
Os Correios enfrentam uma crise financeira que, segundo a direção da companhia, vem desde 2016. No ano passado, a estatal registrou um saldo negativo de R$ 6 bilhões, nos nove primeiros meses do ano, e está com um patrimônio líquido negativo de R$ 10,4 bilhões. A empresa apresentou um plano de reestruturação que prevê fechar 16% de suas agências, além de cortar despesas em R$ 5 bilhões até 2028, e dois planos de demissão voluntária (PDVs) previstos para reduzir o número de funcionários em 15 mil até 2027.
O advogado especializado em reestruturação empresarial, Christian de Luca, explica que a situação é extremamente preocupante. “O sinal de alerta não decorre apenas de déficits contábeis pontuais, mas da erosão da capacidade de investimento da companhia em tecnologia e renovação de frota. Quando uma empresa de tal magnitude começa a apresentar dificuldades para manter sua eficiência operacional básica, enquanto observa competidores privados expandirem centros de distribuição automatizados, o risco de irrelevância de mercado torna- -se uma ameaça real”.
Luca afirma que os principais fatores que desencadearam a atual crise combinam passivos trabalhistas históricos com uma defasagem tecnológica acentuada. “O peso das obrigações com planos de saúde e previdência complementar (Postalis) consome uma parcela significativa do fluxo de caixa. Além disso, a manutenção de agências em municípios deficitários gera um custo social, e a demora na transição para um modelo focado em inteligência de dados e logística de última milha (last mile) permitiu que plataformas de e-commerce criassem suas próprias malhas de entrega, reduzindo a dependência da estatal e desviando receitas vitais”.
Para o especialista, o Plano de Reestruturação possui diretrizes ambiciosas. “Porém, a viabilidade depende estritamente da celeridade de sua execução e da estabilidade política. O plano foca na modernização dos centros de triagem e na digitalização de serviços, o que é um passo correto, contudo, tardio. Para aliviar a crise é necessário que as metas de redução de desperdício e incremento de produtividade não fiquem apenas no papel, enfrentando resistências sindicais e burocráticas”.
“Nos próximos anos, o cenário mais provável para os Correios é o de uma transformação em uma empresa de logística híbrida, reduzindo drasticamente sua dependência do correio de papel e focando quase exclusivamente no e-commerce e serviços financeiros digitais. É provável que a empresa caminhe para um modelo de governança semelhante ao de uma sociedade de economia mista, buscando um equilíbrio delicado entre a sustentabilidade financeira e a missão constitucional de integração do território brasileiro”, finaliza Luca.
Trabalhadores
Na avaliação do presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telégrafos e Similares do Estado de Minas Gerais, Robson Gomes Silva, a crise atual é fruto de anos de decisões de gestão equivocadas que ignoraram a modernização e as novas tecnologias. “Aliado a isso, também tem a redução de investimentos, o sucateamento deliberado da estrutura e tentativas recorrentes de preparar a empresa para a privatização”.
Silva ressalta que a privatização é um risco enorme não só para os funcionários, mas para a população em geral. “Experiências internacionais mostram aumento de tarifas, fechamento de agências e abandono de regiões menos lucrativas e do conjunto de políticas públicas do Estado. Exemplo disso é a distribuição de livros didáticos, transporte de vacinas, e ajuda humanitária em casos de desastres naturais, que sem o Correio público seria impossível essa ajuda chegar na velocidade e na quantidade necessárias”.
O presidente argumenta que uma das alternativas para recuperar a empresa é colocar em prática a Lei nº 14.744/2023, que estabelece a contratação preferencial dos Correios para serviços postais e de comunicação pela administração pública federal.
“Isso já resolveria a situação, pois estudos já apontaram na época que essa legislação poderia gerar até R$ 20 bilhões por ano. Também defendemos um plano público de investimentos, recomposição do quadro de pessoal, via concurso, fortalecimento da logística nacional, ampliação de serviços e gestão profissional com foco social, além da criação do marketplace próprio da estatal”.



