A democracia usurpada, como a brasileira, está permanentemente em crise, erosão e fragilização de seu sistema. Somos uma República Federativa, teoricamente com três poderes independentes, porém, com suas fronteiras invadidas por eles mesmos, em razão das interações inoportunas e inconsequentes. O Executivo, Legislativo e Judiciário independentes, autônomos, são uma ótima forma de exercer a democracia, com transparência de seus atos e legitimidade de suas funções. Deveriam agir em defesa da causa maior, a soberania do país, seu desenvolvimento e bem-estar de seu povo. Porém, em razão da improbidade de seus membros, nas três esferas do poder, têm o manifesto desejo de mudar a forma de governo, com o claro intuito de destruir suas instituições, não permitir que o regime flexione e se proteja contra ataques autoritários, sem transparência e decisões tomadas ao sabor de seus interesses. Registra-se que são interesses de ideologia ultrapassada, favorecimento de organizações criminosas ou corrupção deslavada, agressões à nação e seu povo, praticada por quem deveria ser seus guardiões.
Um pluripartidarismo de conveniências, baseado em princípios nefastos e sem representatividade, nas mãos de profissionais do caos político, na maioria das vezes corruptos, a vender apoios e coligações, a quem pagar mais ou oferecer aos seus dirigentes melhores vantagens ou cargos no poder. A grave infecção deste comportamento está instalada na democracia usurpada. Nosso Congresso Nacional, com muitos de seus integrantes processados, condenados ou presos, retrato igual das Assembleias Legislativas ou Câmaras Municipais, têm provocado náuseas aos eleitores, desconsolo aos cidadãos de bem, vergonha à sociedade. Há uma corrupção inaceitável instalada nestas Casas, especialmente nas chamadas emendas parlamentares, quando o dinheiro é destinado a causas muitas vezes legítimas, porém, surrupiado pelos seus autores ao longo do processo de transferência. Não existe mais credibilidade em seus membros.
No Executivo, federal, estadual ou municipal, onde o poder também nos envergonha, falar de falcatruas, roubos, corrupção, crime organizado e mutretas é repetir o que estamos cansados de ver, a imprensa a registrar todos os dias, CPIs serem instaladas, crimes serem apurados, confessos, e continuarmos a ver acontecer como se fizesse parte de nossas vidas. Nenhuma punição. Perdemos a capacidade de reagir, de nos indignar, e o pior, ouvir cidadãos a afirmarem: “Se eu estivesse lá faria o mesmo”. É a perda do caráter, da honra, dignidade e admitir que Macunaíma vive e está entre nós. Infelizmente, somos uma sociedade doente, incapaz de mudarmos um sistema que padece dos efeitos colaterais de seus representados. Foro especial passou a ser sinônimo de permissividade, impunidade ao crime, desleixo e improbidade.
Resta o Judiciário, em todas as suas instâncias, aquele onde repousa a esperança, o equilíbrio e justa aplicação das leis, onde homens e suas togas dariam à nação e ao seu povo a tranquilidade de vida democrática, onde todos os brasileiros seriam iguais, submetidos ao rigor e responsabilidade de seus atos, louvados pelo bem que praticam e condenados pelo mal que causam. Oh, doce ilusão. “Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate”. “Abandonai toda esperança, vós que entrais”, diz Dante Alighieri, na Divina Comédia, no portal do inferno. Portal e hoje, bandeira símbolo de uma nação, chamada Brasil. O que dizer de seus julgamentos? Dizer o que de seus processos sigilosos, penduricalhos, juízes envolvidos com o crime organizado, venda de decisões, sociedades secretas de seus membros? Com certeza a Justiça ficou cega, surda e muda.
Está pronto o roteiro do próximo filme brasileiro para concorrer ao Oscar, com grandes chances de ganhar. Qualquer semelhança com os fatos não é mera coincidência. O incentivo da Lei Rouanet está garantido, de preferência com um diretor e ator da esquerda.