Projeto ambiental pretende aproximar os jovens do Parque Mata do Limoeiro

O Parque Estadual Mata do Limoeiro, localizado em Itabira, na Região Central de Minas Gerais, recebe o projeto “Me Vejo no Limoeiro”, iniciativa de educação ambiental que pretende aproximar os jovens da unidade de conservação por meio da arte. A expectativa é alcançar cerca de 350 estudantes de escolas estaduais e municipais dos distritos de Ipoema e Senhora do Carmo, além das comunidades de São José do Macuco, Duas Pontes e Campo Gordura. De março deste ano a março de 2027, estudantes de seis escolas das comunidades do entorno do parque vão participar de um concurso cultural de desenhos e redações que busca construir uma cartografia afetiva sobre o território. O projeto é destinado a estudantes do ensino fundamental e médio. As inscrições para o concurso serão realizadas diretamente nas escolas participantes, com o apoio de professores de arte e língua portuguesa, que vão atuar como mentores ao longo do processo criativo. Antes do concurso, os estudantes também vão participar de visitas ao parque financiadas pelo projeto. Os trabalhos produzidos pelos participantes serão transformados em produtos culturais, incluindo uma exposição artística e um livro ilustrado reunindo desenhos e redações desenvolvidos durante o processo. Além das premiações para estudantes e professores, todos os participantes receberão medalhas, camisetas e ecobags do programa. As escolas envolvidas também serão contempladas com kits de materiais artísticos. O encerramento do projeto contará com a abertura da exposição e o lançamento do livro com as obras selecionadas. O produtor-executivo e curador do “Me Vejo no Limoeiro”, Frederico Mendes de Carvalho, ressalta que existe uma grande dificuldade na preservação ambiental, em relação à juventude, que tem a ver com a linguagem. “Fazer as pessoas compreenderem que o mundo natural é fundamental para a vida é um desafio. E a cartografia afetiva surge como uma ferramenta para fortalecer a relação do público com a unidade de conservação”. Ele explica que a cartografia afetiva é uma forma de mapear experiências, memórias, sentimentos e as relações que construímos com os lugares e as pessoas. “É importante dizer que a cartografia afetiva não se trata apenas de representar espaços físicos, mas revelar os afetos que produzem sentido na nossa experiência. E isso vai ser impresso por meio das redações e dos desenhos”. “A missão é construir uma cartografia afetiva do Parque Estadual Mata do Limoeiro e, a partir disso, fortalecer o senso de pertencimento dos estudantes em relação à unidade de conservação, promovendo uma consciência crítica sobre a importância do local para a comunidade”, destaca Alex Amaral, gerente do parque. Segundo Carvalho, iniciativas como essa podem influenciar o futuro das unidades de conservação. “Demonstram a potência da articulação dos parques com a sociedade, as escolas e a comunidade, e por meio dela, a própria transformação da consciência e o desenvolvimento da consciência crítica. Essas ações demonstram também que as parcerias são muito importantes para que esses locais se tornem mais fortes e potentes nos seus territórios”. O “Me Vejo no Limoeiro” é uma iniciativa da Associação Move Cultura e conta com parcerias da Prefeitura de Itabira, Vila Ipoema, Instituto Bromélia, Instituto Gigante Verde e Incutai. O projeto é financiado pelo Ministério Público de Minas Gerais, por meio da Plataforma Semente. Mata do Limoeiro O Parque Estadual Mata do Limoeiro está localizado na Serra do Espinhaço, possui 2.056 hectares e fica a cerca de 7 km do Parque Nacional da Serra do Cipó. A vegetação é composta por fragmentos de Mata Atlântica e Cerrado, onde já foram identificadas ao menos três espécies ameaçadas de extinção: o jacarandá-caviúna, a braúna-preta e o samambaiuçu. Quanto à fauna, já foram observadas espécies raras como o rato do mato, típico do Cerrado, e o gambá-de-orelha-branca, presente somente em áreas de Mata Atlântica. A unidade de conservação possui diversas trilhas, cachoeiras, grutas, mirantes, corredeiras, e os principais atrativos turísticos são a Trilha dos Sentidos, a Cascata do Limoeiro, o complexo do Paredão, Cachoeira do Derrubado e Gruta do Limoeiro.
Cancelamentos de corrida são queixas dos apps de transporte

O cancelamento de corridas poucos minutos antes do embarque é a principal reclamação do artista cênico Gustavo Gomes, de 61 anos, sobre os aplicativos de transporte. O usuário utiliza o serviço pelo menos duas vezes por semana. Gomes alega que esse problema gera atrasos nos seus compromissos. “Se a gente cancela, recebemos multa. Quando eles cancelam, não temos nenhum respaldo. Sou morador de Sete Lagoas, na região Central, e utilizo o aplicativo da 99 para o lazer. Mas, encontro algumas dificuldades na prestação desse serviço, por exemplo, encontrar motoristas em determinados horários”. Segundo dados do ProconData, entre 1º de janeiro e 28 de abril de 2026, foram registradas 1.181 reclamações dos aplicativos Uber, 99, Indrive e Lady Driver, em Minas Gerais. Em Belo Horizonte, no mesmo período, foram 552 manifestações no Procon e na Ouvidoria do Ministério Público de Minas Gerais. Conforme uma análise realizada pela Peck Advogados, baseada nos dados da plataforma Reclame Aqui, as queixas dos consumidores obtiveram uma alta de 19,5%, entre 2022 e 2023. Foi um aumento de 100 mil para 124 mil registros. Falta de transparência nas tarifas, motoristas pouco preparados ou mal avaliados, atrasos significativos, e, em alguns casos, problemas de segurança, foram as principais reclamações. O sócio da Peck Advogados, Henrique Rocha, destaca que uma das principais razões por trás desse aumento está relacionada à expansão rápida e à falta de regulação efetiva. “A concorrência acirrada entre diferentes empresas de aplicativos de transporte privado levou a práticas comerciais agressivas, resultando em serviços inconsistentes e inadequados”. “A resistência de algumas empresas em lidar efetivamente com as reclamações dos usuários e implementar mudanças positivas em resposta ao feedback contribuiu para a persistência desses entraves”, afirma Rocha. O Procon e a Secretaria Nacional do Consumidor recomendam que, diante de problemas com aplicativos de transporte, o consumidor utilize os canais oficiais da plataforma e, caso não resolvido, registre a queixa em órgãos de defesa do consumidor. Jornadas longas O motorista Willian Mendes, de 35 anos, que trabalha para os aplicativos Uber, 99 e Indrive em Belo Horizonte e Região Metropolitana, ressalta que os principais desafios do dia a dia são a insegurança, a baixa remuneração e a falta de suporte. “São entre 10 e 12 horas à frente do volante e o valor pago pelas corridas é péssimo. O suporte oferecido pelos aplicativos é muito ruim e o atual modelo de gestão afeta a qualidade do serviço”. Já o condutor Gustavo Brant, de 44 anos, que trabalha com a Uber e, esporadicamente, a 99 Pop, aponta também a insegurança e a instabilidade dos ganhos como as principais dificuldades. “Sou motorista de aplicativo desde 2018, trabalho entre 8 e 12 horas por dia. O pagamento por corrida, na maioria das vezes, é baixo diante dos custos que temos, com manutenção do veículo e combustível, além do desgaste físico e mental”. Ele pontua que o suporte oferecido pelos aplicativos poderia ser melhor. “Muitas vezes, o motorista sente falta de um atendimento mais humano e de soluções mais rápidas para problemas importantes. E o modelo atual das plataformas acaba impactando a qualidade do serviço, porque os condutores precisam trabalhar jornadas muito longas para conseguir manter a renda, o que gera desgaste e afeta toda a operação”. “Já precisei cancelar corridas em algumas situações, principalmente quando o embarque era em local de risco, o passageiro demorava excessivamente, não compensava financeiramente ou havia informações desencontradas no chamado”, pontua. Brant conta também que já teve situações envolvendo avaliações injustas e problemas no aplicativo. “Mas, felizmente nunca tive bloqueio definitivo. Muitos motoristas vivem com receio constante de punições automáticas. Porém, ainda acho que vale a pena continuar no serviço, principalmente pela flexibilidade de horário”. A reportagem entrou em contato com os aplicativos Uber, 99 e Indrive, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria.
Belo Horizonte se destaca como destino gastronômico no Brasil

Reconhecida pela Unesco como Cidade Criativa da Gastronomia, Belo Horizonte figura entre os quatro destinos brasileiros que possuem esse título. A cidade ganha projeção internacional pela originalidade de suas receitas, valorização dos ingredientes regionais e desenvolvimento de políticas públicas voltadas à segurança alimentar e à agroecologia. Já a Pesquisa de Hábitos Gastronômicos de BH realizada pela Belotur apontou que os moradores gastam, em média, R$ 600 por mês em bares e restaurantes e que costumam se alimentar fora de casa a cada três dias. Entre os entrevistados, 95% avaliaram a gastronomia local como satisfatória ou acima das expectativas, com índice de recomendação de 9,3. De acordo com os dados, o prato que mais simboliza a culinária da cidade é o tradicional feijão tropeiro. A diversidade e a qualidade da comida de Belo Horizonte receberam nota média de 8,5. Já entre os turistas, a percepção é ainda mais positiva: 95% afirmaram que a experiência atendeu ou superou o esperado, e 63% consideram a gastronomia um aspecto decisivo na escolha de visitar a cidade. Na avaliação do agente de viagens, Vicente Brandão, a gastronomia exerce um papel estruturante no desenvolvimento da capital mineira. “Belo Horizonte conseguiu transformar sua cultura alimentar em um ativo econômico robusto. Os bares, restaurantes e mercados não apenas geram emprego e renda, mas também funcionam como espaços de convivência e expressão cultural. Isso cria uma experiência única para o turista, que passa a enxergar a cidade como um destino gastronômico de referência”. Segundo Brandão, o impacto vai além dos limites municipais. “A força da gastronomia de Belo Horizonte ajuda a projetar todo o Estado de Minas Gerais. Muitos visitantes chegam à capital e, a partir dessa experiência, se interessam por conhecer outras regiões, como o interior, onde encontram produtos artesanais, queijos e tradições culinárias igualmente ricas. É um efeito em cadeia que fortalece cada vez mais o turismo regional como um todo”. Outro ponto destacado por especialistas é o papel dos bares na construção da identidade da cidade. Para o antropólogo Carlos Menezes, os estabelecimentos são parte essencial do modo de vida belo-horizontino. “Os bares não são apenas locais para consumir alimentos e bebidas. Eles são espaços de sociabilidade, onde as pessoas constroem relações. Essa cultura do bar é tão forte que se tornou um dos principais elementos da identidade da cidade”. Ele ressalta que essa característica também se reflete na experiência turística. “Quando o visitante chega a Belo Horizonte, ele não encontra apenas pratos típicos, mas um ambiente acolhedor, marcado pela informalidade e pela hospitalidade. Isso faz toda a diferença. O turista não quer apenas comer bem, ele quer se sentir parte daquele contexto, e os bares proporcionam isso”. A combinação entre tradição e inovação é outro fator que contribui para o destaque da gastronomia local. Enquanto receitas clássicas como o feijão tropeiro continuam sendo valorizadas, chefs e cozinheiros exploram novas técnicas, mantendo viva a essência mineira, mas dialogando com tendências contemporâneas. Esse equilíbrio tem sido fundamental para consolidar Belo Horizonte como um dos principais destinos gastronômicos do país. A cidade demonstra que a culinária pode ser patrimônio cultural e motor de desenvolvimento econômico, atraindo visitantes e fortalecendo a identidade local.
Projeto abre portas para participação de mulheres no segmento da tecnologia

Em um mercado cada vez mais estratégico para empresas, governos e cidadãos, a participação feminina ainda está longe do ideal. No Brasil, as mulheres representam apenas 17% da força de trabalho em cibersegurança. Para enfrentar essa desigualdade e incentivar novas trajetórias profissionais, o projeto Mulheres de Exatas em Cibersegurança (METIS), idealizado por professoras do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha com meninas de escolas públicas de Belo Horizonte e da Região Metropolitana. Coordenada pela pesquisadora Michele Nogueira, a iniciativa atende 35 alunas de sete escolas públicas, do ensino fundamental ao médio em Belo Horizonte e Região Metropolitana. O foco está na formação prática em cibersegurança, mentorias, criação de rede de contatos e aproximação com o mercado de trabalho. Segundo Michele, o afastamento feminino dessas áreas está ligado a fatores históricos e culturais que ainda persistem no país. “As meninas e mulheres ainda enfrentam preconceito em relação à sua capacidade. Existe uma mentalidade muito mais masculina quando se fala de força de trabalho, e isso não é algo específico da tecnologia. Mas, nessa área, os preconceitos acabam afastando as meninas”. Ela ressalta que o desafio não se resume ao acesso à formação técnica, mas também à forma como mulheres são vistas e se posicionam profissionalmente. “Esses preconceitos não vêm só dos homens. Também aparecem na mentalidade feminina, na maneira como muitas mulheres pensam e se colocam no mercado de trabalho”. A experiência pessoal da pesquisadora em ambientes predominantemente masculinos ajudou a moldar o projeto. Para Michele, muitas ferramentas que hoje são parte do METIS fizeram falta em sua própria trajetória. “Muito da concepção metodológica e dos objetivos do projeto veio do que nós sentimos ausência no nosso processo de formação. Um programa de mentoria que pudesse orientar, indicar caminhos e apoiar em situações difíceis teria ajudado. Não tivemos isso, e hoje buscamos oferecer às meninas exatamente esse suporte”. O projeto ainda está em fase inicial, com pouco mais de um ano de atividade, e por isso, os resultados de longo prazo ainda estão em construção. Mesmo assim, a expectativa é de impacto crescente nos próximos anos, tanto na escolha profissional das participantes quanto na permanência delas em cursos e carreiras ligadas à tecnologia. Além das estudantes diretamente atendidas, a pesquisadora destaca um efeito multiplicador dentro das famílias e comunidades. “Estamos formando sementinhas de futuras profissionais. Essa conscientização chega também às famílias, aos amigos e ao entorno dessas meninas. Isso pode despertar o interesse de outras pessoas e fortalecer a competitividade e a soberania digital do país”. Parcerias Outro diferencial do METIS é a integração com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial para Cibersegurança (INCT-IACiber), sediado na UFMG. A conexão permite mais contato com pesquisadores, empresas e lideranças do setor. Para Michele, ampliar a presença feminina exige também políticas públicas voltadas ao ingresso e à permanência dessas profissionais. “Esperar apenas a mudança natural de comportamento levaria muito mais tempo. As políticas públicas podem acelerar esse processo de inserção e permanência das mulheres na tecnologia e na cibersegurança”, conclui.
Turismo rural aumenta a renda de produtores em até 30% no Estado

O turismo rural tem impulsionado a renda de produtores em Minas Gerais, com aumento de até 30% em algumas propriedades que abriram as portas para visitantes. Experiências com queijos, cafés, doces e cachaças têm atraído turistas e transformado atividades tradicionais do campo em novos negócios. Atualmente, são 266 propriedades abertas ao turismo. Em 2025, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) realizou cerca de 3,4 mil atendimentos a produtores que investem no segmento, com presença em diferentes regiões, como Norte, Sul e Noroeste do Estado. A coordenadora técnica de Turismo Rural da Emater-MG, Thatiana Garcia, destaca que a atividade começou a crescer no pós-pandemia. “As pessoas começaram a querer entender mais sobre a produção de alimentos, e também ter uma vivência no local. Temos produtores que já vivem exclusivamente do turismo. Eles não vendem mais produtos para terceiros, e para adquiri-los, é preciso ir até a propriedade”. Em Ritápolis, no Campo das Vertentes, a Queijaria Seu Jorge transformou o dia a dia da produção em uma atração turística. Administrado por sete mulheres da mesma família, o local recebe visitantes interessados em conhecer o processo de fabricação. “O turista chega da cidade grande com muitas expectativas, e é uma troca interessante. Ele pode acompanhar a ordenha, ver como o queijo é feito, para depois saboreá-lo com café”, conta a proprietária Vera Lúcia Cardoso. Já em São João del-Rei, a Cachaça Morro Grande abriu o alambique à visitação e passou a integrar o roteiro turístico da região. Com produção anual entre 15 mil e 20 mil litros, o produtor José do Carmo Rezende explica que o turista vai ver todo o processo de fabricação da cachaça. “Desde o plantio e a moagem, até a degustação. Isso ajuda a valorizar a bebida e aumentar ainda mais as vendas”. Thatiana acrescenta que o turismo rural não se limita à produção de itens como queijo e cachaça, há outras atividades. “O ecoturismo, visitas em comunidades tradicionais, como quilombolas, indígena e ribeirinhos, além das propriedades de produtos orgânicos”. Acreditar no potencial A técnica ressalta que existem duas principais dificuldades dos produtores para exercer esse tipo de atividade em suas propriedades. “Eles precisam acreditar em seu potencial. É necessário compreender que os turistas querem visitar e vivenciar essas experiências. A partir disso, aparece o segundo obstáculo, que é a precificação. Muitos ainda não conseguem entender que as pessoas pagam para ir nas propriedades rurais e valorizam esse tipo de turismo”. Ela afirma ainda que a Emater ajuda na capacitação dos produtores. “Mas, também na orientação dos profissionais que trabalham diretamente nos escritórios locais da instituição. Fazemos um diagnóstico para entender se aquela propriedade consegue ou não receber visitantes, o que precisa desenvolver e qual é o desejo do produtor. A metodologia mais utilizada pelos extensionistas é do ouvir, de ver o que aquele empreendedor quer, como vai vivenciar e o que ele quer fazer”. “As nossas expectativas sobre o turismo rural são as melhores e maiores possíveis. Acreditamos que esse crescimento faça movimentar cada vez mais o segmento externamente e internamente. A atividade traz uma valorização do município. Queremos desenvolver esse setor para que cresça cada dia mais e prevaleça mais forte”, complementa. A partir de maio, será aberta a atualização para a 4ª edição do catálogo Ruralidade Viva, que é uma iniciativa para dar mais visibilidade aos trabalhos desses produtores. As pessoas que tiverem interesse, é só procurar o escritório da Emater, conversar com o técnico e fazer o cadastro. A entidade auxilia todos, desde quem está começando até aquele que já está no mercado. “Estamos abertos para fazer o atendimento a todos que se interessarem em trabalhar com turismo rural”, finaliza Thatiana.
Belo Horizonte registra mais de 13 mil acidentes no início de 2026

Belo Horizonte contabilizou mais de 13 mil ocorrências de trânsito apenas nos dois primeiros meses de 2026. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), a Avenida Cristiano Machado, um dos principais eixos viários da capital, passou a liderar o ranking de acidentes e fatalidades. Com extensão de 11,7 km, a via registrou 596 colisões, cerca de 10 por dia, e três mortes, ultrapassando o Anel Rodoviário, que teve 519 acidentes e um óbito ao longo de seus 22 km, mesmo sendo historicamente o trecho com maiores índices na cidade. Além disso, os registros de combinação entre consumo de álcool e direção seguem em patamar elevado. Em Minas Gerais, foram contabilizadas 546 ocorrências desse tipo, das quais 253 envolveram ao menos uma vítima. Em Belo Horizonte, a capital do estado, houve 47 registros relacionados a essa situação. O cenário na Cristiano Machado é resultado de uma combinação de fatores estruturais, comportamentais e de planejamento urbano. O especialista em segurança viária e trânsito, José Carlos Souza, explica que a via concentra características que aumentam significativamente o risco de acidentes. “A Cristiano Machado funciona como um corredor híbrido: ao mesmo tempo em que é via de trânsito rápido, ela também está inserida em uma área urbana densa, com cruzamentos frequentes, acessos comerciais e grande circulação de pedestres. Essa mistura eleva o conflito viário e reduz a previsibilidade do tráfego”. Segundo Souza, outro ponto crítico é a alta taxa de variação de velocidade ao longo do trecho. “O motorista sai de um segmento de fluxo livre e rapidamente encontra semáforos, entradas de bairros e pontos de ônibus. Essa alternância exige uma atenção constante que nem sempre é respeitada, o que contribui para colisões traseiras e laterais”. A urbanista Fernanda Bastos acrescenta que o desenho urbano da avenida também influencia diretamente os índices elevados de acidentes. “A Cristiano Machado foi estruturada para priorizar a fluidez dos veículos, mas não acompanhou de forma adequada o crescimento populacional e a expansão de atividades comerciais ao longo do seu eixo. Hoje, há uma disputa intensa entre carros, ônibus, motocicletas e pedestres, sem que a infraestrutura tenha sido totalmente adaptada para isso”. Diante do cenário, especialistas defendem que a redução dos acidentes depende de um conjunto integrado de políticas públicas. Entre as medidas mais citadas está o reforço na fiscalização eletrônica e presencial, especialmente em vias de alto fluxo como a Cristiano Machado e o Anel Rodoviário. “A fiscalização precisa ser constante e inteligente, com uso de dados em tempo real para identificar pontos críticos e horários de maior risco”, afirma Souza. No campo da prevenção ao consumo de álcool associado à direção, o especialista defende campanhas educativas contínuas e ações integradas com bares, restaurantes e aplicativos de transporte. “A conscientização precisa ser permanente, não apenas em datas comemorativas. Além disso, políticas que incentivem alternativas seguras de deslocamento após o consumo de álcool são fundamentais para reduzir esse tipo de ocorrência”. Outra estratégia apontada por Fernanda é a requalificação urbana da avenida, com foco na redução de conflitos entre diferentes modais de transporte. Isso inclui a criação de travessias mais seguras para pedestres, reorganização de acessos, melhorias na sinalização e revisão dos limites de velocidade em trechos específicos. “Não basta apenas punir o comportamento inadequado. É necessário redesenhar o espaço urbano para que ele induza comportamentos mais seguros”.
Projeto social utiliza pedrinhas para apoiar as crianças com autismo

Em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, uma ação do Projeto CASA (Cultura, Assistência Social e Atividades Esportivas) tem se consolidado como exemplo de impacto social ao utilizar pedrinhas sensoriais artesanais para auxiliar na regulação emocional de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). A proposta surgiu no Polo 20 do projeto, dentro de uma oficina de biscuit, e rapidamente ganhou novos significados. Produzidas pelas próprias participantes, as pedrinhas passaram a ser utilizadas como recurso terapêutico, ajudando no foco e no controle das emoções, especialmente em ambientes com excesso de estímulos. Conforme explica a coordenadora de projetos do Instituto Ramacrisna, Aline Fauez, a iniciativa nasceu da escuta ativa da comunidade. “Identificamos uma demanda significativa de crianças com autismo e TDAH e buscamos alternativas que pudessem contribuir no dia a dia. A produção de itens sensoriais foi uma forma prática de integrar inclusão à proposta do projeto”. A ação foi ampliada para outras oficinas e passou a envolver mais participantes, fortalecendo o engajamento coletivo. Segundo Aline, os impactos são percebidos diretamente pelas famílias. “Nosso principal indicador é a escuta contínua. Os relatos mostram melhora no comportamento, no bem-estar e até na interação social das crianças”. Um desses relatos é o de Rayane Clisma, de 28 anos, que acompanha de perto os efeitos da iniciativa no cotidiano do filho, Alan Gabriel, de 7 anos. “A pedrinha realmente o acalma, é visível a diferença quando ele a utiliza. Um dia esqueceu o objeto em casa e ficou muito mais agitado na escola. Depois disso, a própria coordenação sugeriu que ele tivesse uma pedrinha na mochila. Como mãe, tem sido uma experiência excelente”. Do ponto de vista clínico, a psicóloga Jéssica Tauane esclarece que o uso de objetos sensoriais é um recurso importante no apoio à regulação emocional. “Pessoas com TEA podem ter maior sensibilidade a estímulos, como texturas. As pedrinhas funcionam como um ponto de foco, ajudando o corpo e a mente a se organizarem melhor e favorecendo a sensação de calma”. Ela ressalta ainda que o benefício não se limita ao autismo. “Esses recursos também podem ajudar pessoas com ansiedade, reduzindo a tensão, e indivíduos com TDAH, auxiliando na concentração ao canalizar a inquietação. Apesar dos resultados positivos, o uso das pedrinhas deve ser complementar. São ferramentas de apoio que contribuem no dia a dia, mas não substituem o acompanhamento profissional”, pontua. Para Aline Fauez, o diferencial da iniciativa está na transformação de uma atividade simples em solução concreta. “Quando uma oficina passa a ter também uma função terapêutica, ampliamos o impacto social, fortalecemos vínculos e promovemos pertencimento”. Sobre a ação realizada pelo Instituto Ramacrisna em parceria com a Prefeitura de Betim, o Projeto CASA oferece atividades gratuitas nas áreas de esporte, cultura e educação. A iniciativa busca promover desenvolvimento social e ampliar oportunidades nas comunidades atendidas. A experiência com as pedrinhas sensoriais mostra que, com escuta e criatividade, ações simples podem gerar mudanças significativas, não apenas para quem participa diretamente, mas também para suas famílias.
Artesanato da Mantiqueira fortalece a identidade cultural em Delfim Moreira

Nas montanhas da Serra da Mantiqueira, em Delfim Moreira, no Sul de Minas, está localizada a Associação Cultural de Artistas e Artesãos de Delfim Moreira (Academ), conhecida como Grimpeiros, que reúne 12 artesãos. O grupo começou a se estruturar entre 2021 e 2022, a partir da percepção de que muitos artesãos do município atuavam de forma isolada. A trajetória dos Grimpeiros é marcada por ações de capacitação e acompanhamento promovidas pelo Sebrae Minas, em parceria com a Prefeitura. A partir dessas iniciativas, os artesãos passaram a participar de feiras do setor e missões técnicas. Atualmente, o grupo recebe uma consultoria de governança, voltada ao fortalecimento da gestão da associação e na consolidação do trabalho coletivo. Um dos marcos da trajetória da Academ ocorreu em dezembro de 2025, com a inauguração de uma loja coletiva na antiga estação ferroviária da cidade. O espaço se tornou vitrine permanente para a produção artesanal local e um novo ponto de valorização da cultura do município. A associação produz peças como crochê, tricô, bordados, biscuit e artesanato religioso. A analista de negócios do Sebrae Minas, Andressa Paes, explica que a instituição começou a atuar na região em 2021. “Com um trabalho inicial de sensibilização do território, voltado para identificar e desenvolver as vocações econômicas locais. Já em 2022, demos início a esse processo de forma mais estruturada, com a realização do Curso Cultcoop, que teve como objetivo trabalhar a cultura da cooperação entre os artesãos”. Andressa afirma que o artesanato tem um impacto importante na economia de Delfim Moreira, atuando como um vetor de desenvolvimento local. “A atividade tem um papel fundamental, pois vai muito além da produção de objetos decorativos ou utilitários. Ele representa a história, a cultura e o modo de vida dessa população”. “Muitas peças são produzidas com técnicas tradicionais. Esses saberes carregam influências dos antepassados e mantêm vivas as tradições da região. Além disso, o artesanato fortalece a identidade da comunidade, pois reflete características próprias da cidade, como os materiais utilizados, os estilos e os temas das peças”, acrescenta. Desafios Entre os utensílios produzidos estão trabalhos em cestaria com fibra de bananeira, costura criativa, sabonetes e velas artesanais, artigos em madeira e objetos decorativos feitos com elementos naturais, como pinhas e cabaças. A Academ também desenvolveu a Coleção Araucária, criada a partir de um processo de design voltado ao artesanato. Inspiradas na paisagem da Mantiqueira, as peças incorporam símbolos da região, como o pinhão, o sol surgindo entre as montanhas e a araucária. O artesão Tom Rainer, 40 anos, conta que cada peça carrega um exemplar original da história de Delfim Moreira. “Da cultura local e de uma identidade única que o povo mineiro possui. É um trabalho que reflete tradições passadas de geração em geração, feito pelas mãos de pessoas que realmente amam o que fazem”. Rainer faz crochê, e desde 2025, é um associado da Academ. “Esse é um espaço onde consigo desenvolver e mostrar meu trabalho, expandir minha rede de contatos e conhecer pessoas novas e incríveis, de diferentes gerações, histórias e posições. Apesar das diferenças, todos compartilham algo muito forte em comum: o amor pelo artesanato”. Um dos principais obstáculos para esses profissionais é a baixa visibilidade fora da região, ressalta Andressa. “Muitos artesãos são reconhecidos apenas localmente, o que dificulta alcançar novos públicos em outras cidades, estados ou até no meio digital. Sem divulgação adequada, seus produtos acabam não sendo conhecidos por potenciais clientes”. “Outro desafio importante é a necessidade de profissionalização, especialmente nas áreas de gestão e marketing. Além disso, há as dificuldades de acesso a canais de venda maiores, como lojas especializadas, feiras nacionais, marketplaces e exportação. Entrar nesses espaços geralmente exige padronização, escala de produção, documentação e estratégias comerciais que nem sempre estão ao alcance dos pequenos produtores. Nesse contexto, o apoio de instituições como o Sebrae é fundamental”, finaliza.
BH é reconhecida como “Cidade Árvore do Mundo” pelo terceiro ano seguido

Pelo terceiro ano seguido, Belo Horizonte foi reconhecida como “Cidade Árvore do Mundo” devido às diversas iniciativas ambientais implementadas recentemente. A capital permanece entre os municípios premiados pela Arbor Day Foundation e pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), que atualmente inclui 283 cidades em 24 países. Em 2025, Belo Horizonte realizou mais de 50 mil plantios e lançou o Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU), desenvolvido com a participação da sociedade civil. O programa busca expandir e preservar a cobertura arbórea de forma planejada, combinando ações imediatas e estratégias de longo prazo, com manejo adequado, monitoramento constante e priorização de áreas estratégicas. Para 2026, a meta é repetir o volume de plantios alcançado no ano anterior. Para que uma cidade seja reconhecida, é necessário cumprir cinco critérios: possuir equipe técnica e servidores designados para gestão das árvores urbanas; manter políticas e regulamentações ambientais locais; ter mapeamento e conhecimento detalhado do patrimônio arbóreo; garantir recursos financeiros para o manejo; e promover datas ou eventos voltados à celebração das árvores. “Ser reconhecida como ‘Cidade Árvore do Mundo’ vai além de um selo ambiental. Significa compromisso com a qualidade de vida, sustentabilidade urbana e resiliência frente às mudanças climáticas. Árvores reduzem a poluição do ar, baixam a temperatura urbana e proporcionam sombra e bem-estar à população. Não se trata apenas de plantar árvores, trata-se de integrar a vegetação ao tecido urbano de forma planejada, garantindo sombra, qualidade do ar e absorção de água da chuva”, afirma a urbanista Michele Silveira. O impacto desse trabalho é sentido no cotidiano da população. Ela explica que árvores nas ruas e parques contribuem para a redução das temperaturas urbanas, atuando como “ares-condicionados naturais”; melhoram a qualidade do ar ao filtrar poluentes e partículas suspensas; contribuem para a gestão de águas pluviais, reduzindo alagamentos e erosão; além de proporcionar espaços de convivência mais agradáveis. “Quando caminhamos sob árvores, sentimos imediatamente um ambiente mais acolhedor e saudável. Isso influencia desde a nossa saúde física até o bem-estar psicológico”. Apesar dos avanços, o paisagista Leonardo Magalhães aponta desafios e áreas que demandam melhorias e investimentos mais robustos. Um dos pontos críticos é a manutenção e longevidade das árvores já plantadas, especialmente em bairros periféricos onde serviços públicos de poda, irrigação e cuidado mais intensivo ainda são insuficientes. “O grande obstáculo não é só plantar, mas garantir que essas árvores cresçam e cumpram seu papel por décadas, isso exige não apenas recursos, mas também uma gestão integrada entre secretarias, sociedade civil e comunidades locais”. Outro ponto de atenção é a desigualdade na distribuição da arborização pela cidade. Zonas centrais e bairros de maior poder aquisitivo tendem a ser mais arborizados, enquanto áreas periféricas ainda carecem de cobertura vegetal adequada, deixando seus moradores mais expostos ao calor e com menor acesso aos benefícios ambientais. Ele ressalta a importância de que a Prefeitura invista em projetos que priorizem essas regiões. A educação ambiental também aparece como um campo a ser fortalecido. “Embora a gestão já promova projetos de conscientização, muitos cidadãos ainda desconhecem aspectos importantes sobre o ciclo de vida das árvores, espécies adequadas a cada tipo de solo e clima, ou os cuidados durante períodos de seca ou fortes ventos”, explica Magalhães.
“Projeto Pega a Visão” proporciona inclusão cultural em Belo Horizonte

Entre abril e junho de 2026, o bairro São Geraldo, na região Leste de Belo Horizonte, se transformará em um polo de formação artística gratuita voltado a jovens da rede pública da capital. O projeto “Pega a Visão: Atividades de Formação e Reflexão”, será realizado no Espaço Cultural Suelly Freire, aposta na arte como ferramenta de pertencimento, identidade e transformação social. A iniciativa oferecerá oficinas de Contação de História, Dança Afro, Danças Urbanas, Passinho de BH, Rima e Trança Afro. Os interessados deverão preencher um formulário on-line no Instagram @sfcultural até o dia 27 de março. Segundo o gestor do espaço e idealizador do projeto, Leonard Henrique, a escolha das linguagens parte da vivência real dos jovens. “Ao sair de casa, um jovem sempre vai encontrar um cabelo trançado, dançarinos debaixo do viaduto, uma batalha de slam. O especial é quando a gente pega o que é do cotidiano e leva para outro espaço, possibilitando o desenvolvimento dessas técnicas”. A ideia central do projeto está ancorada em dois pilares: experimentação e pertencimento. Leonard Henrique explica que ao transformar manifestações culturais em objeto de estudo, o projeto busca fortalecer a autoestima e a identidade dos participantes. “Quando a gente conta a história e a grandeza dessas atividades, desperta o pertencimento do jovem periférico”. Outro ponto relevante é o enfrentamento do preconceito que ainda cerca essas expressões culturais. Ele destaca que mesmo presentes no cotidiano, muitas dessas práticas não são reconhecidas como formas legítimas de arte. “Grande parte dos jovens veem, mas não têm acesso ou até têm preconceito com essas atividades. Quando experimentam e aprendem, passam a se apropriar da própria cultura, sem achar que ela é menor”. Voltado prioritariamente para estudantes do ensino fundamental, médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede pública, o projeto aposta no potencial criativo desses jovens. Para o gestor, esse público representa uma força artística ainda pouco explorada. “Ali está uma usina criativa. Quando a gente oferece ferramentas e pertencimento, surgem artistas periféricos muito potentes”. A escolha dos oficineiros também seguiu essa lógica de valorização de trajetórias ligadas aos territórios. O processo envolveu aproximação e diálogo com artistas reconhecidos em suas áreas, reforçando a proposta de construir uma formação ainda mais conectada com a realidade local. Ao todo, cerca de 120 jovens devem participar das atividades ao longo dos três meses. Para Leonard Henrique, o impacto vai além do aprendizado individual. “Dizem que uma andorinha não faz verão. Mas 120 pessoas pensando em arte já começam a fazer um movimento na periferia. A gente começa uma pequena revolução cultural”. O projeto será concluído em julho, com a Mostra “Pega a Visão”, aberta ao público. O evento vai apresentar os percursos criativos desenvolvidos pelos participantes e reforçar a ideia de que a formação artística, quando pensada a partir das periferias, pode ser um instrumento de autonomia e reescrita de narrativas.