Automedicação causa 20 mil mortes todos os anos no Brasil

De acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), a automedicação causa cerca de 20 mil mortes no Brasil todos os anos, já sendo considerada, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), um problema de saúde pública.

Em 2023, um estudo da Anvisa mostrou que houve mais de 30 mil casos de intoxicação apenas naquele ano causados por automedicação com remédios comuns, como anti-inflamatórios, analgésicos e antialérgicos. Entre os efeitos colaterais, foram registrados casos de alergias graves, hemorragias gástricas e insuficiência renal aguda.

O gerente médico das emergências de um complexo hospitalar, Thiago Mattos, alerta que a prática de tomar remédios que já funcionaram antes para tratar um problema corriqueiro é muito comum entre os brasileiros. “Mas, apesar de parecer uma solução rápida para solucionar casos de febre, azia ou dores pelo corpo, a medicação que não é orientada por um especialista pode causar intoxicação, reações adversas e até mesmo agravar doenças que o paciente já tenha”.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica – Regional Minas Gerais e cooperado da Unimed BH, Último Libânio da Costa, a facilidade para aquisição de remédios no Brasil favorece a prática. “A sociedade recorre a medicamentos sem prescrição médica, muitas vezes por recomendação de familiares, amigos ou buscas pela internet. Essas pessoas, em geral, não dominam o assunto por não terem formação profissional na área. A dificuldade de acesso aos serviços de saúde também pode ser outro fator”.

Costa pontua que o uso inadequado de medicamentos pode levar ao agravamento de condições clínicas pré-existentes. “Reações adversas, por vezes graves à saúde. O uso de sintomáticos de forma descontrolada pode mascarar sintomas de doenças, levando ao atraso de diagnósticos e tratamentos”.

“No Brasil, os medicamentos mais utilizados são os analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares. São muito usados também descongestionantes nasais, expectorantes, antiácidos e antibióticos. O uso inapropriado de antibióticos é a principal causa de resistência das bactérias aos tratamentos, apesar da exigência de retenção de receita, é muito comum pessoas se utilizarem de sobras de procedimentos incompletos”, acrescenta.

Grupos mais vulneráveis

O presidente esclarece que as crianças e os idosos, além das pessoas que fazem uso de medicação contínua, pelo maior risco de interações medicamentosas, são as mais vulneráveis. “Em pacientes internados, há um risco alto em situações em que acompanhantes e, às vezes, o próprio paciente, fazem uso de medicamentos por conta própria sem conhecimento da equipe que o assiste”.

“O uso indiscriminado de medicamentos pode causar prejuízos irreversíveis. As pessoas se preocupam com os efeitos colaterais digestivos dos anti-inflamatórios, porém, um problema silencioso é o dano renal. O paciente não vai sentir dor, nem diminuição do volume urinário. Quando os sintomas surgirem, já terá ocorrido algo mais grave”, alerta o profissional.

Ele ressalta ainda que a atenção primária, que é aquele atendimento prestado nos postos de saúde, pode contribuir para redução da automedicação. “Tornar essa estrutura mais equipada e com condições adequadas, tanto para o prestador como para o usuário, elevará a qualidade na assistência e no acesso. Além de medidas efetivas de fiscalização e controle da venda de medicamentos sem receita e da veiculação de informações falsas sobre saúde”.

“Muitas vezes, mudanças de estilo de vida, buscando hábitos saudáveis, resolvem ou atenuam problemas que pareciam sem solução. Aderir a atitudes de prevenção, como criar hábitos alimentares saudáveis, praticar atividade física regularmente, não fumar, não ingerir bebidas alcoólicas (ou fazê-lo com moderação), ter uma boa higiene do sono e manter-se sempre bem hidratado, são medidas simples que podem prevenir doenças ou, caso ainda assim elas ocorram, tornam o organismo mais preparado para enfrentá-las”, finaliza.

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