986 mil jovens podem não ingressar na graduação por causa de gastos com bets

41% adiaram a entrada no curso superior na região Sudeste | Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e pela Educa Insights indica que dos quase 2,9 milhões de potenciais ingressantes na educação superior privada, aproximadamente 986 mil estão sob risco de não efetivar a matrícula no primeiro semestre de 2026, por conta do comprometimento financeiro com apostas on-line.

No mesmo período, em 2025, 34% dos entrevistados afirmaram que precisaram interromper as apostas para iniciar os estudos; esse número cai para 24% quando se considera o segundo semestre. Em um recorte regional, o Nordeste e o Sudeste são as regiões com a maior proporção de brasileiros que associam o adiamento da graduação à prática de apostas on-line. No primeiro semestre, os percentuais foram 44% e 41%, respectivamente. E no segundo, os índices foram de 32% e 27%.

A pesquisa revela ainda que, entre os apostadores que já estão no ensino superior, 14% deles atrasaram a mensalidade ou trancaram o curso devido aos gastos em casas de apostas. O estudo mostra também que, em abril de 2025, entre os entrevistados impactados pelos prejuízos causados pelas perdas em apostas, 20,9% já deixaram de investir em algum curso, idiomas ou outro aprendizado.

Na avaliação do diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, os dados mostram que as apostas on-line se tornaram um obstáculo adicional para o acesso à educação superior no Brasil. “Precisamos olhar com seriedade para esse cenário e desenvolver políticas públicas que conscientizem os jovens sobre as responsabilidades envolvidas com a prática de apostar”.

A presidente da Comissão de Direito Digital da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/MG), Daniella Avelar, salienta que o brasileiro, de uma forma geral, não possui educação financeira. “Assim, enquanto o jovem deposita o seu dinheiro em apostas e assume dívidas, acaba deixando de investir em cursos e capacitações educacionais”.

Segundo Daniella, a falta de investimento na educação pode ter vários impactos. “Inclusive na segurança, na vida, na economia, na construção da cidadania e principalmente na democracia. Existem algumas ações do poder público para tentar controlar essa situação, mas não é o suficiente. Precisamos de medidas mais efetivas e que verdadeiramente alcance as pessoas mais vulneráveis”.

Possíveis soluções

A presidente ressalta que é preciso mais fiscalização. “A regra já existe e menores de idade não podem apostar. Ou seja, é necessária uma equipe especializada para filtrar esses acessos e seguir a lei. Caso não seja cumprida, deve ser aplicada multa diante da plataforma”.

“Investir em educação digital para toda a sociedade, inclusive as mais vulneráveis; tornar obrigatório que as plataformas de jogos passem vídeos de conscientização dos usuários sobre os riscos das apostas; e ser mais severo na aplicação de multa, em caso de descumprimento”, são algumas medidas que a advogada aponta como possíveis soluções.

Ela finaliza dizendo que essa construção de uma sociedade mais consciente é dever de todos, passando pelo setor privado e também público. “Os jogos de apostas são uma realidade e é preciso ser trabalhado para que a sociedade tenha mais segurança e transparência ao utilizá-los”.

Jovens apostadores

De acordo com a pesquisa, 52% dos entrevistados apostam regularmente, sendo a frequência predominante de uma a três vezes por semana. Os valores investidos variam conforme a classe social: os apostadores da classe A destinam, em média, R$ 1.210 mensais, os das classes D e E, o valor médio é de R$ 421. Ainda que a maioria, cerca de 80%, afirme comprometer até 5% da renda mensal, cresceu o número de pessoas, especialmente entre os mais pobres, que ultrapassam a marca de 10% do orçamento com essa prática.

Comparando os dados com 2024, houve um agravamento da situação. O percentual de jovens que apostam regularmente subiu de 42,9% para 52%, e aqueles que dizem comprometer parte da renda com as bets passou de 51,6% para 54,2%. Além disso, houve um salto de 11,4 pontos percentuais na quantidade de pessoas que deixaram de iniciar uma graduação por causa dos gastos com bets.

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