
A aviação brasileira começou o ano de 2026 com o melhor desempenho da série histórica para o primeiro bimestre. Entre janeiro e fevereiro, foram registrados 22,9 milhões de passageiros em voos domésticos e internacionais no país, segundo o relatório da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
O volume apresenta um crescimento de 10,1% em relação ao mesmo período de 2025, e configura o maior resultado para os dois primeiros meses do ano nos últimos 25 anos. A movimentação foi liderada pela região Sudeste, com 10,6 milhões de embarques, seguida pelo Nordeste (4 milhões), Sul (2,4 milhões), Centro-Oeste (1,9 milhão) e Norte (928 mil).
Para o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, o resultado reflete o momento de crescimento da economia e o fortalecimento do setor aéreo no país. “Esse desempenho mostra que o Brasil está voltando a crescer, com mais pessoas viajando a trabalho, a turismo e para acessar serviços. A aviação é um termômetro da atividade econômica e esse recorde no início do ano indica um cenário de maior dinamismo e ampliação da conectividade no país”.
A economista e professora da Una, Vaníria Ferrari, explica que o setor vem apresentando progresso desde o pós-pandemia, o que de forma acumulada, apresenta uma evolução significativa. “O valor do dólar, aliado a conflitos externos, têm direcionado o público para o turismo interno. Ainda tivemos o Carnaval, no início do ano, que apresentou expressivo crescimento. E o destino internacional também registrou avanço, muito voltado para o objetivo profissional”.
A especialista esclarece que esse movimento não é uma normalização pós-pandemia. “Isso já ocorreu entre 2022 e 2023. O que vemos hoje é um aumento acima do normal. Pode significar um novo padrão de consumo, uma vez que as pessoas estão optando pelo transporte aéreo em desfavor do rodoviário; um aquecimento do turismo interno, em detrimento do externo; e um aumento dos negócios”.
Vaníria afirma ainda que esse número sinaliza um aquecimento da demanda agregada por voos. “Economicamente, esse avanço é positivo, pois tem reflexo em toda a cadeia, como hotelaria, alimentação e transporte local. Por outro lado, esse crescimento, aliado ao não acompanhamento por parte da oferta e ao recente e provável aumento no valor do petróleo, pode significar um encarecimento de preços de passagens a médio e longo prazo”.
Avanço X Desaceleração
O crescimento do setor se consolidou nos últimos anos. Em 2021, no mesmo período, mais de 11 milhões de passageiros foram transportados. Desde então, a alta tem sido contínua, superando inclusive os níveis pré-pandemia. Somente em janeiro de 2026, foram registrados 12,4 milhões de viajantes. Em fevereiro, o total chegou a 10,5 milhões, alta de 9,9% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Ao longo de janeiro deste ano, os voos domésticos transportaram 9,4 milhões de passageiros pelo Brasil. O volume foi 9,3% maior em relação ao mesmo mês de 2025, quando a movimentação atingiu 8,6 milhões de viajantes.
Segundo a economista, esse crescimento a longo prazo pode não ser sustentável e perder força por vários motivos. “Além do aumento provável de preços das passagens, pelo fato da oferta não acompanhar a demanda e pelo aumento dos custos, como o caso do combustível, que representa em torno de 80% do total dos gastos de uma empresa, esse setor é extremamente vulnerável ao cenário macroeconômico”.
“Pode haver uma desaceleração em função da pressão sobre os preços e da renda da população frente a um aumento iminente da inflação. O dólar alto impacta as despesas fora do país, provocando redução da demanda por voos internacionais. E os juros elevados encarecem o crédito, as compras de passagens via cartão, o que aliado ao maior índice de endividamento e inadimplência da população aponta para uma desaceleração do segmento”, salienta a especialista.