
Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), as importações de calçados chineses estão em elevação no país, no mês de agosto, entraram no Brasil 492 mil pares chineses, pelos quais foram pagos US$ 3,7 milhões, incrementos tanto em volume (+41,5%) quanto em receita (+67,2%) frente ao mesmo mês de 2024.
No acumulado do ano, as importações chinesas somaram 8,45 milhões de pares e US$ 31,18 milhões, aumentos em pares (+9%) e em valores (+14,1%) em relação ao mesmo período do ano passado. No total, as importações de agosto somaram 3,55 milhões de pares e US$ 49,27 milhões, incrementos de 23% em pares e de 18,4% em receita no comparativo com o mesmo mês de 2024.
“Com a tarifa aplicada pelos Estados Unidos contra os produtos chineses, os produtores daquele país vêm escoando seus excedentes em outros mercados, inclusive no brasileiro, com preços muito baixos”, explica o presidente- -executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.
O economista Ricardo Paixão ressalta que essa concorrência com os produtos chineses vai pressionar os preços e as margens. “É uma concorrência via custo, que vai deslocar a participação do mercado nas faixas populares e encurtar prazo de produção doméstica, podendo realmente sacrificar a indústria nacional”.
“A importação não pode ser totalmente liberada. Por exemplo, precisa verificar se a concorrência é leal e não utiliza de meios ilegais para poder operacionalizar com aquele custo de produção tão baixo. Uma das coisas que o governo poderia adotar é a defesa comercial, como manter e atualizar as questões antidumping. Utilizar de uso criterioso dos instrumentos, sem violar o compromisso com a Organização Mundial do Comércio (OMC), além de uma política industrial mais eficaz”, complementa.
Exportações
De acordo com a Abicalçados, as exportações seguem em ritmo de queda, agora impactadas pelo tarifaço de 50% a produtos brasileiros nos Estados Unidos. Os índices do setor somaram 7,64 milhões de pares, que geraram US$ 77 milhões, quedas de 0,5% em volume e de 9,1% em receita na relação com o mesmo mês do ano passado. No acumulado do ano, foram embarcados 67,52 milhões de pares por US$ 651,1 milhões, incremento de 5,7% em volume e queda de 0,6% em receita no comparativo com intervalo correspondente de 2025.
As exportações para os Estados Unidos registraram 803,7 mil pares e US$ 21,4 milhões, quedas tanto em volume (-17,6%) quanto em receita (-1,4%) em relação ao mesmo mês de 2024. Já no acumulado do ano, as exportações para o país somaram 7,7 milhões de pares e US$ 156,3 milhões, incrementos de 10,7% em pares e de 5,8% em receita no comparativo com o mesmo período de 2024.
O segundo destino do calçado brasileiro é a Argentina, que em agosto importou 1,63 milhão de pares brasileiros por US$ 18,44 milhões, incrementos de 68% e 11,6%, respectivamente, ante o mesmo mês do ano passado. No acumulado, foram exportados 9,35 milhões de pares, que geraram US$ 135,68 milhões, crescimento tanto em volume (+37,4%) quanto em receita (+5,3%) em relação ao mesmo período de 2024.
Paixão afirma que o Brasil está sofrendo com a concorrência asiática. “Principalmente porque um dos grandes consumidores, os Estados Unidos, está abrindo espaço para os asiáticos na compra de produtos. Outro ponto é a Argentina que tem passado por muita dificuldade em termos governamentais e isso afeta a exportação dos calçados brasileiros”.
“Acredito que a taxa de câmbio e as questões logísticas também acabam prejudicando as exportações. Às vezes, o câmbio não está tão propício a exportar e acaba encarecendo mais o produto, e não conseguimos uma logística mais adequada, onde possa ter uma redução de custo. Além, da grande disputa por preço”, observa o economista.
Ele pontua que, no curto prazo, o viés é de pressão importadora nas faixas de preços mais baixos e as exportações vão ficar lateralizadas. “Essa trajetória pode ser revertida com a defesa comercial efetiva, câmbio neutro, promoção de marcas e ganhos de produtividade. O cenário nacional é preocupante, porém, acredito que esse conjunto de fatores vai ajudar a melhorar essa situação”, finaliza.



