Entrada de 13 milhões de donas de casa no mercado elevaria PIB em 2,2%

Foto: Magnific.com

A entrada de 13 milhões de mulheres dedicadas exclusivamente aos afazeres domésticos no mercado de trabalho poderia elevar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2,2%, segundo estudo das pesquisadoras Isabela Duarte Kelly e Hildete Pereira de Melo, da Fundação Getulio Vargas (FGV). De acordo com a pesquisa, 42,8 milhões de mulheres estão fora da força de trabalho, sendo que 13 milhões não trabalham nem procuram emprego devido às responsabilidades com a casa, os filhos e a família.

O levantamento utiliza dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2025, do IBGE, e estima a renda que essas mulheres poderiam obter em ocupações remuneradas, considerando a escolaridade média do grupo. As estimativas indicam que essa inclusão poderia acrescentar R$ 284 bilhões à economia em 2025, já descontados os valores de benefícios sociais, como o Bolsa Família, que deixariam de ser recebidos sob a hipótese de substituição do auxílio pela renda do trabalho.

Para a economista Marcela Andrade, ampliar a participação feminina significa aproveitar uma parcela da população que já exerce uma função essencial para a sociedade, mas sem receber por ela. “Quando uma mulher consegue um emprego remunerado, passa a contribuir diretamente para a produção de bens e serviços, movimenta o consumo e pode ampliar a renda de sua família. No conjunto, isso fortalece a economia e aumenta a capacidade produtiva do país, porém, o trabalho doméstico não desaparece quando a mulher consegue emprego. Sem uma divisão mais equilibrada das tarefas, ela corre o risco de acumular jornadas”.

Além dos efeitos econômicos, a remuneração pode transformar a vida das próprias trabalhadoras. “Ter renda própria favorece a autonomia para tomar decisões, investir na formação profissional e construir uma reserva financeira. A dependência econômica de parceiros ou parentes, por outro lado, pode limitar escolhas pessoais e dificultar a saída de situações de violência ou vulnerabilidade”, completa.

A pesquisa ressalta que o grupo em questão não se caracteriza necessariamente pela falta de interesse em ingressar no mercado de trabalho, mas pelas dificuldades de conciliar uma atividade profissional com as tarefas domésticas e as responsabilidades de cuidado. Para ampliar essa participação, são necessárias políticas públicas que facilitem a conciliação entre trabalho e responsabilidades familiares.

A consultora de Recursos Humanos, Karine Soares, avalia que a principal barreira está na ausência de condições para conciliar emprego e responsabilidades familiares. “Não basta abrir vagas, é preciso garantir que essas mulheres tenham onde deixar os filhos, apoio para cuidar de familiares idosos, transporte acessível e oportunidades de qualificação compatíveis com sua rotina”. Ela acrescenta que a falta de experiência profissional recente e as exigências de horários rígidos também podem dificultar a contratação.

A participação feminina na força de trabalho permanece praticamente estagnada há quase 15 anos: passou de 52% em 2012 para 53% em 2025, segundo os dados apresentados no estudo. A pequena variação reforça a necessidade de ações que enfrentem obstáculos estruturais.

Para incentivar o ingresso das interessadas, as especialistas defendem que as iniciativas considerem as necessidades de cada grupo. “Cursos profissionalizantes com horários flexíveis, orientação para elaboração de currículos, apoio para recolocação e acesso a vagas próximas de casa podem ajudar quem ficou anos afastada da atividade remunerada. Empresas também podem contribuir com jornadas flexíveis, processos seletivos inclusivos e políticas de apoio à parentalidade”, conclui Karine.

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