
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) analisou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 e revelou a gravidade da violência contra idosos no Brasil. Cerca de 10% deles relatam ter sofrido algum tipo de agressão. Entre os tipos, a psicológica foi a mais recorrente (9,63%), seguida pela física (1,56%). Os fatores mais associados à violência foram: idade entre 60 e 69 anos, viver em áreas urbanas, sintomas depressivos e presença de múltiplas doenças.
A ausência de parceiro íntimo se mostrou um fator de risco para a violência entre idosas, diferindo do perfil de mulheres mais jovens. A taxa de violência entre mulheres em áreas urbanas chegou a 11,55%, frente a 7,63% nas zonas rurais. Entre os homens, essa diferença foi menor: 9,07% nas cidades e 7% no campo, indicando maior vulnerabilidade feminina em contextos urbanos. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com a responsável pelo estudo, a pesquisadora Fabiana Martins Dias de Andrade.
Você acredita que a sociedade reconhece plenamente o que é violência contra esse grupo?
A sociedade ainda não reconhece plenamente o que é violência contra as pessoas idosas. Embora existam legislações, ações e ampliação do debate público sobre a temática, muitos tipos de violência ainda são invisibilizados, seja por falta de conhecimento ou até mesmo por naturalização desse evento na sociedade.
Quais são os principais impactos físicos e psicológicos na vida de uma pessoa idosa que sofre agressão?
A violência contra a pessoa idosa pode causar inúmeras consequências físicas e psicológicas, o que pode agravar as condições de saúde, bem-estar e qualidade de vida. Podemos destacar as lesões corporais como hematomas, fraturas, queimaduras, cortes e escoriações. Também existe o comprometimento da mobilidade (quedas provocadas por agressões ou negligência podem levar à perda de independência), além de desnutrição, desidratação e complicações médicas devido à falta de cuidados. Em relação aos efeitos psicológicos, depressão, ansiedade, baixa autoestima, isolamento social, insônia, declínio cognitivo e até mesmo ideação suicida.
Como sintomas depressivos e multimorbidades contribuem para a exposição à violência?
Os sintomas depressivos e as multimorbidades (presença de duas ou mais doenças crônicas em uma mesma pessoa) contribuem para o aumento significativo da vulnerabilidade da pessoa idosa à violência. A depressão causa sentimentos de isolamento e apatia, reduzindo a capacidade do idoso de reagir ou denunciar a agressão. Já as multimorbidades aumentam a dependência física e emocional de cuidadores, tornando o idoso mais vulnerável a negligências e as demais formas de violência.
A subnotificação é um problema comum nesse tipo de crime?
Sim, o tema da violência é estigmatizado. Os idosos têm vergonha e medo de denunciar por depender da pessoa (geralmente, o agressor é um familiar ou cuidador). Já nos serviços de saúde, os profissionais ficam com receio devido ao medo de represálias.
Quais medidas concretas poderiam ser tomadas a partir dos resultados desse estudo?
Diversas medidas podem ser adotadas para enfrentar a violência contra idosos, como o desenvolvimento de políticas públicas que reduzam desigualdades sociais e de gênero, além da ampliação e qualificação dos serviços de assistência social. É essencial criar centros de acolhimento temporário para vítimas em risco, implementar programas de visitas domiciliares regulares a idosos vulneráveis e promover campanhas de conscientização sobre etarismo e relações intergeracionais.



