Belo Horizonte se destaca como destino gastronômico no Brasil

Reconhecida pela Unesco como Cidade Criativa da Gastronomia, Belo Horizonte figura entre os quatro destinos brasileiros que possuem esse título. A cidade ganha projeção internacional pela originalidade de suas receitas, valorização dos ingredientes regionais e desenvolvimento de políticas públicas voltadas à segurança alimentar e à agroecologia. Já a Pesquisa de Hábitos Gastronômicos de BH realizada pela Belotur apontou que os moradores gastam, em média, R$ 600 por mês em bares e restaurantes e que costumam se alimentar fora de casa a cada três dias. Entre os entrevistados, 95% avaliaram a gastronomia local como satisfatória ou acima das expectativas, com índice de recomendação de 9,3. De acordo com os dados, o prato que mais simboliza a culinária da cidade é o tradicional feijão tropeiro. A diversidade e a qualidade da comida de Belo Horizonte receberam nota média de 8,5. Já entre os turistas, a percepção é ainda mais positiva: 95% afirmaram que a experiência atendeu ou superou o esperado, e 63% consideram a gastronomia um aspecto decisivo na escolha de visitar a cidade. Na avaliação do agente de viagens, Vicente Brandão, a gastronomia exerce um papel estruturante no desenvolvimento da capital mineira. “Belo Horizonte conseguiu transformar sua cultura alimentar em um ativo econômico robusto. Os bares, restaurantes e mercados não apenas geram emprego e renda, mas também funcionam como espaços de convivência e expressão cultural. Isso cria uma experiência única para o turista, que passa a enxergar a cidade como um destino gastronômico de referência”. Segundo Brandão, o impacto vai além dos limites municipais. “A força da gastronomia de Belo Horizonte ajuda a projetar todo o Estado de Minas Gerais. Muitos visitantes chegam à capital e, a partir dessa experiência, se interessam por conhecer outras regiões, como o interior, onde encontram produtos artesanais, queijos e tradições culinárias igualmente ricas. É um efeito em cadeia que fortalece cada vez mais o turismo regional como um todo”. Outro ponto destacado por especialistas é o papel dos bares na construção da identidade da cidade. Para o antropólogo Carlos Menezes, os estabelecimentos são parte essencial do modo de vida belo-horizontino. “Os bares não são apenas locais para consumir alimentos e bebidas. Eles são espaços de sociabilidade, onde as pessoas constroem relações. Essa cultura do bar é tão forte que se tornou um dos principais elementos da identidade da cidade”. Ele ressalta que essa característica também se reflete na experiência turística. “Quando o visitante chega a Belo Horizonte, ele não encontra apenas pratos típicos, mas um ambiente acolhedor, marcado pela informalidade e pela hospitalidade. Isso faz toda a diferença. O turista não quer apenas comer bem, ele quer se sentir parte daquele contexto, e os bares proporcionam isso”. A combinação entre tradição e inovação é outro fator que contribui para o destaque da gastronomia local. Enquanto receitas clássicas como o feijão tropeiro continuam sendo valorizadas, chefs e cozinheiros exploram novas técnicas, mantendo viva a essência mineira, mas dialogando com tendências contemporâneas. Esse equilíbrio tem sido fundamental para consolidar Belo Horizonte como um dos principais destinos gastronômicos do país. A cidade demonstra que a culinária pode ser patrimônio cultural e motor de desenvolvimento econômico, atraindo visitantes e fortalecendo a identidade local.

Projeto abre portas para participação de mulheres no segmento da tecnologia

Em um mercado cada vez mais estratégico para empresas, governos e cidadãos, a participação feminina ainda está longe do ideal. No Brasil, as mulheres representam apenas 17% da força de trabalho em cibersegurança. Para enfrentar essa desigualdade e incentivar novas trajetórias profissionais, o projeto Mulheres de Exatas em Cibersegurança (METIS), idealizado por professoras do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha com meninas de escolas públicas de Belo Horizonte e da Região Metropolitana. Coordenada pela pesquisadora Michele Nogueira, a iniciativa atende 35 alunas de sete escolas públicas, do ensino fundamental ao médio em Belo Horizonte e Região Metropolitana. O foco está na formação prática em cibersegurança, mentorias, criação de rede de contatos e aproximação com o mercado de trabalho. Segundo Michele, o afastamento feminino dessas áreas está ligado a fatores históricos e culturais que ainda persistem no país. “As meninas e mulheres ainda enfrentam preconceito em relação à sua capacidade. Existe uma mentalidade muito mais masculina quando se fala de força de trabalho, e isso não é algo específico da tecnologia. Mas, nessa área, os preconceitos acabam afastando as meninas”. Ela ressalta que o desafio não se resume ao acesso à formação técnica, mas também à forma como mulheres são vistas e se posicionam profissionalmente. “Esses preconceitos não vêm só dos homens. Também aparecem na mentalidade feminina, na maneira como muitas mulheres pensam e se colocam no mercado de trabalho”. A experiência pessoal da pesquisadora em ambientes predominantemente masculinos ajudou a moldar o projeto. Para Michele, muitas ferramentas que hoje são parte do METIS fizeram falta em sua própria trajetória. “Muito da concepção metodológica e dos objetivos do projeto veio do que nós sentimos ausência no nosso processo de formação. Um programa de mentoria que pudesse orientar, indicar caminhos e apoiar em situações difíceis teria ajudado. Não tivemos isso, e hoje buscamos oferecer às meninas exatamente esse suporte”. O projeto ainda está em fase inicial, com pouco mais de um ano de atividade, e por isso, os resultados de longo prazo ainda estão em construção. Mesmo assim, a expectativa é de impacto crescente nos próximos anos, tanto na escolha profissional das participantes quanto na permanência delas em cursos e carreiras ligadas à tecnologia. Além das estudantes diretamente atendidas, a pesquisadora destaca um efeito multiplicador dentro das famílias e comunidades. “Estamos formando sementinhas de futuras profissionais. Essa conscientização chega também às famílias, aos amigos e ao entorno dessas meninas. Isso pode despertar o interesse de outras pessoas e fortalecer a competitividade e a soberania digital do país”. Parcerias Outro diferencial do METIS é a integração com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial para Cibersegurança (INCT-IACiber), sediado na UFMG. A conexão permite mais contato com pesquisadores, empresas e lideranças do setor. Para Michele, ampliar a presença feminina exige também políticas públicas voltadas ao ingresso e à permanência dessas profissionais. “Esperar apenas a mudança natural de comportamento levaria muito mais tempo. As políticas públicas podem acelerar esse processo de inserção e permanência das mulheres na tecnologia e na cibersegurança”, conclui.

Turismo rural aumenta a renda de produtores em até 30% no Estado

O turismo rural tem impulsionado a renda de produtores em Minas Gerais, com aumento de até 30% em algumas propriedades que abriram as portas para visitantes. Experiências com queijos, cafés, doces e cachaças têm atraído turistas e transformado atividades tradicionais do campo em novos negócios. Atualmente, são 266 propriedades abertas ao turismo. Em 2025, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) realizou cerca de 3,4 mil atendimentos a produtores que investem no segmento, com presença em diferentes regiões, como Norte, Sul e Noroeste do Estado. A coordenadora técnica de Turismo Rural da Emater-MG, Thatiana Garcia, destaca que a atividade começou a crescer no pós-pandemia. “As pessoas começaram a querer entender mais sobre a produção de alimentos, e também ter uma vivência no local. Temos produtores que já vivem exclusivamente do turismo. Eles não vendem mais produtos para terceiros, e para adquiri-los, é preciso ir até a propriedade”. Em Ritápolis, no Campo das Vertentes, a Queijaria Seu Jorge transformou o dia a dia da produção em uma atração turística. Administrado por sete mulheres da mesma família, o local recebe visitantes interessados em conhecer o processo de fabricação. “O turista chega da cidade grande com muitas expectativas, e é uma troca interessante. Ele pode acompanhar a ordenha, ver como o queijo é feito, para depois saboreá-lo com café”, conta a proprietária Vera Lúcia Cardoso. Já em São João del-Rei, a Cachaça Morro Grande abriu o alambique à visitação e passou a integrar o roteiro turístico da região. Com produção anual entre 15 mil e 20 mil litros, o produtor José do Carmo Rezende explica que o turista vai ver todo o processo de fabricação da cachaça. “Desde o plantio e a moagem, até a degustação. Isso ajuda a valorizar a bebida e aumentar ainda mais as vendas”. Thatiana acrescenta que o turismo rural não se limita à produção de itens como queijo e cachaça, há outras atividades. “O ecoturismo, visitas em comunidades tradicionais, como quilombolas, indígena e ribeirinhos, além das propriedades de produtos orgânicos”. Acreditar no potencial A técnica ressalta que existem duas principais dificuldades dos produtores para exercer esse tipo de atividade em suas propriedades. “Eles precisam acreditar em seu potencial. É necessário compreender que os turistas querem visitar e vivenciar essas experiências. A partir disso, aparece o segundo obstáculo, que é a precificação. Muitos ainda não conseguem entender que as pessoas pagam para ir nas propriedades rurais e valorizam esse tipo de turismo”. Ela afirma ainda que a Emater ajuda na capacitação dos produtores. “Mas, também na orientação dos profissionais que trabalham diretamente nos escritórios locais da instituição. Fazemos um diagnóstico para entender se aquela propriedade consegue ou não receber visitantes, o que precisa desenvolver e qual é o desejo do produtor. A metodologia mais utilizada pelos extensionistas é do ouvir, de ver o que aquele empreendedor quer, como vai vivenciar e o que ele quer fazer”. “As nossas expectativas sobre o turismo rural são as melhores e maiores possíveis. Acreditamos que esse crescimento faça movimentar cada vez mais o segmento externamente e internamente. A atividade traz uma valorização do município. Queremos desenvolver esse setor para que cresça cada dia mais e prevaleça mais forte”, complementa. A partir de maio, será aberta a atualização para a 4ª edição do catálogo Ruralidade Viva, que é uma iniciativa para dar mais visibilidade aos trabalhos desses produtores. As pessoas que tiverem interesse, é só procurar o escritório da Emater, conversar com o técnico e fazer o cadastro. A entidade auxilia todos, desde quem está começando até aquele que já está no mercado. “Estamos abertos para fazer o atendimento a todos que se interessarem em trabalhar com turismo rural”, finaliza Thatiana.

Belo Horizonte registra mais de 13 mil acidentes no início de 2026

Belo Horizonte contabilizou mais de 13 mil ocorrências de trânsito apenas nos dois primeiros meses de 2026. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), a Avenida Cristiano Machado, um dos principais eixos viários da capital, passou a liderar o ranking de acidentes e fatalidades. Com extensão de 11,7 km, a via registrou 596 colisões, cerca de 10 por dia, e três mortes, ultrapassando o Anel Rodoviário, que teve 519 acidentes e um óbito ao longo de seus 22 km, mesmo sendo historicamente o trecho com maiores índices na cidade. Além disso, os registros de combinação entre consumo de álcool e direção seguem em patamar elevado. Em Minas Gerais, foram contabilizadas 546 ocorrências desse tipo, das quais 253 envolveram ao menos uma vítima. Em Belo Horizonte, a capital do estado, houve 47 registros relacionados a essa situação. O cenário na Cristiano Machado é resultado de uma combinação de fatores estruturais, comportamentais e de planejamento urbano. O especialista em segurança viária e trânsito, José Carlos Souza, explica que a via concentra características que aumentam significativamente o risco de acidentes. “A Cristiano Machado funciona como um corredor híbrido: ao mesmo tempo em que é via de trânsito rápido, ela também está inserida em uma área urbana densa, com cruzamentos frequentes, acessos comerciais e grande circulação de pedestres. Essa mistura eleva o conflito viário e reduz a previsibilidade do tráfego”. Segundo Souza, outro ponto crítico é a alta taxa de variação de velocidade ao longo do trecho. “O motorista sai de um segmento de fluxo livre e rapidamente encontra semáforos, entradas de bairros e pontos de ônibus. Essa alternância exige uma atenção constante que nem sempre é respeitada, o que contribui para colisões traseiras e laterais”. A urbanista Fernanda Bastos acrescenta que o desenho urbano da avenida também influencia diretamente os índices elevados de acidentes. “A Cristiano Machado foi estruturada para priorizar a fluidez dos veículos, mas não acompanhou de forma adequada o crescimento populacional e a expansão de atividades comerciais ao longo do seu eixo. Hoje, há uma disputa intensa entre carros, ônibus, motocicletas e pedestres, sem que a infraestrutura tenha sido totalmente adaptada para isso”. Diante do cenário, especialistas defendem que a redução dos acidentes depende de um conjunto integrado de políticas públicas. Entre as medidas mais citadas está o reforço na fiscalização eletrônica e presencial, especialmente em vias de alto fluxo como a Cristiano Machado e o Anel Rodoviário. “A fiscalização precisa ser constante e inteligente, com uso de dados em tempo real para identificar pontos críticos e horários de maior risco”, afirma Souza. No campo da prevenção ao consumo de álcool associado à direção, o especialista defende campanhas educativas contínuas e ações integradas com bares, restaurantes e aplicativos de transporte. “A conscientização precisa ser permanente, não apenas em datas comemorativas. Além disso, políticas que incentivem alternativas seguras de deslocamento após o consumo de álcool são fundamentais para reduzir esse tipo de ocorrência”. Outra estratégia apontada por Fernanda é a requalificação urbana da avenida, com foco na redução de conflitos entre diferentes modais de transporte. Isso inclui a criação de travessias mais seguras para pedestres, reorganização de acessos, melhorias na sinalização e revisão dos limites de velocidade em trechos específicos. “Não basta apenas punir o comportamento inadequado. É necessário redesenhar o espaço urbano para que ele induza comportamentos mais seguros”.

Projeto social utiliza pedrinhas para apoiar as crianças com autismo

Em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, uma ação do Projeto CASA (Cultura, Assistência Social e Atividades Esportivas) tem se consolidado como exemplo de impacto social ao utilizar pedrinhas sensoriais artesanais para auxiliar na regulação emocional de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). A proposta surgiu no Polo 20 do projeto, dentro de uma oficina de biscuit, e rapidamente ganhou novos significados. Produzidas pelas próprias participantes, as pedrinhas passaram a ser utilizadas como recurso terapêutico, ajudando no foco e no controle das emoções, especialmente em ambientes com excesso de estímulos. Conforme explica a coordenadora de projetos do Instituto Ramacrisna, Aline Fauez, a iniciativa nasceu da escuta ativa da comunidade. “Identificamos uma demanda significativa de crianças com autismo e TDAH e buscamos alternativas que pudessem contribuir no dia a dia. A produção de itens sensoriais foi uma forma prática de integrar inclusão à proposta do projeto”. A ação foi ampliada para outras oficinas e passou a envolver mais participantes, fortalecendo o engajamento coletivo. Segundo Aline, os impactos são percebidos diretamente pelas famílias. “Nosso principal indicador é a escuta contínua. Os relatos mostram melhora no comportamento, no bem-estar e até na interação social das crianças”. Um desses relatos é o de Rayane Clisma, de 28 anos, que acompanha de perto os efeitos da iniciativa no cotidiano do filho, Alan Gabriel, de 7 anos. “A pedrinha realmente o acalma, é visível a diferença quando ele a utiliza. Um dia esqueceu o objeto em casa e ficou muito mais agitado na escola. Depois disso, a própria coordenação sugeriu que ele tivesse uma pedrinha na mochila. Como mãe, tem sido uma experiência excelente”. Do ponto de vista clínico, a psicóloga Jéssica Tauane esclarece que o uso de objetos sensoriais é um recurso importante no apoio à regulação emocional. “Pessoas com TEA podem ter maior sensibilidade a estímulos, como texturas. As pedrinhas funcionam como um ponto de foco, ajudando o corpo e a mente a se organizarem melhor e favorecendo a sensação de calma”. Ela ressalta ainda que o benefício não se limita ao autismo. “Esses recursos também podem ajudar pessoas com ansiedade, reduzindo a tensão, e indivíduos com TDAH, auxiliando na concentração ao canalizar a inquietação. Apesar dos resultados positivos, o uso das pedrinhas deve ser complementar. São ferramentas de apoio que contribuem no dia a dia, mas não substituem o acompanhamento profissional”, pontua. Para Aline Fauez, o diferencial da iniciativa está na transformação de uma atividade simples em solução concreta. “Quando uma oficina passa a ter também uma função terapêutica, ampliamos o impacto social, fortalecemos vínculos e promovemos pertencimento”. Sobre a ação realizada pelo Instituto Ramacrisna em parceria com a Prefeitura de Betim, o Projeto CASA oferece atividades gratuitas nas áreas de esporte, cultura e educação. A iniciativa busca promover desenvolvimento social e ampliar oportunidades nas comunidades atendidas. A experiência com as pedrinhas sensoriais mostra que, com escuta e criatividade, ações simples podem gerar mudanças significativas, não apenas para quem participa diretamente, mas também para suas famílias.

Artesanato da Mantiqueira fortalece a identidade cultural em Delfim Moreira

Nas montanhas da Serra da Mantiqueira, em Delfim Moreira, no Sul de Minas, está localizada a Associação Cultural de Artistas e Artesãos de Delfim Moreira (Academ), conhecida como Grimpeiros, que reúne 12 artesãos. O grupo começou a se estruturar entre 2021 e 2022, a partir da percepção de que muitos artesãos do município atuavam de forma isolada. A trajetória dos Grimpeiros é marcada por ações de capacitação e acompanhamento promovidas pelo Sebrae Minas, em parceria com a Prefeitura. A partir dessas iniciativas, os artesãos passaram a participar de feiras do setor e missões técnicas. Atualmente, o grupo recebe uma consultoria de governança, voltada ao fortalecimento da gestão da associação e na consolidação do trabalho coletivo. Um dos marcos da trajetória da Academ ocorreu em dezembro de 2025, com a inauguração de uma loja coletiva na antiga estação ferroviária da cidade. O espaço se tornou vitrine permanente para a produção artesanal local e um novo ponto de valorização da cultura do município. A associação produz peças como crochê, tricô, bordados, biscuit e artesanato religioso. A analista de negócios do Sebrae Minas, Andressa Paes, explica que a instituição começou a atuar na região em 2021. “Com um trabalho inicial de sensibilização do território, voltado para identificar e desenvolver as vocações econômicas locais. Já em 2022, demos início a esse processo de forma mais estruturada, com a realização do Curso Cultcoop, que teve como objetivo trabalhar a cultura da cooperação entre os artesãos”. Andressa afirma que o artesanato tem um impacto importante na economia de Delfim Moreira, atuando como um vetor de desenvolvimento local. “A atividade tem um papel fundamental, pois vai muito além da produção de objetos decorativos ou utilitários. Ele representa a história, a cultura e o modo de vida dessa população”. “Muitas peças são produzidas com técnicas tradicionais. Esses saberes carregam influências dos antepassados e mantêm vivas as tradições da região. Além disso, o artesanato fortalece a identidade da comunidade, pois reflete características próprias da cidade, como os materiais utilizados, os estilos e os temas das peças”, acrescenta. Desafios Entre os utensílios produzidos estão trabalhos em cestaria com fibra de bananeira, costura criativa, sabonetes e velas artesanais, artigos em madeira e objetos decorativos feitos com elementos naturais, como pinhas e cabaças. A Academ também desenvolveu a Coleção Araucária, criada a partir de um processo de design voltado ao artesanato. Inspiradas na paisagem da Mantiqueira, as peças incorporam símbolos da região, como o pinhão, o sol surgindo entre as montanhas e a araucária. O artesão Tom Rainer, 40 anos, conta que cada peça carrega um exemplar original da história de Delfim Moreira. “Da cultura local e de uma identidade única que o povo mineiro possui. É um trabalho que reflete tradições passadas de geração em geração, feito pelas mãos de pessoas que realmente amam o que fazem”. Rainer faz crochê, e desde 2025, é um associado da Academ. “Esse é um espaço onde consigo desenvolver e mostrar meu trabalho, expandir minha rede de contatos e conhecer pessoas novas e incríveis, de diferentes gerações, histórias e posições. Apesar das diferenças, todos compartilham algo muito forte em comum: o amor pelo artesanato”. Um dos principais obstáculos para esses profissionais é a baixa visibilidade fora da região, ressalta Andressa. “Muitos artesãos são reconhecidos apenas localmente, o que dificulta alcançar novos públicos em outras cidades, estados ou até no meio digital. Sem divulgação adequada, seus produtos acabam não sendo conhecidos por potenciais clientes”. “Outro desafio importante é a necessidade de profissionalização, especialmente nas áreas de gestão e marketing. Além disso, há as dificuldades de acesso a canais de venda maiores, como lojas especializadas, feiras nacionais, marketplaces e exportação. Entrar nesses espaços geralmente exige padronização, escala de produção, documentação e estratégias comerciais que nem sempre estão ao alcance dos pequenos produtores. Nesse contexto, o apoio de instituições como o Sebrae é fundamental”, finaliza.

BH é reconhecida como “Cidade Árvore do Mundo” pelo terceiro ano seguido

Pelo terceiro ano seguido, Belo Horizonte foi reconhecida como “Cidade Árvore do Mundo” devido às diversas iniciativas ambientais implementadas recentemente. A capital permanece entre os municípios premiados pela Arbor Day Foundation e pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), que atualmente inclui 283 cidades em 24 países. Em 2025, Belo Horizonte realizou mais de 50 mil plantios e lançou o Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU), desenvolvido com a participação da sociedade civil. O programa busca expandir e preservar a cobertura arbórea de forma planejada, combinando ações imediatas e estratégias de longo prazo, com manejo adequado, monitoramento constante e priorização de áreas estratégicas. Para 2026, a meta é repetir o volume de plantios alcançado no ano anterior. Para que uma cidade seja reconhecida, é necessário cumprir cinco critérios: possuir equipe técnica e servidores designados para gestão das árvores urbanas; manter políticas e regulamentações ambientais locais; ter mapeamento e conhecimento detalhado do patrimônio arbóreo; garantir recursos financeiros para o manejo; e promover datas ou eventos voltados à celebração das árvores. “Ser reconhecida como ‘Cidade Árvore do Mundo’ vai além de um selo ambiental. Significa compromisso com a qualidade de vida, sustentabilidade urbana e resiliência frente às mudanças climáticas. Árvores reduzem a poluição do ar, baixam a temperatura urbana e proporcionam sombra e bem-estar à população. Não se trata apenas de plantar árvores, trata-se de integrar a vegetação ao tecido urbano de forma planejada, garantindo sombra, qualidade do ar e absorção de água da chuva”, afirma a urbanista Michele Silveira. O impacto desse trabalho é sentido no cotidiano da população. Ela explica que árvores nas ruas e parques contribuem para a redução das temperaturas urbanas, atuando como “ares-condicionados naturais”; melhoram a qualidade do ar ao filtrar poluentes e partículas suspensas; contribuem para a gestão de águas pluviais, reduzindo alagamentos e erosão; além de proporcionar espaços de convivência mais agradáveis. “Quando caminhamos sob árvores, sentimos imediatamente um ambiente mais acolhedor e saudável. Isso influencia desde a nossa saúde física até o bem-estar psicológico”. Apesar dos avanços, o paisagista Leonardo Magalhães aponta desafios e áreas que demandam melhorias e investimentos mais robustos. Um dos pontos críticos é a manutenção e longevidade das árvores já plantadas, especialmente em bairros periféricos onde serviços públicos de poda, irrigação e cuidado mais intensivo ainda são insuficientes. “O grande obstáculo não é só plantar, mas garantir que essas árvores cresçam e cumpram seu papel por décadas, isso exige não apenas recursos, mas também uma gestão integrada entre secretarias, sociedade civil e comunidades locais”. Outro ponto de atenção é a desigualdade na distribuição da arborização pela cidade. Zonas centrais e bairros de maior poder aquisitivo tendem a ser mais arborizados, enquanto áreas periféricas ainda carecem de cobertura vegetal adequada, deixando seus moradores mais expostos ao calor e com menor acesso aos benefícios ambientais. Ele ressalta a importância de que a Prefeitura invista em projetos que priorizem essas regiões. A educação ambiental também aparece como um campo a ser fortalecido. “Embora a gestão já promova projetos de conscientização, muitos cidadãos ainda desconhecem aspectos importantes sobre o ciclo de vida das árvores, espécies adequadas a cada tipo de solo e clima, ou os cuidados durante períodos de seca ou fortes ventos”, explica Magalhães.

“Projeto Pega a Visão” proporciona inclusão cultural em Belo Horizonte

Entre abril e junho de 2026, o bairro São Geraldo, na região Leste de Belo Horizonte, se transformará em um polo de formação artística gratuita voltado a jovens da rede pública da capital. O projeto “Pega a Visão: Atividades de Formação e Reflexão”, será realizado no Espaço Cultural Suelly Freire, aposta na arte como ferramenta de pertencimento, identidade e transformação social. A iniciativa oferecerá oficinas de Contação de História, Dança Afro, Danças Urbanas, Passinho de BH, Rima e Trança Afro. Os interessados deverão preencher um formulário on-line no Instagram @sfcultural até o dia 27 de março. Segundo o gestor do espaço e idealizador do projeto, Leonard Henrique, a escolha das linguagens parte da vivência real dos jovens. “Ao sair de casa, um jovem sempre vai encontrar um cabelo trançado, dançarinos debaixo do viaduto, uma batalha de slam. O especial é quando a gente pega o que é do cotidiano e leva para outro espaço, possibilitando o desenvolvimento dessas técnicas”. A ideia central do projeto está ancorada em dois pilares: experimentação e pertencimento. Leonard Henrique explica que ao transformar manifestações culturais em objeto de estudo, o projeto busca fortalecer a autoestima e a identidade dos participantes. “Quando a gente conta a história e a grandeza dessas atividades, desperta o pertencimento do jovem periférico”. Outro ponto relevante é o enfrentamento do preconceito que ainda cerca essas expressões culturais. Ele destaca que mesmo presentes no cotidiano, muitas dessas práticas não são reconhecidas como formas legítimas de arte. “Grande parte dos jovens veem, mas não têm acesso ou até têm preconceito com essas atividades. Quando experimentam e aprendem, passam a se apropriar da própria cultura, sem achar que ela é menor”. Voltado prioritariamente para estudantes do ensino fundamental, médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede pública, o projeto aposta no potencial criativo desses jovens. Para o gestor, esse público representa uma força artística ainda pouco explorada. “Ali está uma usina criativa. Quando a gente oferece ferramentas e pertencimento, surgem artistas periféricos muito potentes”. A escolha dos oficineiros também seguiu essa lógica de valorização de trajetórias ligadas aos territórios. O processo envolveu aproximação e diálogo com artistas reconhecidos em suas áreas, reforçando a proposta de construir uma formação ainda mais conectada com a realidade local. Ao todo, cerca de 120 jovens devem participar das atividades ao longo dos três meses. Para Leonard Henrique, o impacto vai além do aprendizado individual. “Dizem que uma andorinha não faz verão. Mas 120 pessoas pensando em arte já começam a fazer um movimento na periferia. A gente começa uma pequena revolução cultural”. O projeto será concluído em julho, com a Mostra “Pega a Visão”, aberta ao público. O evento vai apresentar os percursos criativos desenvolvidos pelos participantes e reforçar a ideia de que a formação artística, quando pensada a partir das periferias, pode ser um instrumento de autonomia e reescrita de narrativas.

Juiz de Fora é a terceira cidade com maior área urbanizada em declive

Com 65 mortes decorrentes das últimas chuvas, Juiz de Fora, localizada na Zona da Mata mineira, é a terceira cidade brasileira com maior área urbanizada em declive. Em 2024, o município tinha 1.256 hectares construídos onde a inclinação representa risco maior de deslizamento, segundo o Mapeamento Anual das Áreas Urbanizadas no Brasil. Minas Gerais é o Estado brasileiro com a maior área urbanizada em alta declividade, ou seja, construída em encostas íngremes que oferecem risco aos moradores. Há quase 14,5 mil hectares de área com pessoas vivendo em locais de risco, e as fortes chuvas de fevereiro deixaram, no total, 72 mortes. Nas últimas quatro décadas, as áreas urbanas no Brasil cresceram 2,5 vezes, passando de 1,8 milhão de hectares, em 1985, para 4,5 milhões em 2024, ou 0,5% do território nacional, um aumento de cerca de 70 mil hectares ao ano. Já as áreas urbanizadas em altas declividades avançaram mais de três vezes no período. Em 1985, eram 14 mil hectares; em 2024, 43,4 mil. Desse total, 40,5 mil hectares estão em áreas urbanas da Mata Atlântica. Em 1985, os municípios com mais áreas urbanizadas em regiões de alta declividade eram Rio de Janeiro (1,16 mil hectares), Belo Horizonte (900 hectares) e São Paulo (730 hectares). Em 2024, a liderança continuou com o Rio de Janeiro (1,7 mil), porém, São Paulo assumiu a vice-liderança (1,5 mil) e Juiz de Fora subiu para a terceira posição, à frente de Belo Horizonte (1,2 mil). “O processo de urbanização de Minas Gerais desafia permanentemente a geografia. O avanço das construções sobre relevos acentuados é um padrão muito forte na Zona da Mata, onde se localiza Juiz de Fora. Embora seja uma cidade média, hoje já é o terceiro município do país com maior ocupação urbana em áreas de encostas e risco potencial”, destaca Talita Micheleti, da equipe de mapeamento de áreas urbanizadas do MapBiomas. O professor de Engenharia Ambiental e Sanitária, e Civil do Centro Universitário das Faculdades Metropolitana Unidas (FMU), Guillermo Ruperto Martín Cortés, explica que a urbanização em encostas íngremes, se for devidamente planejada e efetuada, não deve oferecer riscos à segurança nem ao ambiente. “O grave problema se encontra na falta de controle administrativo e diretrizes sobre requisitos mínimos para ter autorização de construção”. “Em princípio, da mesma maneira que as autoridades governamentais exigem o licenciamento ambiental para a execução de qualquer projeto econômico-industrial, a administração municipal deveria supervisionar de maneira efetiva o uso dos solos, exigir laudos geotécnicos dos lotes a serem construídos e a capacitação técnica dos possíveis construtores. Do contrário, os efeitos conhecidos de todos, são desmoronamentos, quedas de barreira e fatalidades com as consequências naturais na alteração do relevo da região”, afirma o professor. Favelas O estudo calculou também a área de favelas que se encontram em terrenos com alta declividade. Eram 2.266 hectares em 1985 e passou para 5.704 em 2024, um aumento de mais de 150%. O Rio de Janeiro lidera, com 1.730 hectares, seguido por São Paulo (1.061) e Minas Gerais (1.057). Para Cortés, o maior problema das grandes urbes é poder prever e planejar o crescimento populacional com vistas a satisfazer a demanda dos serviços básicos à população. “Como energia, água, saúde, comunicação, transporte, ensino e segurança. A essas adversidades são somadas a necessidade de controlar ou regular a ocupação em áreas de risco”. Os governos devem dispor de uma secretaria especial de urbanização, ressalta o docente. “Com engenheiros civis e ambientais que supervisionam constantemente o crescimento construtivo do município e do Estado. Estes especialistas carecem elaborar periodicamente, pelo menos de maneira anual, relatórios sobre a situação construtiva em relação com os dados técnicos”. Ele salienta ainda que a elaboração de planos construtivos de novas moradias e a sua efetivação, por parte dos governos municipais e estaduais, seria uma contribuição muito forte para diminuir esses problemas e a tendência de construção irregular em áreas de alto risco.

32 novos radares de velocidade entraram em operação na capital

Com a entrada em funcionamento de 32 novos radares na semana passada, Belo Horizonte passou a contar com 146 equipamentos de monitoramento eletrônico ativos em 2026. Isso significa que, em média, a prefeitura colocou em operação cerca de 2,5 dispositivos por dia este ano. A maioria dos aparelhos instalados substitui antigos equipamentos, cujos contratos expiraram recentemente. Ainda assim, alguns locais passam a contar com fiscalização eletrônica pela primeira vez. Desde o fim de fevereiro, a Prefeitura de Belo Horizonte deixou de informar individualmente a data de início de funcionamento de cada novo radar. A administração municipal passou a reunir todos os equipamentos em uma planilha única. Antes, os dispositivos recém-instalados eram divulgados em uma página específica destinada a esse fim. Os últimos conjuntos de radares ativados neste ano haviam sido anunciados no encerramento de janeiro e também no fim de fevereiro. Já em março, a comunicação ocorreu logo no terceiro dia do mês. Embora a relação oficial aponte 146 aparelhos, esse número não corresponde, necessariamente, a 146 locais distintos de fiscalização. Isso porque há casos em que mais de um equipamento está instalado no mesmo endereço, sendo contabilizados separadamente conforme a faixa monitorada. Em alguns trechos do Anel Rodoviário, por exemplo, existem vários radares em um único ponto para acompanhar diferentes faixas ou sentidos de tráfego. Na prática, portanto, o total de dispositivos em operação pode não coincidir com a quantidade de pontos diferentes onde os condutores notarão a presença da fiscalização eletrônica. Segundo o engenheiro de trânsito, Marcos Albuquerque, os radares desempenham um papel fundamental na redução de acidentes e na conscientização dos motoristas sobre os limites de velocidade. “A instalação de radares não deve ser vista apenas como um instrumento de arrecadação de multas, mas como uma ferramenta preventiva. Quando bem posicionados, esses dispositivos ajudam a disciplinar o tráfego, evitam ultrapassagens perigosas e diminuem o número de acidentes graves em corredores críticos da cidade”. Além de contribuir para a segurança, os radares também têm potencial para melhorar a mobilidade urbana. “A fiscalização eletrônica cria um efeito de moderação de velocidade, o que ajuda a reduzir o congestionamento e permite que os veículos circulem de forma mais uniforme, diminuindo o risco de acidentes por freadas bruscas ou mudanças de faixa repentinas”. Ainda conforme Albuquerque, o planejamento da instalação dos radares deve considerar não apenas o volume de tráfego, mas também o histórico de acidentes e os pontos de maior risco, o que garante que o investimento seja direcionado de forma estratégica. Já o especialista em segurança viária, Roberto Lima, aponta que a simples presença de radares não garante uma redução significativa nos acidentes ou na velocidade média do tráfego. É necessário que haja educação para o trânsito, fiscalização complementar e planejamento urbano adequado. “Os radares funcionam como uma ferramenta de apoio, não como solução isolada. Eles são mais eficazes quando combinados com medidas como lombadas eletrônicas, campanhas de conscientização e fiscalização móvel em trechos estratégicos”. A percepção dos motoristas em relação aos radares também é um ponto importante. Muitos condutores reconhecem a importância dos equipamentos, mas ainda veem a fiscalização como punitiva. “É natural que haja resistência no início, mas com o tempo, percebe-se que os radares contribuem para um trânsito mais seguro e previsível. O desafio é equilibrar a necessidade de segurança com a sensação de que a fiscalização é justa e transparente”, explica Lima.