Desde criancinha de calças curtas, indo aos jogos no velho campo do Sete com meus parentes, sempre gostei de observar o trabalho dos árbitros. Naquele tempo, eles eram mais gordinhos e usavam uniforme preto. Com apenas dois ajudantes, davam conta do recado e sem moleza. Entravam em campo sob vaias, xingados com palavrões impublicáveis em alto e bom som. Foi neste ambiente que aprendi bons impropérios. Os árbitros daquela época tinham coragem, encaravam os atletas, treinadores e dirigentes com bravura. Apitavam e assumiam a marcação no peito e na marra. Verdade que às vezes saíam do estádio correndo ou no carro da polícia.
O tempo passou, o futebol evoluiu e novos protocolos foram criados para tentar amenizar o trabalho dos famosos sopradores de apito. Colocaram mais auxiliares em campo, surgiu o quarto árbitro com a função de cuidar das substituições, controlar o relógio e, quando necessário, substituir o titular.
Melhorou um pouquinho, mas os problemas continuaram. Resolveram colocar mais dois auxiliares, um atrás de cada gol. O objetivo era ficar de olho bem aberto e conferir se a bola ultrapassou ou não a linha do gol ou da saída do campo, além dos empurrões e outras agressões dentro da área. Não funcionou bem, porque os tais dedos-duros foram alvos da ira dos torcedores e até mesmo da imprensa. O projeto morreu no nascedouro e foi uma iniciativa infeliz.
Descobriram que a utilização de rádios comunicadores poderia ser uma boa solução. A nova ferramenta passou a ser utilizada. Árbitro e auxiliares se comunicavam durante o jogo para acertar decisões. Dizem que até gente de fora também participava, soprando coisas nos ouvidos dos apitadores. Até hoje essa tecnologia é usada, mas com equipamentos melhores e mais potentes.
No final dos anos 1990, segundo o jornal esportivo Marca, o espanhol Francisco Lopes, que nem árbitro era, desenvolveu o projeto do árbitro de vídeo. Daí nasceu o conhecido VAR ou Árbitro Assistente de Vídeo em nossa língua.
No Brasil, a novidade estreou em 2017 e aos poucos foi sendo implementada nas principais competições oficiais. Utiliza um árbitro de vídeo, três assistentes e um observador. Com várias câmeras, pegando todos os ângulos e um complexo sistema de linhas, gráficos, medidores e outros recursos, o VAR tenta ser o olho eletrônico definitivo para dirimir dúvidas que o árbitro de campo possa ter.
Gols, pênaltis, expulsões e identidades equivocadas precisam de auxílio do olho do VAR, ainda que o árbitro principal seja o único que pode consultar e solicitar alguma revisão. Lembrando sempre que a definição final da marcação tem que ser sempre do apitador principal.
Infelizmente, não é. Temos acompanhado na maioria dos jogos a transferência de responsabilidade. Dificilmente o árbitro assume o que marca ou não marca e empurra o problema para o VAR. Começa um jogo de empurra danado. A partida fica parada por um bom tempo. Os caras ficam discutindo se foi ou não foi, jogadores formam bolinhos para pressionar e todo mundo palpita. O soprador de apito fica com cara de bobo, andando para lá e para cá, tentando ouvir quais são as orientações. Depois de longo e tenebroso tempo perdido, vem alguma decisão, muitas vezes errada.
O que era para ser um recurso inteligente, moderno e rápido vem se transformando em um sofrimento, um circo dentro de campo. Total falta de respeito com o público que paga pelo ingresso caro para ver bola rolando e não para acompanhar reunião de arbitragem.
Os árbitros atuais usam uniformes coloridos, cabelos cortados na régua ou raspados, instrumentos importados e só. Recebem boas diárias e cachês, mas não conseguem entregar o básico da profissão: atuar conforme determina as regras do jogo. Preferem falar em interpretação, intenção e outros termos na tentativa de fugir da responsabilidade e tocar o problema para frente. Difícil saber se é falta de qualificação ou medo de perder lugar ou promoção.
Sei não, do jeito que a coisa caminha, penso que o árbitro, seus auxiliares e turma do VAR, em breve serão eliminados do futebol. No lugar, vão encher jogadores e bolas com chips e colocar um robô para comandar o espetáculo. Tudo com base na inteligência artificial. Quando isso acontecer, o mais chato será não ter para quem gritar palavrões. A não ser que inventem nomes bem feios em linguagem de robótica.



