Acordo comercial entre Mercosul-UE pode injetar R$ 37 bilhões no PIB

Foto: União Europeia/Mercosul

Após mais de 25 anos sendo negociado, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), que foi assinado em janeiro, pode injetar até R$ 37 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil até 2044, segundo previsões do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O tratado prevê a eliminação ou redução gradual de tarifas, o Mercosul vai zerar a cobrança sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos e a UE vai eliminá-la sobre 95% dos produtos do bloco sul-americano em até 12 anos.

De acordo com uma estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil será o maior beneficiado pelo acordo e prevê um crescimento de 1,49% nos investimentos no país. Já a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima que o tratado pode gerar um aumento de cerca de US$ 7 bilhões nas exportações. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentou um levantamento apontando que, quando entrar em vigor, vai aumentar de 8% para 36% o acesso brasileiro ao mercado de importações mundiais de bens.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, ressalta que a formalização da parceria ocorre em um momento estratégico para o país. “O acordo é a decisão comercial mais importante para a indústria brasileira em décadas. Ele garante acesso imediato ao mercado europeu, assegura tempo de adaptação para a indústria nacional e reposiciona o Brasil em um contexto de diversificação de parceiros, criando também um incentivo para avançar na agenda de competitividade estrutural”.

Para o mestre em economia, Heldo Siqueira, há um benefício marginal de eliminar as tarifas de produtos que o Brasil exporta, como itens vinculados à alimentação e outras mercadorias do agronegócio. “A UE já é o segundo parceiro comercial do país. Ou seja, os produtos brasileiros deste segmento já têm mercado na Europa, de maneira que o ganho tende a ser marginal naquelas nações que mantém tarifas elevadas”.

“As estimativas do MDIC são modestas, ao considerar efeitos de 0,34% do PIB, com impacto de 2,65% nas exportações e 2,46% nas importações até 2044. Neste sentido, parece ser um ganho mais diplomático que econômico, uma vez que se trata de um esforço grande de integração para pouco impacto na renda, ao longo prazo”, observa.

Os produtos industriais europeus são bastante competitivos, destaca Siqueira. “Assim, sem a proteção das tarifas, os produtos europeus podem entrar no país, competindo com os da indústria nacional, sobretudo a automobilística. Os produtores brasileiros de automóveis incluem várias marcas europeias, neste sentido, pode ser que valha a pena trazer o veículo diretamente da Europa do que produzi-lo no Brasil”.

O economista acredita que acordos comerciais podem ser vantajosos. “Mas, nenhum tratado substituirá o investimento em tecnologia e a melhoria da infraestrutura. Essa é a verdadeira fonte de competitividade, e são essas as políticas que fortalecerão a economia brasileira, com ou sem alianças com qualquer que seja o parceiro comercial”.

Setores beneficiados

Os principais setores beneficiados com o tratado são o agronegócio e exportadores tradicionais, destacadamente, carnes, grãos e derivados, incluindo os itens processados. “Além da indústria de transformação, como máquinas, equipamentos e bens de capital. Também há previsão para melhorar a condição de exportação de micro, pequenas e médias empresas”, pontua o especialista.

Porém, Siqueira acrescenta que os empregos serão gerados na medida em que haja o aumento das exportações, naquelas atividades em que este fato ocorra. “Outros postos de trabalho podem ser gerados na adequação da produção brasileira às regras europeias, mas acredito que este seja um volume bastante reduzido”.

“A diminuição de tarifas em um novo mercado sempre abre a possibilidade da constituição de empresas para concorrer e diversificar a pauta exportadora. Entretanto, as instituições que concorrem em mercados de produtos de maior valor agregado são muito competitivas. Neste sentido, apesar de a possibilidade existir, vai ser difícil que novas organizações brasileiras possam concorrer com as europeias que já dominam o mercado”, finaliza.

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