
Uma nova pesquisa realizada pelo Ipsos-Ipec/O Globo aponta que 32,4% dos brasileiros não demonstram interesse pela seleção brasileira de futebol. O levantamento, feito entre os dias 5 e 9 de junho de 2025, ouviu 2 mil pessoas em 132 cidades do país. Os participantes foram convidados a avaliar seu nível de entusiasmo pela seleção em uma escala de 0 a 10. Apenas 15,9% atribuíram notas elevadas (9 ou 10), enquanto 48,5% deram notas baixas (entre 0 e 4). A nota 0 foi a mais frequentemente escolhida.
O estudo revelou que os maiores entusiastas da seleção brasileira são, em sua maioria, homens jovens, com baixa escolaridade, moradores de cidades pequenas do interior, principalmente nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, e com renda de até um salário mínimo. Entre as mulheres, 14,1% se consideram fãs fervorosas da seleção, número inferior ao dos homens, que alcançou 17,7%. A pesquisa ainda indicou que 33,3% dos participantes deram notas 9 ou 10 quando avaliados em relação ao seu nível de paixão pelos clubes de futebol.
Os resultados mostram uma tendência de desinteresse crescente, que já vinha sendo observada em Copas anteriores, mas agora se consolida com mais força. Para a socióloga Mariana Tavares, o Brasil, conhecido historicamente como “o país do futebol”, parece estar se distanciando emocionalmente da seleção que por décadas foi motivo de orgulho nacional. “O fenômeno levanta uma série de questionamentos sobre os motivos desse afastamento e sobre o que poderia ser feito para resgatar o vínculo entre a população e a seleção”.
Na avaliação da socióloga, o desinteresse é reflexo de um desgaste emocional acumulado. “A seleção brasileira deixou de representar o povo de forma autêntica. Muitos torcedores não se veem mais refletidos na postura, nos discursos e até no estilo de jogo do time. A elitização do futebol, a perda de identidade e a sensação de distanciamento entre os jogadores e o torcedor comum contribuem diretamente para essa crise de afeto”.
Além da falta de identificação, há também um cansaço com os resultados recentes. Desde a vitória na Copa América de 2019, o Brasil acumula eliminações frustrantes em Copas do Mundo e torneios continentais. A derrota para a Croácia nas quartas de final da Copa de 2022, somada à ausência de títulos expressivos em anos seguintes, abalou ainda mais a confiança do torcedor. “Quando a seleção não entrega resultados nem oferece um futebol bonito de se ver, é natural que o encantamento do público vá diminuindo”, analisa o antropólogo do esporte, Rafael Muniz.
Outro fator relevante é a concorrência direta com os clubes, a pesquisa revelou um percentual mais alto que o de fanatismo pela seleção. Para Muniz isso reflete uma mudança no eixo emocional do torcedor. “Com a globalização e o fortalecimento das ligas nacionais e internacionais, os clubes passaram a ocupar um espaço muito maior na vida do torcedor. As pessoas acompanham seus times com frequência semanal, se identificam com os jogadores, vivem o cotidiano do clube. Já a seleção aparece de forma pontual, desconectada dessa rotina”.
Mas há caminhos possíveis para resgatar a paixão do torcedor. Para os especialistas, a solução passa por uma série de mudanças, tanto dentro quanto fora de campo. Uma delas é o fortalecimento da identidade cultural da seleção. “É fundamental que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pare de tratar a seleção como uma marca internacional e passe a enxergá-la como patrimônio do povo brasileiro. Investir em projetos de base, promover a diversidade regional e escutar o torcedor são passos essenciais para reconstruir essa ponte”, defende Mariana.
Outro ponto seria uma maior transparência e profissionalismo na gestão do futebol brasileiro. “Escândalos envolvendo dirigentes da CBF, decisões controversas na convocação de jogadores e a sensação de que há interesses comerciais por trás de muitas escolhas minam a confiança do torcedor. As pessoas querem acreditar que a seleção representa o melhor que temos, não um jogo de interesses”, diz Muniz.
Por fim, o retorno a um futebol mais ofensivo e criativo, com mais “ginga”, também é visto como uma forma de reconquistar o público. “O brasileiro sente saudade do futebol arte, do improviso, da alegria em campo, resgatar isso pode ser um primeiro passo para reacender o amor pela seleção”, conclui.



