Arbitragem: profissionalização já!

A figura responsável por efetivar a aplicação das regras no futebol é denominada de árbitro. Embora a presença dele seja não apenas necessária como imprescindível à realização de uma partida, o seu ofício é alvo constante de duras críticas, muitas vezes injustas.

O árbitro, quase sempre, é esquecido, injustamente, durante a alegria de uma conquista, sendo colocado em segundo plano, ignorado na dedicação e eficiência de seu trabalho. Contudo, na derrota é ultrajado impiedosamente, não sendo poupado de injúrias.

Assim como política, futebol e religião, o desempenho dos árbitros durante as competições é sempre um tema polêmico e porque não dizer unânime entre os torcedores, dirigentes, jogadores e imprensa esportiva. Já se tornou histórico reclamar das atuações dos “apitadores”, execrá- -los em programas esportivos, bradar com veemência após as partidas, principalmente técnicos e dirigentes nas entrevistas coletivas, quando algum lance polêmico ocorre durante o jogo e interfere diretamente no resultado da partida.

De fato, alguns equívocos cometidos pelos árbitros causam enorme revolta na comunidade esportiva. Os clubes investem milhões na montagem de seus elencos, visto que as competições estão cada vez mais disputadas, e um erro pode comprometer o trabalho realizado ao longo de uma temporada.

A figura do árbitro, como dito alhures, sempre foi e é o centro de críticas e debates que circulam em torno do futebol. É oportuno repisar que o árbitro, embora seja peça indispensável às partidas de futebol, desenvolve atividade que, no Brasil, ainda se caracteriza pelo mais absoluto amadorismo. Enquanto os jogadores se submetem, diariamente, a preparação física, técnica e psicológica, visando a um aperfeiçoamento profissional constante, muitos árbitros treinam individualmente e por conta própria, sem a estrutura necessária para o preparo que se espera de um juiz de fato. Mesmo assim, o nível da arbitragem no Brasil está entre os melhores do mundo.

Ora, não é admissível que todos no futebol sejam profissionais exclusivamente dedicados ao esporte e os árbitros levem a campo preocupações de outra natureza. O que dizer de um árbitro, que além de soprar o apito ou levantar sua bandeirinha, fica sentado em um escritório por 8 horas, durante toda semana ou no consultório médico, odontológico ou dirigindo um táxi ou veículo de aplicativo e, após, exaustiva jornada de trabalho, viaja horas para trabalhar em um jogo de grande importância e que até pode decidir um campeonato?

Árbitros precisam estar em contato permanente com jogos. Assistir suas partidas, dos colegas e de competições internacionais. Precisam observar o que fazem os jogadores, suas características de jogo (quem simula infrações com frequência, aqueles que cometem mais faltas, os mais habilidosos e caçados em campo, os que reclamam com veemência). Precisam se reunir semanalmente, analisando o trabalho de todos e debatendo lances, unificando critérios. Necessitam, sim, dar explicações sobre lances polêmicos e estar mais expostos ao debate público, justificando suas decisões, quando necessário.

A avaliação do trabalho dos árbitros deve ser criteriosa. Não se pode admitir, assim como se faz na imprensa e alguns dirigentes, julgar apenas um lance capital aqui ou ali, e simplesmente exigir que o árbitro vá para a geladeira. É preciso analisar o conjunto da obra. Que fatores de ordem técnica, física e psicológica levaram ao equívoco. Que se estabeleça uma espécie de pontuação para acertos e erros cometidos durante todas as partidas. E, através de mérito, não por politicagem e amizades, árbitros possam receber, de forma justa, suas promoções, e assim, terem a missão de comandar os jogos mais importantes.

Neste contexto, me arrisco a dizer que a arbitragem é a maior vítima da inércia dos gestores esportivos em nosso país, porque enquanto os outros setores do nosso futebol já se profissionalizaram há muito tempo, a arbitragem continua a ser tratada de maneira amadora. O descompasso entre as áreas é cada vez maior, ainda mais se considerarmos a adoção de avanços tecnológicos no futebol, tais como na medicina esportiva, na preparação física, nos estádios e em centros de treinamento.

Entendo que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), federações, clubes de futebol e as entidades de classe dos árbitros devem se unir e se mobilizar para que essa tão sonhada profissionalização ocorra o quanto antes. Porém, enquanto esses segmentos não se sentarem à mesa para resolver os problemas importantes do futebol brasileiro, tudo continuará como está.

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