Apito profissional

A temporada esportiva começou com novidades. O calendário foi espremido ao máximo. Os regionais iniciaram mais cedo e já estão entrando em sua reta final. O Brasileiro da Série A também já deu a largada. Os principais times perderam espaço para uma pré-temporada elaborada, especialmente na parte física. Jogadores voltaram das férias direto para as competições. Algo complicado.

Os treinadores, sem opção, se obrigam a rodar o elenco, tentando reduzir desgastes e contusões. Nem é planejamento, é necessidade. A maratona é longa. São várias competições simultâneas e viagens o tempo todo. Uma loucura total, haja logística. Tem mais jogos do que datas disponíveis. A parada obrigatória para realização da Copa do Mundo será um alívio. Tempo para recuperação dos atletas, acertos nos objetivos e possibilidade de respirar um pouquinho.

No Brasil, os times que conseguem melhores resultados acabam sofrendo mais dentro de campo. Em compensação, a grana que entra no caixa salva a temporada. Temos algumas novidades este ano, além do novo calendário. Uma chama atenção especial: a profissionalização da arbitragem. Uma iniciativa discutida e desejada faz tempo, que agora vira projeto real. Erros de arbitragem são antigos e a cada ano parece que a coisa piora. Todo mundo reclama. Dirigentes, treinadores, jogadores, torcedores e imprensa não aguentam mais. Diversas tentativas já foram feitas e nada.

Nem a introdução do VAR resolveu o problema. Pelo contrário, piorou. A CBF aumentou a equipe de arbitragem. Antes eram três, mas de uns tempos para cá virou uma equipe enorme, dentro do gramado e fora dele. Nada funciona. Erros de todos os tipos se acumulam, causando perda de credibilidade, tempo e paciência geral. Cansada de levar pancadas, a nova administração da CBF partiu para o tudo ou nada. Está profissionalizando a turma da arbitragem.

A primeira etapa vai atingir a Série A, a mais importante. 72 profissionais foram selecionados (20 árbitros, 40 auxiliares e 12 para o VAR). Os escolhidos pertencem aos quadros da CBF e Fifa, obedecendo aos seguintes critérios: os mais escalados na Série A em 2024 e 2025, os que obtiveram melhores médias na avaliação geral. Os contratados se obrigam à dedicação integral ao ofício. Haverá treinamento físico, capacitação técnica, cuidados com a saúde e até psicólogos. A remuneração será fixa, de acordo com a função, podendo chegar a R$ 30 mil mensais, mais bônus. Além do custeio com transporte, hospedagem, alimentação, entre outros. Todos terão seus direitos trabalhistas conforme determina a lei. A avaliação do trabalho de cada um será permanente. Quem não atingir o mínimo necessário será dispensado.

A CBF pretende investir R$ 195 milhões no projeto até 2027. Aos poucos pretende estender a ação de profissionalização da arbitragem para todas as competições nacionais. O projeto é excelente, baseado em estudos feitos nas confederações da Alemanha, Inglaterra, Espanha, México e consultoria de dezenas de especialistas.

Penso que faltou ao projeto apenas um quesito importante de criação de palestras, cursos, seminários para os jogadores, comissões técnicas, dirigentes e imprensa, para orientar sobre regras e protocolos, assim como uma boa campanha explicativa para os torcedores. Não basta só profissionalizar a turma da arbitragem. O ciclo precisa ser completo.

A falta de conhecimento, orientação e educação vem prejudicando demais os espetáculos do futebol. Infelizmente, nossos estádios estão deixando de ser um palco para divertimento, encontro de familiares e amigos, e se transformando em uma praça de horrores.

No rastro de tantas mudanças, a CBF prepara também a introdução da tecnologia do impedimento semiautomático. A ideia é acabar com a terrível situação para saber se determinado jogador estava ou não impedido ao fazer um gol de forma rápida e segura.

A entidade investe R$ 25 milhões para implantação da ferramenta. Os estádios estão sendo vistoriados e adaptados para que possam receber a novidade. Vamos torcer e apoiar para que todas estas novidades alcancem pleno sucesso. O futebol movimenta montanhas de dinheiro. Os torcedores compram ingressos, produtos diversos, comes e bebes. Tudo com preços salgados. Em troca recebem muito pouco ou às vezes quase nada.

Passou do momento de tratar o público como cliente VIP e com total respeito. O profissionalismo da arbitragem é muito importante, mas é só um quesito da enorme engrenagem do mundo do futebol.

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