
O sedentarismo é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos maiores problemas da sociedade moderna. A inatividade física está ligada à morte de aproximadamente cinco milhões de pessoas por ano em todo o mundo, conforme estimativas da instituição. Cerca de um terço da população adulta global não pratica atividades físicas regularmente.
No Brasil, o cenário é ainda mais preocupante: o país lidera o ranking de sedentarismo na América Latina e ocupa a quinta colocação entre os mais sedentários do mundo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 47% dos adultos brasileiros não praticam exercícios físicos, percentual que sobe para 84% entre os jovens. Cerca de 300 mil mortes anuais estão relacionadas à falta de atividade física. Entre as capitais, São Paulo se destaca negativamente como a mais sedentária do país.
Os dados acendem um alerta para os impactos devastadores que a inatividade física pode causar não apenas ao corpo, mas também à mente. O sedentarismo está diretamente relacionado ao aumento de casos de obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão, além de quadros de depressão e ansiedade. Em um país com dimensões continentais e desigualdades sociais, os desafios para reverter esse cenário são muitos.
Para o cardiologista Renato Farias, a falta de movimento deve ser tratada com a mesma seriedade que outras epidemias. “Estamos diante de uma verdadeira crise de saúde pública. O sedentarismo mata silenciosamente, por meio de doenças que se desenvolvem ao longo do tempo, como infarto, AVC e insuficiência cardíaca. A maioria dessas condições poderia ser evitada com mudanças simples no estilo de vida”.
A rotina urbana moderna contribui para a propagação do sedentarismo, reforça Farias. “As pessoas passam horas sentadas no trabalho, no transporte e em casa, muitas vezes diante de telas. Essa passividade é prejudicial, e infelizmente se tornou parte da normalidade para muitos brasileiros”.
Farias diz que o corpo humano foi feito para se movimentar. “Ficar longos períodos sentado ou inativo prejudica diretamente o funcionamento de diversos sistemas. Mesmo pessoas que praticam atividade física esporadicamente não estão imunes aos efeitos negativos de um estilo de vida predominantemente sedentário”.
Os impactos físicos são amplos: desde dores musculares crônicas até doenças mais graves. “Além disso, o sedentarismo está associado à perda de massa muscular, aumento da resistência à insulina, o que pode levar ao diabetes tipo 2, e problemas posturais que comprometem a qualidade de vida”, ressalta.
O educador físico, Ricardo Menezes, destaca os efeitos na saúde óssea. “Sem estímulo regular, como caminhadas ou exercícios com peso, os ossos perdem densidade, o que eleva o risco de osteoporose e fraturas, especialmente em idosos. Pequenas mudanças, como levantar-se a cada hora ou caminhar 30 minutos por dia, já fazem diferença. O movimento precisa fazer parte do cotidiano”.
Ele garante que a regularidade é mais importante do que a intensidade no início. “Não adianta fazer exercícios pesados uma vez por semana e ficar os outros dias parado. O importante é criar o hábito, mesmo que com atividades leves. O corpo vai se adaptando aos poucos, e os benefícios logo aparecem”.
Entretanto, o combate ao sedentarismo não depende apenas da vontade individual. Fatores sociais, econômicos e estruturais dificultam o acesso de grande parte da população à prática regular de exercícios. Falta de segurança nas ruas, ausência de espaços públicos adequados, jornadas de trabalho exaustivas e transporte público precário são obstáculos diários enfrentados por milhões de brasileiros.
“Não podemos ignorar que a realidade da maioria das pessoas não favorece a prática de atividades físicas. Políticas públicas que incentivem o uso de bicicletas, a criação de parques, ciclovias e a promoção de programas comunitários de exercícios são fundamentais para mudar esse cenário. A crise do sedentarismo no Brasil não é apenas um problema individual de saúde, mas uma questão coletiva que afeta o sistema público e os custos com tratamento de doenças crônicas”, defende o profissional.



