Um lance chamou a atenção no empate de 1 a 1, durante a partida entre Galo e Santos, no dia 14 de setembro. Em um lance na área, Igor Gomes deu uma joelhada na cabeça do goleiro Gabriel Brazão. Nocauteado, caiu no gramado e ficou imóvel por alguns segundos. Estendido na grama, Brazão levou preocupação a todos no estádio e aos que assistiam à partida pela TV, assim como eu.
Os médicos, inclusive os do time adversário, correram para prestar os primeiros socorros ao goleiro santista. Naquele climão, a câmera mostrou um hematoma gigante na testa do atleta, que já mexia os braços e a cabeça, dando um certo alívio a todos. Pelo menos não está desacordado, pensei. O inchaço na cabeça de Brazão era tão assustador quanto a decisão de deixá-lo em campo com aquela touca de proteção. Informaram que o jogador disse que queria permanecer em campo.
Como assim? Não! Absurdo! Qualquer pessoa de bom senso diria que o goleiro deveria ser retirado rapidamente de campo e levado a um hospital. E foi isso que acabou acontecendo. Poucos minutos depois, Brazão pediu substituição e saiu de campo em uma ambulância.
Os médicos santistas disseram que fizeram os testes e que Brazão respondeu a todas as perguntas não havendo motivos para a saída dele naquele momento, mesmo com aquele “galo” gigante na cabeça. Me desculpem os médicos do Peixe, mas discordo totalmente da decisão deles e acho que arriscaram a saúde do jogador.
Protocolos na berlinda, perguntei ao médico Márcio Flávio de Freitas a opinião dele sobre a contusão do Brazão: “Há um atenuante, pois a decisão médica tem que ser tomada em segundos, sob forte pressão do ambiente. Entretanto, não se justifica. Poderia ter havido consequências graves, embora estatisticamente lesões encefálicas graves em jogos de futebol sejam raras”. Freitas completou: “Sou cliente e amigo de um ortopedista de clube de futebol e há tempos ele me disse que existe protocolo para os casos de TCE (traumatismo cranioencefálico) e traumas cervicais. Acho que os protocolos ajudam muito, mas cada caso é único e não há como eliminar a incerteza. Nessas circunstâncias, preferiria pecar por excesso, mas o futebol é um negócio muito grande”.
Tudo indica que Brazão deve ser poupado dos próximos jogos do Santos. Ficarei na torcida para que se recupere brevemente. No início dos anos 1970, outra lesão tirou um dos craques do campo. Tostão abandonou a carreira após um problema na retina causado por uma bolada. Depois de uma cirurgia realizada nos Estados Unidos, os médicos aconselharam o jogador, ídolo do Cruzeiro, a não continuar jogando profissionalmente. Assim ele fez.
Em meados da mesma década, eu, novinho, lá pelos meus 15 anos, fui jogar uma partida de futebol de salão (hoje chamado de futsal) contra o juvenil do Cruzeiro. Detalhe: desde os cinco anos eu jogava futebol na rua onde morava, no Bairro São Pedro, região Centro-Sul de Belo Horizonte.
Todo Natal meu pai me dava uma bola de couro, número 5. Na rua, eu era literalmente o “dono da bola”. Todos me esperavam para começar a pelada que durava a tarde toda. Convite raro no jogo contra os jovens azuis, fiz gols, dei assistência e tive uma exibição dentro da minha média. Ao final, o técnico me abordou, se apresentou, e disse: “No fim de semana, traga uma chuteira e uma camisa azul que você vai jogar no juvenil do Cruzeiro”. Falei com o meu pai sobre o convite e ele me lembrou do problema do Tostão. Eu sou míope e tinha acabado de colocar um par de lentes de contato, recém-chegada ao Brasil, que me deixou livre dos óculos “fundo de garrafa”.
Pensei alguns dias e não retornei ao Barro Preto, sede do Cruzeiro Esporte Clube. Teria sido um bom jogador? Talvez sim, talvez não. Aposto que sim (risos). Joguei futsal até os 35 anos quando comecei a pisar na bola. Anos depois, com meu filho completando 13 anos, voltei aos gramados. Fiz uma boa dupla de ataque com ele, desta vez, no futebol de campo, de grama natural, e com chuteira de trava, sonho de todo jovem que começa a jogar futebol. Hoje, eu e meu filho praticamos outros esportes, mas a paixão pelo futebol permanece em alta.



