
A entrada dos jovens de 16 a 29 anos no mercado de trabalho brasileiro é marcada por diferenças de renda, escolaridade, raça e região. É o que mostra a pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, realizada pela Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva. A formalização chega a 58% no Sul e a 55% no Sudeste, mas cai para 29% no Norte e apenas 20% no Nordeste. As diferenças também aparecem entre as classes sociais. Enquanto 43% dos jovens das classes A/B e 49% da classe C têm carteira assinada, o percentual é de 35% entre aqueles das classes D/E.
A escolaridade também influencia o tipo de inserção profissional. Os “bicos” são realidade para 34% dos jovens com ensino fundamental, contra 9% daqueles com ensino médio e 3% entre os que possuem ensino superior. Entre os jovens brancos, 49% estão em empregos formais, ante 41% dos negros. Além disso, 12% dos jovens negros recorrem aos “bicos”, mais que o dobro do percentual registrado entre os brancos (5%). Para entender melhor os dados, o Edição do Brasil conversou com a coordenadora do Observatório Fundação Itaú, Ana Maria Cardoso.
Quais fatores explicam as desigualdades na formalização do trabalho entre os jovens?
Essas diferenças estão relacionadas a fatores sociais, raciais, regionais e educacionais. Jovens de territórios e grupos mais vulnerabilizados têm menos oportunidades de continuidade dos estudos, qualificação e acesso a empregos formais. A necessidade de geração de renda também faz com que muitos ingressem mais cedo no mercado, o que pode dificultar a permanência na escola.
Por que jovens negros e de baixa renda estão mais presentes em trabalhos informais e “bicos”?
Isso é porque a necessidade de geração de renda é um fator importante. Esses jovens podem entrar mais cedo no mercado e ter dificuldades para conciliar trabalho e estudo. A menor escolaridade está diretamente associada à informalidade. Também pesam a sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidado, as dificuldades de deslocamento, o território onde vivem e o racismo estrutural.
O fato de 77% dos jovens conseguirem emprego por indicação revela uma dificuldade para quem não possui rede de contatos?
Sim. A indicação funciona como uma ponte de acesso ao mercado de trabalho, especialmente diante da falta de experiência, apontada por 49% dos jovens como a principal dificuldade. O grande problema é que as redes de contato não estão distribuídas de maneira igual. Jovens das classes mais altas e brancos têm maior acesso a essas conexões, o que pode reproduzir desigualdades.
Como a formação técnica pode contribuir para ampliar o acesso ao emprego formal?
A educação profissional e tecnológica é percebida por 91% dos jovens como um caminho mais rápido para ingressar no mercado de trabalho. Ela aproxima formação e prática e pode ajudar a enfrentar uma das principais barreiras apontadas pelos jovens: a falta de experiência. Quando articulada às necessidades locais e ao setor produtivo, essa modalidade de ensino pode ampliar as chances de inserção formal.
Como facilitar a entrada dos jovens no mercado de trabalho?
É necessária uma atuação coordenada entre políticas públicas, escolas, instituições de ensino e setor produtivo. É importante ampliar oportunidades de aprendizagem e estágio, fortalecer a educação profissional e tecnológica e aproximar os jovens das empresas. A escola também precisa prepará-los para a transição ao mundo do trabalho, com orientação, mentoria e desenvolvimento de competências. Também é importante descentralizar e fiscalizar as oportunidades de aprendizagem e estágio. Redes públicas de apoio, como a ampliação do acesso a creches, podem reduzir a sobrecarga de cuidados. Além disso, processos seletivos inclusivos e ações afirmativas podem contribuir para diminuir as desigualdades de gênero e raça.