandeiras e cantos de guerra.
No aquecimento, Hulk foi o primeiro a entrar em campo, em disparada, atravessando o gramado para agradecer a presença da torcida. No outro lado, o goleiro Cássio fez o mesmo. Da Máfia Azul, vem o canto da torcida: “A maior de minas! Tem que respeitar! Máfia Azul C.M.A.! Muro de concreto ruim de derrubar! Máfia Azul C.M.A.(Comando Máfia Azul)”.
No lado oposta, a Galoucura responde: “Eu sou da Galoucura, a maior do meu estado. E quem ficar parado vai tomar um tá ligado”. A festa nas arquibancadas salvou um clássico ruim, sem jogadas eletrizantes ou defesas espetaculares. O Cruzeiro fez um gol e foi o campeão mineiro depois de seis anos. Parabéns ao Cabuloso! A briga ao final do clássico teve repercussão internacional, com imagens chocantes de socos, pontapés e voadoras, situação inaceitável no futebol profissional. Cabe punição exemplar, com suspensão de jogos e multas para jogadores e clubes.