
Durante décadas, as mãos dos artesãos do Vale do Jequitinhonha moldaram o barro para preservar tradições, contar histórias e garantir renda para famílias da região. Em setembro, esse patrimônio cultural ultrapassará fronteiras e ganhará espaço na Paris Design Week, um dos principais eventos mundiais de design e arte.
Entre os dias 10 e 14 de setembro, cerca de 150 esculturas produzidas por artesãos de quatro comunidades do Jequitinhonha serão apresentadas na Maison & Objet Paris 2026, considerada uma das mais importantes feiras internacionais de decoração, design, arte e lifestyle. As peças serão exibidas para compradores, galeristas, arquitetos, designers e curadores de diversos países.
As obras também integrarão a exposição “A Terra Modelada pela Arte – Exclusiva Vale do Jequitinhonha”, na Ricardo Fernandes Gallery, no bairro Marais, entre os dias 8 e 18 de setembro. A iniciativa é resultado de uma parceria entre o Sebrae Minas e o Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede).
Para a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mila Corrêa da Costa, a missão vai além da promoção comercial. “Vocês representam 21 milhões de mineiros, a cultura do nosso Estado e um patrimônio cultural imaterial que faz parte da identidade de Minas. O artesanato é capaz de unir desenvolvimento econômico, inclusão social e valorização cultural”.
Uma trajetória de valorização
A presença em Paris é resultado de um trabalho de longo prazo. De acordo com gerente regional do Sebrae Minas, Rogério Fernandes, são mais de duas décadas de ações voltadas ao fortalecimento da identidade, da gestão e do acesso a mercados para os artesãos da região. “Hoje atendemos cerca de 150 artesãos, sendo 96% mulheres, em quatro comunidades que se tornaram referência na produção cerâmica”.
O trabalho ganhou força em 2019, com o projeto “Identidade e Origem”, que culminou no lançamento da Marca Território Vale do Jequitinhonha, em 2021. Quatro comunidades são beneficiadas pela iniciativa: Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado.
Desde então, os artesãos participaram de exposições em espaços como o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), no Rio de Janeiro. Outro marco foi a criação da “Viagem para a Origem”, iniciativa que leva compradores para conhecer as comunidades artesãs.
Segundo Fernandes, a ação movimentou mais de R$ 450 mil em compras e encomendas em 2025. “Quando levamos os compradores para a região, eles conhecem a história por trás das peças e criam uma conexão direta com os artesãos. Isso gera valor e abre novas oportunidades de negócios”.
Identidade que ganha o mundo
A curadoria da exposição na Maison & Objet é assinada por Marco Aurélio Pulchério, que vê no artesanato do Jequitinhonha uma oportunidade de apresentar ao mundo uma produção singular. “Essa feira reúne aproximadamente 70 mil visitantes e 2.300 expositores de cerca de 140 países”.
De acordo com Pulchério, a mostra permitirá revelar ao público internacional muito mais do que as tradicionais bonecas de barro. “Estamos contando a história de comunidades que resistiram, preservaram seus saberes e transformaram sua cultura em arte”.
Participarão das exposições em Paris os artesãos Andréia Andrade, Augusto Ribeiro, Alice Costa, Anísia Lima e Adriana Xavier. Juntos, levarão à França obras inspiradas no cotidiano, na ancestralidade e na identidade cultural do Vale do Jequitinhonha.
Trabalho que passa de gerações
Filha e neta de artesãs, Anísia começou a modelar o barro ainda criança. “Eu tinha oito anos de idade, brincando junto com a minha mãe, fazendo as peças. É uma tradição de muitos anos”.
Ela lembra que no passado, as peças eram transportadas no lombo de animais para serem vendidas nas feiras da região. Hoje, vê o artesanato alcançar mercados que suas antepassadas jamais imaginaram. “É um sentimento de muita alegria e satisfação. Penso que as nossas avós sonhavam em ver o artesanato expandir, mas talvez não imaginassem que chegaria tão longe”.