
As empresas brasileiras estão com dificuldade em contratar ou reter colaboradores. Para 62,3% das instituições, essa era uma realidade presente ao final de 2025, 3,6 pontos percentuais acima do resultado de 2024, é o que aponta uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre).
No ano passado, o setor com maior dificuldade foi a construção civil, com 69,1% das empresas relatando problemas em contratar. Todos os principais segmentos registraram piora na passagem de 2024 para 2025, exceto a indústria de transformação, que reduziu o percentual de 60,2% para 52,3%.
De acordo com o estudo, a principal estratégia que as empresas vêm adotando para superar essa dificuldade é o investimento em capacitação interna (43,4%). Logo depois aparecem oferecer mais benefícios (36,2%) e mudar processos para reduzir a dependência de mão de obra (24,9%). Já os impactos causados por esse problema são o aumento de carga horária (25,5%) e as mudanças de preço de bens/serviços (20,7%).
O coordenador das Sondagens Empresariais e de Indicadores de Mercado de Trabalho da Superintendência Adjunta para Ciclos Econômicos (FGV Ibre), Rodolpho Tobler, explica que a construção e o comércio são atividades que em geral registram maior nível de rotatividade de mão de obra. “O que torna a aquisição desse capital humano ainda mais complexa. O resultado da pesquisa sugere que o perfil buscado pelas empresas não necessariamente se refere a uma superqualificação. Muitas vezes, a necessidade do negócio está relacionada a algum tipo de treinamento específico”.
O mestre em economia, Ricardo Paixão, afirma que existem vários fatores para explicar esses números. “O Brasil entrou no cenário em que o mercado de trabalho ficou mais enxuto, a taxa de desemprego reduziu bastante, nível mais baixo da série histórica, e isso causa menos oferta de colaboradores”.
“Em vários setores existia muita oferta de trabalhadores para as vagas, e com o passar do tempo, até mesmo com a precarização do trabalho, com o surgimento dos aplicativos, as pessoas não querem se submeter a uma qualidade precária de serviço, salário baixo, jornada de trabalho exaustiva, ou a um setor que tenha muita rotatividade. O indivíduo prefere fazer seu próprio horário, ganhando um pouco mais nos aplicativos e sem direitos trabalhistas, criando um cenário totalmente diferente de antigamente”, pontua.
Paixão acredita ainda que existe um risco da falta de trabalhadores se tornar um entrave mais sério ao crescimento econômico. “Principalmente, se o índice de desemprego continuar reduzindo, e se a economia entrar nesse ritmo de retomada dos investimentos em setores que necessitam demais de força de trabalho. A tendência é continuar tendo essa falta em 2026 e podendo chegar à anos posteriores. Esse ciclo todo que se forma faz com que projetos atrasem custos, produtividade cai e existe uma pressão salarial localizada que, quando tem escassez de trabalhadores, faz os salários médio aumentarem”.
85 mil postos de trabalho
Segundo dados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, o país gerou 85.864 postos de trabalho no mês de novembro, resultado de 1.979.902 admissões e 1.894.038 desligamentos. No acumulado dos últimos 12 meses (dezembro de 2024 a novembro de 2025) o saldo é de 1.339.878, menor que o saldo observado no período de 2023 a 2024 (1.781.293).
Apenas dois dos cinco grandes grupos de atividades econômicas registraram saldos positivos: Comércio (78.249) e Serviços (75.131). Registraram saldos negativos a Agropecuária (-16.566), a Construção (-23.804); e a Indústria (-27.135). Em novembro, foram registrados saldos positivos em 20 Unidades Federativas, com maiores saldos absolutos em São Paulo (31.104), Rio de Janeiro (19.961) e Pernambuco (8.996). Minas Gerais aparece entre os menores saldos: -8.740 postos (-0,1%).
Para Paixão, o mercado de trabalho brasileiro vive um “descasamento” entre oferta e demanda. “Temos sinais que algumas competências e condições desejadas não se encontram com rapidez. O mercado pode gerar vagas líquidas e ao mesmo tempo enfrentar escassez em ocupações específicas, especialmente com desemprego baixo, com mudanças tecnológicas e organizacionais, que elevam a demanda de certas habilidades”.



