
Pesquisa da Legisla Brasil sobre juventude e participação partidária aponta que o financiamento é um dos principais obstáculos para jovens em sua primeira eleição. Em 2024, candidaturas de 18 a 29 anos receberam, em média, R$ 23.028, cerca de 64% do valor destinado às candidaturas mais velhas, de R$ 36 mil. A diferença também aparece nos resultados: candidatos de 18 a 20 anos tiveram taxa de sucesso de 7,1%, contra 16% entre os de 35 a 44 anos. No total, jovens de 18 a 29 anos ocuparam apenas 6% das vereanças eleitas. O estudo combinou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com entrevistas com mais de 60 jovens, entre filiados e ex-filiados a partidos de diferentes espectros políticos. Os resultados indicam que as chances de eleição diminuem entre os candidatos mais jovens. Para discutir o assunto, o Edição do Brasil conversou com o diretor-executivo da Legisla Brasil, Fernando Haddad Moura.
Existem consequências para a democracia quando uma parcela expressiva da população jovem não consegue chegar aos espaços de decisão?
Sim, porque isso cria uma distância entre a participação política dos jovens e sua presença nos espaços de decisão. Em 2024, quase 30 mil pessoas de 18 a 29 anos se candidataram, mas apenas 6% das vereanças eleitas foram ocupadas por essa faixa etária, deixando demandas e perspectivas de uma parcela importante da população sub-representadas. Esse cenário também pode afastar os jovens da democracia, quando percebem que enfrentam mais dificuldades para chegar ao mandato.
Quais são as principais barreiras enfrentadas por um jovem que decide disputar sua primeira eleição?
O principal gargalo que verificamos está na passagem da candidatura ao mandato. Em 2024, a taxa de sucesso entre jovens de 18 a 29 anos foi de 11,9%, contra 14,4% entre os mais velhos; entre os de 18 a 20 anos, foi de apenas 7,1%, menos da metade dos 16% registrados entre candidatos de 35 a 44 anos. O dinheiro é parte do problema: candidaturas jovens receberam, em média, R$ 23 mil, contra R$ 36 mil das mais velhas. Somam-se a isso menor estrutura, apoio político e experiência eleitoral. Os dados de reeleição reforçam esse cenário: apenas 9,3% dos jovens estreantes foram eleitos, contra 64,6% dos que já ocupavam a cadeira. Assim, a principal barreira está em conquistar o primeiro mandato e, a partir dele, construir capital político para permanecer na disputa.
Que papel os próprios partidos têm nessa desigualdade e onde termina a dificuldade estrutural de uma eleição e começa a responsabilidade das organizações partidárias?
Os partidos têm um papel central nesse processo, pois definem o acesso a recursos, apoio e oportunidades de campanha. Por isso, as dificuldades dos jovens não podem ser atribuídas apenas às eleições. A pesquisa revela ainda uma distância entre o espaço que os partidos dizem oferecer aos jovens e o poder que efetivamente compartilham com eles. Muitas vezes, os jovens são mobilizados para tarefas de campanha, enquanto decisões sobre candidaturas, recursos e estratégias são concentradas.
As novas regras eleitorais ajudaram ou dificultaram a entrada de jovens na disputa?
Entre 2020 e 2024, as candidaturas jovens caíram 36%, contra 15% entre os demais grupos. A cláusula de desempenho e mudanças no quociente eleitoral podem ajudar a explicar esse movimento, ao aumentar a pressão por votos e recursos e levar os partidos a priorizarem candidaturas consideradas mais competitivas. Para os jovens, isso representa uma barreira adicional. Embora o financiamento médio tenha subido de R$ 7.609, em 2020, para R$ 23.028, em 2024, o valor ainda ficou abaixo do recebido pelas candidaturas mais velhas, mantendo a desigualdade de apoio.
O que os partidos poderiam fazer já nas próximas eleições para reduzir essa barreira à entrada de jovens?
O primeiro passo é garantir que os jovens participem das decisões dos partidos. Isso exige espaço real nas instâncias que definem recursos, candidaturas e estratégias. Embora existam mecanismos eleitorais de apoio a mulheres e pessoas negras, a juventude ainda não conta com instrumentos equivalentes. Por isso, os partidos poderiam fortalecer suas organizações de juventude, investir em formação, mentoria e preparação eleitoral, além de tornar mais transparentes a distribuição de recursos e a participação nas decisões.