
Entre janeiro e julho deste ano, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) recolheu 841 toneladas de resíduos da Lagoa da Pampulha. O levantamento, feito pela Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smobi), abrange a limpeza do espelho d’água, além de serviços de roçagem, conservação do gramado na orla e manutenção das pistas destinadas a ciclistas e pedestres. Em períodos de estiagem, a quantidade de lixo flutuante na Lagoa da Pampulha costuma girar em torno de cinco toneladas diárias, podendo chegar a até dez toneladas nos meses de chuva. Somente entre janeiro e abril, cerca de 597 toneladas foram removidas do local.
A quantidade de lixo recolhida é sintoma de um problema crônico que vai além da coleta de resíduos visíveis. O mau cheiro característico em determinados pontos da lagoa, especialmente durante os meses mais quentes, e o aspecto turvo da água denunciam a poluição orgânica e química acumulada ao longo das décadas, agravada por ligações clandestinas de esgoto e o escoamento de resíduos urbanos que chegam pelos afluentes da bacia da Pampulha.
Para o engenheiro ambiental Marcelo Dutra, os números de resíduos retirados são alarmantes e indicam que o esforço atual é apenas paliativo. “A limpeza manual e mecânica da superfície é importante, sim, mas não resolve o cerne da questão. O que estamos vendo é um trabalho de contenção, que retira o lixo visível, mas o problema principal está no fundo da lagoa e nos córregos que a alimentam, que continuam trazendo esgoto e lixo”.
A aplicação de oxigênio nas águas da Lagoa da Pampulha surge como uma possível alternativa para recuperar a qualidade ambiental. O método foi debatido recentemente na Câmara Municipal, e já foi adotado em iniciativas de despoluição do Rio Pinheiros, em São Paulo, e do Córrego Joana, no Rio de Janeiro. Moradores da região demonstram otimismo com a possibilidade de melhorias, mas especialistas alertam que, sem o fim do despejo de esgoto na lagoa, os resultados serão limitados.
Dutra ressalta que a recuperação plena da Lagoa demanda ações integradas e de longo prazo. “A primeira etapa crucial seria a despoluição dos afluentes, como os córregos Ressaca e Sarandi, principais responsáveis pela carga de poluição que chega à lagoa. É preciso investir em interceptores de esgoto mais eficientes, ampliar a fiscalização das ligações irregulares e, principalmente, promover educação ambiental junto à população. A lagoa reflete o que acontece no entorno. Se o bairro joga lixo na rua, ele vai parar ali”.
Além disso, a drenagem urbana inadequada e o excesso de sedimentos que chegam à Pampulha também impactam diretamente na qualidade da água. Com o passar do tempo, esses sedimentos se acumulam no fundo da lagoa, contribuindo para o assoreamento e criando condições ideais para a proliferação de algas, que, por sua vez, intensificam o mau cheiro.
De acordo com a bióloga Carla Nunes, uma das estratégias mais promissoras para o médio prazo seria o uso de biorremediação, técnica que utiliza organismos vivos, como bactérias e plantas aquáticas, para degradar a matéria orgânica e reduzir os poluentes na água. “Esse tipo de intervenção pode ajudar a melhorar a qualidade da água de forma sustentável, especialmente se for combinado com dragagem dos pontos mais críticos de assoreamento”.
Ela também destaca a importância de zonas de amortecimento ecológico, como faixas verdes ao redor da lagoa, que ajudam a filtrar a água das chuvas antes que ela entre diretamente na bacia. “Plantas nativas podem atuar como filtros naturais. Além disso, promovem a biodiversidade e ajudam na estética do local, tornando a lagoa mais atrativa”.
É preciso um plano de recuperação ambiental sólido, com metas claras e envolvimento de toda a cidade para garantir que a lagoa não seja apenas um retrato bonito escondendo águas poluídas.



