Bilionários acumulam riqueza, enquanto pobreza segue em alta

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No ano passado, a riqueza dos bilionários cresceu mais de 16%, um ritmo três vezes superior à média dos últimos cinco anos, atingindo US$ 18,3 trilhões, o maior patamar registrado na história, segundo um relatório recente da Oxfam. Desde 2020, essa fortuna aumentou 81%, enquanto uma em cada quatro pessoas não tem acesso regular a alimento suficiente e quase metade da população mundial vive na pobreza. O Brasil concentra o maior número de bilionários da América Latina e do Caribe, com 66 indivíduos que somam cerca de US$ 253 bilhões, a maior fortuna coletiva da região. Sobre o assunto, o Edição do Brasil conversou com a diretora-executiva da Oxfam, Viviana Santiago.

Quais fatores contribuíram para o expressivo salto na riqueza dos bilionários em 2025

O crescimento desproporcional da riqueza dos bilionários, em um contexto global de pobreza, está intimamente ligado a medidas políticas que favorecem a manutenção e a reprodução dessa concentração de recursos. Um exemplo é a administração Trump, que adotou uma agenda claramente voltada à proteção dos interesses das grandes fortunas. Entre suas ações, destacam-se esforços para reduzir a tributação sobre grandes empresas, criar espaços pouco regulados para setores emergentes, como a inteligência artificial, e consolidar monopólios em determinados mercados. Essas medidas, combinadas, aceleram o aumento da extrema riqueza, impactam o mundo inteiro, mas beneficiam de maneira particular as grandes fortunas norte-americanas.

Quais são os principais obstáculos políticos no Brasil para implementar a tributação de dividendos, grandes fortunas e heranças?

A implementação de uma reforma tributária progressiva enfrenta obstáculos ligados à defesa dos interesses de bilionários, especialmente por mandatos parlamentares que protegem setores produtivos concentradores de riqueza. Narrativas controladas por esses indivíduos e veículos de comunicação associam tributação de lucros, dividendos e grandes fortunas à perda de empregos e à instabilidade econômica, dificultando o debate público. Na prática, trata-se de justiça fiscal: tributar a extrema riqueza não ameaça a sociedade, mas reduz desigualdades.

A recente reforma do imposto de renda é capaz de reduzir a concentração de riqueza ou seu impacto é restrito?

Ela representa um passo importante para reduzir a regressividade do sistema tributário. No entanto, embora relevante, essa medida não é suficiente para reverter totalmente o cenário de desigualdade fiscal. O país ainda possui poucas faixas de tributação, mantendo alta regressividade no topo da renda. Apesar da criação do imposto mínimo adicional, ele não resolve o problema estrutural. Para uma reforma verdadeiramente progressiva, é necessário ampliar as faixas do imposto de renda e avançar na tributação de lucros, dividendos e patrimônio, áreas que desde a década de 1990 permanecem praticamente isentas e concentram a extrema riqueza.

O relatório relaciona o crescimento da desigualdade à redução das liberdades civis e da imprensa. Quais evidências concretas desse fenômeno já são visíveis?

Nos últimos anos, tem se fortalecido no Brasil uma agenda de criminalização de movimentos sociais, ativistas e ações voltadas à igualdade, como o apoio à população em situação de rua. Projetos como a criminalização das barricadas, apresentados como combate ao tráfico, na verdade reprimem manifestações populares e protestos contra desigualdades. No ambiente digital, observa-se resistência à remoção de perfis ultraconservadores e censura à produção cultural, sempre sob a justificativa da “moral e dos bons costumes”. Esses processos refletem interesses de elites econômicas que buscam controlar narrativas e ampliar sua influência política.

Quais políticas públicas a Oxfam recomenda para reduzir a desigualdade e garantir maior justiça fiscal e social?

Enfrentar a desigualdade no Brasil exige transformar o sistema tributário regressivo em progressivo, com taxação de lucros, dividendos, heranças e grandes fortunas, acompanhada de métricas e indicadores claros. Combater pobreza não basta: é preciso reduzir desigualdade fortalecendo direitos sociais, como previdência e trabalho, e enfrentando a precarização do emprego. Também é essencial investir na formação política da população e na regulação de monopólios de comunicação, garantindo participação social e proteção democrática frente ao controle de narrativas

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