Redução da desigualdade ainda continua um desafio persistente no Brasil

Foto: Magnific.com

A redução do desemprego e da fome está entre os avanços apontados pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades. Em 2025, o Brasil apresentou melhora em 71% dos indicadores analisados. Porém, a desigualdade de renda aumentou: o 1% mais rico passou a ganhar 31,5 vezes mais que os 50% mais pobres, contra 30,2 vezes no relatório anterior. Apesar dos avanços, a concentração de renda ainda representa um desafio para o país.

Os resultados positivos identificados pelo Observatório aparecem em diversas áreas, como emprego, renda, combate à pobreza, segurança alimentar, educação e saúde. Também houve avanços no acesso a serviços básicos, na redução de homicídios entre jovens, das emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento, além de maior presença de mulheres e pessoas negras em espaços de representação institucional.

Em contrapartida, 13% dos indicadores apresentaram resultados negativos. Entre os principais problemas estão o aumento da desigualdade de renda, do comprometimento excessivo da renda com aluguel e da população exposta a áreas de risco geológico. O relatório também aponta que pessoas negras continuam sendo maioria desproporcional entre a população carcerária brasileira.

A concentração de riqueza é resultado de fatores que se acumulam ao longo do tempo. Segundo a economista Helena Duarte, a desigualdade brasileira está ligada à formação histórica do país e à distribuição desigual de oportunidades. “Não se trata apenas de uma diferença entre quem ganha mais e quem ganha menos, as pessoas partem de condições muito diferentes. Quem nasce em uma família com patrimônio, acesso a boas escolas, melhor atendimento de saúde e uma rede de contatos tem mais possibilidades de acumular riqueza e transmitir todas essas vantagens para os filhos”.

Segundo Helena, os períodos de crescimento econômico produzem resultados diferentes entre as camadas da população. Quando há aumento da renda, por exemplo, famílias que já possuem patrimônio e investimentos podem ampliar seus ganhos por meio de juros, aluguéis e valorização de ativos. “Já os trabalhadores que dependem principalmente do salário ficam mais expostos ao custo de vida e às oscilações do mercado de trabalho. O crescimento econômico é importante, mas não garante, sozinho, uma distribuição mais equilibrada dos recursos. É necessário criar mecanismos para que os ganhos de desenvolvimento cheguem também às parcelas mais pobres da população”.

A população negra também continua sobrerepresentada no sistema prisional, outro sinal de que as desigualdades não se limitam à renda. Para o sociólogo André Nascimento, diferentes formas de exclusão acabam se reforçando. “A desigualdade econômica está relacionada a outras questões. Pessoas que têm menos acesso à educação, emprego formal, moradia adequada e serviços públicos enfrentam mais obstáculos ao longo da vida, quando essas dificuldades se acumulam, a possibilidade de ascensão social diminui”.

Entre as medidas apontadas pelos especialistas estão o fortalecimento dos serviços públicos, a criação de empregos formais e a valorização dos salários. Políticas de transferência de renda também podem garantir condições básicas às famílias vulneráveis.

Outra frente de discussão é o sistema tributário. Para Helena, uma tributação mais progressiva pode reduzir a concentração de recursos. “Quem possui maior capacidade econômica pode contribuir proporcionalmente mais para o financiamento das políticas públicas. Isso não significa apenas aumentar impostos, mas revisar a forma como diferentes tipos de renda e patrimônio são tributados. Os recursos arrecadados devem retornar à sociedade por meio de serviços públicos eficientes e investimentos que ampliem oportunidades”.

Nascimento ressalta que as mudanças precisam ser mantidas no longo prazo. “A desigualdade não foi construída em poucos anos e, por isso, também não será eliminada rapidamente. É necessário combinar políticas de proteção social com medidas estruturais que melhorem a educação, o mercado de trabalho, a moradia e a distribuição de oportunidades”.

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