
Quase dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, o quadrinista e professor João Marcos Mendonça lança uma das obras mais sensíveis sobre o desastre: Doce Amargo, publicado pela Editora Nemo. O livro mistura memória pessoal e testemunho coletivo para narrar as consequências humanas e emocionais do colapso que mudou a vida de milhares de pessoas.
Morador de Governador Valadares, cidade que ficou sem água por vários dias após o rompimento, João Marcos viveu a tragédia de perto. Ele conta que transformar essa vivência em quadrinhos foi, ao mesmo tempo, um processo de cura e de resistência. “Um amigo me disse que eu devia ter colocado para fora o que estava entalado, e foi exatamente isso. Contar essa história foi uma forma de compartilhar o que passamos e seguimos vivenciando até hoje. A vida da gente mudou significativamente, com muitas incertezas e dúvidas”, relembra.
O autor começou a registrar o cotidiano da família logo após o desastre. “Fui fazendo uma espécie de diário, já pensando como roteiro de quadrinhos, documentando o que estava acontecendo. Quis mostrar as situações pequenas do dia a dia, as conversas com vizinhos, os gestos de solidariedade e o desespero das filas por água”, explica.
Sobre o impacto da tragédia, Mendonça afirma que a relação com o Rio Doce mudou para sempre. “Aprendi que o rio é muito mais do que uma fonte de abastecimento. Ele tem uma ligação cultural e espiritual com quem vive às margens. Hoje, o ambiente ainda é de muita dúvida. A propaganda oficial fala em recuperação, mas quem vive aqui sabe que a realidade é outra”.
A artista Marianne Gusmão assina as cores da HQ. Segundo o autor, teve papel essencial na narrativa. “Ela conseguiu dar o tom emocional que a história pede, usando a cor da lama, avermelhada, quase fluorescente, para pontuar os momentos de tensão. Eu sempre digo que o livro tem dois personagens principais: o Rio Doce e as cores”.
Para o quadrinista, Doce Amargo também tem um papel educativo. “Os quadrinhos são uma ferramenta poderosa para tratar temas complexos. O livro pode ser usado nas escolas para refletir sobre meio ambiente, memória e sustentabilidade. Ele fala do passado, mas também aponta para o futuro e para o tipo de mundo que queremos construir”.
Ele conta que a recepção do público tem sido marcada por emoção e empatia. “As pessoas me dizem que não tinham dimensão do que aconteceu. Muitos se comovem com o sofrimento humano por trás dos números e das indenizações. Ninguém sai ileso de uma tragédia como essa”.
“Equilibrar o relato pessoal e o coletivo foi um desafio. Tive o cuidado de não expor demais minha família, mas quis mostrar as consequências reais da tragédia. Há cenas banais, como o banho com uma caneca de água ou o reaproveitamento do pouco que restava. São detalhes que revelam o quanto o cotidiano foi transformado”, acrescenta.
A arte cumpre uma função essencial na preservação da memória, segundo Mendonça. “O que eu mais quero é que o livro ajude a voltar os olhos para o Rio Doce e para o cuidado que ele merece. O rio foi muito maltratado e a tragédia de Mariana foi, de certa forma, a pá de cal. A arte serve para não deixar isso cair no esquecimento”.
Doce Amargo está disponível nas principais livrarias físicas e plataformas digitais. “Foi um processo emocionalmente intenso, mas necessário. Contar essa história é também um acerto comigo mesmo. A gente precisa lembrar o que viveu para não repetir os mesmos erros”, conclui Mendonça.



