2,3 milhões de crianças de até três anos estão fora da creche no país

A desigualdade de acesso também aumentou / Foto: Elza Fiúza-Agência Brasil

Quase 2,3 milhões de crianças de até três anos estão fora da creche por dificuldade de acesso, como falta de vagas ou de unidades próximas, segundo revela um estudo do Todos Pela Educação, realizado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e no Censo Escolar. O levantamento mostra também que embora o número de matrículas tenha aumentado entre 2016 e 2024, cresceram as desigualdades de acesso entre as crianças das famílias mais pobres e mais ricas. Para debater o assunto, o Edição do Brasil conversou com a doutora e mestre em Ciências Sociais e docente do Centro Universitário UNA , Naiane Loureiro.

Como a falta de creche impacta o desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida?

A falta de acesso à creche nos primeiros anos de vida pode afetar o desenvolvimento infantil de diversas formas, pois esse período do nascimento aos 6 anos é considerado pela neurociência o mais intenso no que tange ao desenvolvimento cerebral, social e emocional. Em relação ao desenvolvimento socioemocional, impacta a interação social da criança, podendo se estender para outras fases da vida. Em longo prazo, pode gerar efeitos na vida escolar futura dessas crianças e aumento das desigualdades. Por fim, a falta de creches pode gerar impactos indiretos na família, por exemplo, a dificuldade para os pais trabalharem fora e dentro de casa.

Segundo a pesquisa, a desigualdade de atendimento a crianças ricas e pobres aumentou entre 2023 e 2024. Quais motivos podem justificar esse avanço?

Este crescimento pode ter ocorrido por motivos como: infraestrutura insuficiente e/ou má distribuição de creches em algumas cidades, o que pode demonstrar falta de prioridade de políticas públicas voltadas para a educação infantil. Em municípios pequenos, como zonas rurais ou periferias, muitas crianças ficam sem atendimento devido à falta de creches próximas ou em quantidade suficiente.

Quais são os fatores que impedem o acesso das crianças mais pobres às creches?

Os principais são de ordem estrutural, socioeconômica, geográfica e cultural. Estrutural porque nota-se poucas vagas nas áreas mais vulneráveis. Socioeconômicas, pois mesmo quando a creche é gratuita, o transporte, alimentação complementar ou material escolar podem pesar no orçamento familiar. Geográfica porque a creche mais próxima muitas vezes fica a vários quilômetros de casa. E cultural, por exemplo, a baixa escolaridade dos pais pode reduzir a valorização da educação infantil formal.

O que o poder público pode fazer para reduzir a fila de espera por vagas?

Ampliar a oferta de vagas de forma planejada e regionalizada; oferecer apoio técnico e financeiro para municípios menores, que têm dificuldade para bancar novas creches; investir na construção e manutenção dessas instituições, priorizando regiões com maior déficit educacional nessa faixa etária e vulnerabilidade social; incentivar creches comunitárias e parcerias com organizações sociais para ampliar vagas; entre outras possibilidades.

Minas Gerais tem a maior fila de espera por vaga em creches, com 247 mil crianças em 2024. O que leva o Estado a ser o destaque negativo do país?

Minas possui uma complexidade territorial, muitas cidades pequenas e regiões rurais, onde a oferta é mais escassa e o acesso mais difícil, o que contribui para as filas nessas localidades. Vale lembrar também que, historicamente, a educação infantil enfrenta desafios para ganhar prioridade orçamentária suficiente diante de outras demandas estaduais e municipais.

Em sua análise, o que podemos esperar das políticas de educação infantil para os próximos anos?

Em agosto de 2025 foi lançada a Política Nacional Integrada da Primeira Infância, que visa garantir a proteção, o desenvolvimento integral e os direitos das crianças de zero a seis anos. Espera-se que com o desenvolvimento desta iniciativa ocorra uma expansão de vagas e melhoria da infraestrutura. Contudo, existem muitos desafios na implementação e necessidade de monitoramento, além de muitas tendências pedagógicas emergentes contemporâneas. Para isso, será necessário investir em educação continuada dos docentes, especialmente da educação infantil.

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