
Sendo uma alternativa viável para ampliar as admissões, com uma jornada flexível e a contratação de profissionais formais por hora, os contratos de trabalho intermitente cresceram quase 60 vezes entre 2017 e 2023, passando de 7,3 mil para 416 mil vínculos, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais).
Na Alimentação Fora do Lar (AFL), o crescimento também foi expressivo: de apenas 315 contratos para 15,8 mil no mesmo intervalo de tempo. A taxa média anual no setor foi de 92,1%, consolidando o AFL como um dos principais usuários da modalidade. Dentre os diferentes tipos de estabelecimentos, os bares, em especial, quadruplicaram sua participação, passando de 2,5% para 24,2% dos vínculos intermitentes.
O economista e docente no Centro Universitário Una, Fernando Sette Júnior, destaca que esse crescimento se deve, principalmente, à mudança na lei trabalhista de 2017, que abriu espaço para esse tipo de contrato. “Esse avanço reduz um pouco a taxa de desemprego, porque mais pessoas passam a ser registradas, mas aumenta a estatística de subocupação, já que muitos trabalham menos horas do que gostariam”.
Para Júnior, essa ampliação faz com que a massa salarial cresça de forma mais lenta. “Eles aumentam o número de pessoas com carteira assinada, mas como a maioria trabalha menos horas, o valor final recebido todo mês tende a ser menor. Como o consumo das famílias é um dos motores do Produto Interno Bruto (PIB), o efeito desses contratos sobre a economia pode ser positivo, porém, limitado. No caso de bares e restaurantes, por exemplo, o impacto existe, contudo, não é tão forte quanto o de setores que pagam salários mais altos”.
Ele acrescenta ainda que pode aumentar a desigualdade de renda. “De um lado, esses contratos dão chance para trabalhadores que antes estavam totalmente na informalidade. Mas, de outro, a renda instável e mais baixa pode reforçar desigualdades, especialmente se essas vagas se concentrarem em pessoas com menor escolaridade ou em regiões com menos oportunidades. Sem políticas que incentivem qualificação e proteção social, o risco é aumentar a distância entre os que têm empregos fixos e bem pagos e os que dependem só de contratos temporários”.
Vagas temporárias
Segundo um levantamento da Robert Half, 24% das empresas brasileiras apontam o crescimento nas demandas temporárias. As principais razões que impulsionam essa tendência, entre os recrutadores, a oportunidade de projetos pontuais extras (32%) é o motivo mais citado para a expansão da modalidade, seguida pela imprevisibilidade do cenário político-econômico (29%) e pela demanda urgente por profissionais com características técnicas específicas (25%).
Já entre os profissionais, a adesão ao modelo também é crescente. Quase 40% dos trabalhadores ouvidos esperam participar de mais projetos temporários ainda em 2025, e 22% percebem que há mais facilidade na contratação por essa modalidade do que na ampliação de quadros fixos nas empresas.
O diretor regional da Robert Half, Lucas Nogueira, afirma que a contratação por projetos se consolidou como uma alternativa estratégica. “Ela oferece às empresas agilidade, especialização e flexibilidade para responder rapidamente a desafios específicos. Isso é especialmente importante em momentos de transição ou mudanças regulatórias, como o atual contexto da reforma tributária, que exige adaptações rápidas e conhecimento técnico apurado”.
Apesar do crescimento dessas modalidades de contratos, o economista não acredita que esses modelos se tornem predominantes no país. “Pelo menos não em curto prazo. Eles são importantes e estão crescendo, mas servem mais como complemento. A maior parte dos trabalhos no Brasil ainda precisa de gente presente todos os dias, em horários regulares, para garantir continuidade e estabilidade. O intermitente e o temporário funcionam melhor em setores que precisam de reforço em períodos específicos”.
Ele finaliza dizendo que essas formas de contratação são sustentáveis em longo prazo. “Desde que sejam usadas de maneira equilibrada. Se o trabalho temporário ou intermitente for usado para completar o quadro em momentos de pico, pode ajudar bastante. Mas se virar regra em áreas que precisam de estabilidade, o risco é de criar empregos frágeis, com pouca segurança e menos perspectiva de crescimento profissional”.



