
Nas montanhas da Serra da Mantiqueira, em Delfim Moreira, no Sul de Minas, está localizada a Associação Cultural de Artistas e Artesãos de Delfim Moreira (Academ), conhecida como Grimpeiros, que reúne 12 artesãos. O grupo começou a se estruturar entre 2021 e 2022, a partir da percepção de que muitos artesãos do município atuavam de forma isolada.
A trajetória dos Grimpeiros é marcada por ações de capacitação e acompanhamento promovidas pelo Sebrae Minas, em parceria com a Prefeitura. A partir dessas iniciativas, os artesãos passaram a participar de feiras do setor e missões técnicas. Atualmente, o grupo recebe uma consultoria de governança, voltada ao fortalecimento da gestão da associação e na consolidação do trabalho coletivo.
Um dos marcos da trajetória da Academ ocorreu em dezembro de 2025, com a inauguração de uma loja coletiva na antiga estação ferroviária da cidade. O espaço se tornou vitrine permanente para a produção artesanal local e um novo ponto de valorização da cultura do município. A associação produz peças como crochê, tricô, bordados, biscuit e artesanato religioso.
A analista de negócios do Sebrae Minas, Andressa Paes, explica que a instituição começou a atuar na região em 2021. “Com um trabalho inicial de sensibilização do território, voltado para identificar e desenvolver as vocações econômicas locais. Já em 2022, demos início a esse processo de forma mais estruturada, com a realização do Curso Cultcoop, que teve como objetivo trabalhar a cultura da cooperação entre os artesãos”.
Andressa afirma que o artesanato tem um impacto importante na economia de Delfim Moreira, atuando como um vetor de desenvolvimento local. “A atividade tem um papel fundamental, pois vai muito além da produção de objetos decorativos ou utilitários. Ele representa a história, a cultura e o modo de vida dessa população”.
“Muitas peças são produzidas com técnicas tradicionais. Esses saberes carregam influências dos antepassados e mantêm vivas as tradições da região. Além disso, o artesanato fortalece a identidade da comunidade, pois reflete características próprias da cidade, como os materiais utilizados, os estilos e os temas das peças”, acrescenta.
Desafios
Entre os utensílios produzidos estão trabalhos em cestaria com fibra de bananeira, costura criativa, sabonetes e velas artesanais, artigos em madeira e objetos decorativos feitos com elementos naturais, como pinhas e cabaças. A Academ também desenvolveu a Coleção Araucária, criada a partir de um processo de design voltado ao artesanato. Inspiradas na paisagem da Mantiqueira, as peças incorporam símbolos da região, como o pinhão, o sol surgindo entre as montanhas e a araucária.
O artesão Tom Rainer, 40 anos, conta que cada peça carrega um exemplar original da história de Delfim Moreira. “Da cultura local e de uma identidade única que o povo mineiro possui. É um trabalho que reflete tradições passadas de geração em geração, feito pelas mãos de pessoas que realmente amam o que fazem”.
Rainer faz crochê, e desde 2025, é um associado da Academ. “Esse é um espaço onde consigo desenvolver e mostrar meu trabalho, expandir minha rede de contatos e conhecer pessoas novas e incríveis, de diferentes gerações, histórias e posições. Apesar das diferenças, todos compartilham algo muito forte em comum: o amor pelo artesanato”.
Um dos principais obstáculos para esses profissionais é a baixa visibilidade fora da região, ressalta Andressa. “Muitos artesãos são reconhecidos apenas localmente, o que dificulta alcançar novos públicos em outras cidades, estados ou até no meio digital. Sem divulgação adequada, seus produtos acabam não sendo conhecidos por potenciais clientes”.
“Outro desafio importante é a necessidade de profissionalização, especialmente nas áreas de gestão e marketing. Além disso, há as dificuldades de acesso a canais de venda maiores, como lojas especializadas, feiras nacionais, marketplaces e exportação. Entrar nesses espaços geralmente exige padronização, escala de produção, documentação e estratégias comerciais que nem sempre estão ao alcance dos pequenos produtores. Nesse contexto, o apoio de instituições como o Sebrae é fundamental”, finaliza.